Pé na Estrada

Fundação de Bolonha torna público acervo de Chaplin

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Ivy Fernandes de Roma

A Fundação Cinemateca de Bolonha, na Itália, está tornando público o arquivo completo de Charles Chaplin. Os mais de 30 mil documentos, cartas, fotos, podem agora ser acessados pelos sites www.charliechaplinarchive.org ou

http://www.cinetecadibologna.it/archivi-non-film/archivio_chaplin. Grande parte do material organizado ainda é ‘inédito’.

A iniciativa ocorre no momento em que uma de suas netas Carmem Chaplin, atriz e diretora de cinema, prepara um novo documentário sobre o avô que terá o título “Charles Chaplin, um Homem do Mundo”. O trabalho deverá abordar um aspecto do grande artista pouco conhecido do grande público. A origem cigana de Chaplin e como ela influenciou a sua vida e seu trabalho.

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Chaplin em “Tempos Modernos”

A fundação de Bolonha, que trabalhou na restauração e preservação da filmografia de Chaplin, está disponibilizando gratuitamente o acervo com mais de 4 mil imagens e cerca de 25 mil documentos digitalizados. O material cobre o período que vai do início da carreira do artista até seus últimos dias em Vevey, na Suíça, onde morreu no dia 25 de dezembro de 1977 aos 88 anos.

O site está organizado em seções temáticas, como suas viagens e sua conexão com a música, com a pintura etc. Há também uma seção de história, em que se pode encontrar material sobre suas ligações com outras personalidades, seu trabalho, suas compras de artigos de luxo e seus… cheques, que são os preferidos dos colecionadores de autógrafos.

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Jean Cocteau e Charlie Chaplin

Entre os documentos mais interessantes está a correspondência trocada com o poeta e escritor Jean Cocteau. Eles se encontraram em maio de 1936, em um navio com destino a Xangai.

O encontro propiciou o início de uma grande amizade. Foi tão significativo para Cocteau que ele o descreve da seguinte maneira: “Dois poetas seguem a linha reta do seu destino. De repente estas duas linhas se cruzam e o encontro forma uma cruz, se quiser, uma estrela. Meu encontro com Charlie Chaplin continua sendo o milagre desta viagem.” A correspondência entre os dois foi intensa até a morte de Cocteau em 1963.

Chaplin e Cocteau nasceram no mesmo ano, 1889. Homens muito diferentes e ao mesmo tempo com tantos pontos em comum, Chaplin e Cocteau tinham vários interesses: escrita, poesia, pintura, desenho, cerâmica e música. Interpretavam o trabalho como um divertimento, em que eram ao mesmo tempo protagonistas e espectadores.

 As influências ciganas de Chaplin

 Carmem Chaplin está preparando um novo documentário sobre o avô. Com o título “Charles Chaplin, um Homem do Mundo”, ela reflete sobre a origem cigana do artista e busca mostrar como essas raízes podem ter influenciado o trabalho do ator britânico.    

Na autobiografia publicada em 1964, Chaplin não esconde sua origem. Embora nunca tivesse mostrado uma certidão de nascimento, Chaplin conservava uma carta em sua mesa de cabeceira dizendo que havia nascido em uma caravana de artistas viajantes. Ele foi sempre muito consciente de sua origem cigana. “Ele disse a meu pai e a seus outros filhos que eles tinham origem cigana. Ele estava orgulhoso da sua descendência, mas parece que não nos lembramos disso”, explica Carmen.

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Chaplin em “O Ditador”

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Suas raízes poderiam ajudar a explicar sua oposição a Hitler, que é particularmente visível no The Dictator. Chaplin era um músico autodidata, e isto é algo muito cigano. “Quando você diz aos ciganos que Charlie era um cigano, eles lhe dizem que é óbvio. Eles contam que o seu senso de humor, sua maneira de contar histórias, a trágica comédia em seus filmes e sua trilha sonora, faz parte do DNA do povo cigano. Muitas coisas devem ainda serem descobertas sobre a origem da família Chaplin”, diz a neta.

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Uma vida de aventuras

Charles Chaplinteve dez filhos e 28 netos. Sua vida foi um verdadeiro filme de aventuras. Nasceu pobre em Londres e morreu riquíssimo. Estreou no cinema mudo com o personagem Charlot, em 1914,  jogando tortas de creme e sendo perseguido por policiais.

Casou a primeira vez em 1918, aos 19 anos, com Mildred Harris. A morte de um filho recém-nascido pôs fim ao casamento. Em 1924, casou com Lita Grey com quem teve dois filhos: Charles Junior e Sydney Earle Chaplin. Em 1927 se separaram.

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Chaplin e Paulette Goddard em “Temos Modernos”

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Em 1932, Chaplin se apaixonou pela atriz americana Paulette Goddard com quem fez vários filmes. O mais famoso, de 1936, é Tempos Modernos. Ficaram juntos até 1942. Chaplin acreditava que na travessia dos 50 anos, depois de três divórcios, dois filhos, era o momento de fazer uma pausa. Mas ela duraria pouco.

Em Londres, onde morava, ao visitar seu amigo Eugene O’Neill, dramaturgo Prêmio Nobel e Prêmio Pulitzer de literatura, uma jovem lhe abriu a porta, era Oona, uma menina de apenas 18 anos.

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Chaplin e Oona

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Ali nascia uma das mais longas e extraordinárias histórias de amor.  Casaram em 1943, com 35 anos de diferença. Sua primeira filha, Geraldine, nasceu um ano depois, em 1944. Aos 73 anos viu nascer seu último filho. Ao todo, Chaplin e Oona, tiveram 8 filhos, e o casamento durou até o último suspiro de Chaplin em 1977.

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O casal com seis dos oito filhos

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Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, Eugene Chaplin contou que quando eram pequenos as decisões da família eram tomadas por votação. “Votávamos nas grandes decisões e a maioria ganhava. Isso sempre correu bem. Claro que tínhamos visões e sensibilidades diferentes, mas tentávamos manter os valores que nossos pais nos incutiram. Infelizmente é difícil reunir todos os filhos hoje, mas nos comunicamos e nos encontramos separadamente. Geraldine, Josephine, Michael, Christopher, Victoria, Jane, Annette e eu estamos espalhados. Com exceção de Jane, que vive na Colômbia, e Josephine, que está em Paris, somos residentes suíços, mas viajamos muito. E agora são 28 netos! O nosso objetivo é fazer tudo o que podemos para que os jovens continuem a amá-lo e que o seu trabalho sirva de exemplo para os artistas do presente e do futuro.”

Encontros de Chaplin com Einstein…

… e com Ghandi

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“Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Falei várias vezes como palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que aplaudia.”

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