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Abertas as inscrições para o 9º Festival de Circo do Brasil

 

Danielle Hoover / Foto Divulgação

 

A produtora Danielle Hoover, coordenadora executiva do Festival, fala do processo de seleção dos trabalhos, da trajetória da mostra e do circo nordestino tradicional, que, ‘faz arte na garra”. 

Bell Bacampos

 

Danielle Hoover, sócia da Luni Produções e formada em Arte Educação pela Universidade Federal de Pernambuco, está à frente do Festival de Circo do Brasil (FCB) desde a sua criação, em 2004. Em entrevista ao site Panis & Circus, Hoover afirma que as inscrições para a 9ª edição do festival, abertas em 15 de maio, se estendem até 15 de julho. Em média, as edições anuais do FCB recebem cerca de 300 inscrições.    

Clique aqui para fazer sua inscrição no site do Festival. 

A 9ª edição acontece em outubro em Recife (PE). O conceito “Vertigem” vai dar o tom dessa nova edição que está em busca “do estreitamento entre a linguagem circense e o esporte radical”, informa o site do Festival.    

 

"Acrobático Fratelli", grupo paulista, em apresentação na Conde Boa Vista (Recife/PE) / Foto Costa Neto

 

Para Danielle Hoover, “Vertigem” é um conceito que serve para nortear e inspirar o Festival. Mas o tema fica definido mesmo após a seleção dos grupos e espetáculos que é feita entre julho e agosto.

“Com a chancela do Ministério da Cultura e patrocínio de instituições como Petrobras, Governo de Pernambuco, Fundarpe, Prefeitura do Recife, Prefeitura de Olinda, Consulado da França, Institut Français e Embaixada da Espanha, o Festival de Circo do Brasil se orgulha de prestar sua contribuição à arte circense brasileira, seja apresentando grandes espetáculos nacionais, trazendo importantes companhias estrangeiras, realizando turnês nacionais com montagens de sucesso ou promovendo oficinas e ‘workshops’ gratuitos”, destaca o site do Festival.   

 

“Vertigem” e “Diversão vai quebrar sua rotina”  

Em 2012, o tema do Festival foi “A diversão vai quebrar sua rotina”. De acordo com a coordenadora executiva, Danielle Hoover, a curadoria da 8ª edição do Festival estava ancorada na diversão. O clima dessa edição do ano passado não era privilegiar “números técnicos mirabolantes”, tudo estava “focado no lúdico”.

Artistas brasileiros e de seis outros países (Alemanha, Dinamarca, Espanha, França, Itália e Suíça) estiveram presentes no FCB de 2012 que contemplou trabalhos que usaram picadeiros inusitados. Em edições anteriores, eles apareciam na forma de uma parada de ônibus ou de uma cama.

  

Aurélia Thierée, neta de Chaplin, em apresentação na Praça Santa Isabel, no Festival de 2012 Foto/ Divulgação

 

O Circo Barolosolo (França) mostrou o número “Île O” em que dois musicistas se apresentam em uma piscina. Um deles não quer se molhar de jeito nenhum. “É um espetáculo para todos os públicos e bem bacana para crianças pequenas”, resume Danielle.

“La Lettera”, de Paolo Nani (Itália), clássico da comédia, criado pelo próprio artista, foi outro dos números internacionais. Ele recria uma mesma história, de 15 maneiras diferentes. Segundo Danielle, trata-se de “um número corporal, com uma linguagem universal, porque o clown é universal”. (Leia sobre “La Lettera” na seção Literatura nessa edição do Panis & Circus).

“Île O” e “La Lettera” estiveram também “Circus – 1º Festival Internacional do Sesc de Circo”, que ocorreu de 2 a 12/5, desse ano, em São Paulo.     

O número de Aurélia Thierrée, criado e dirigido por sua mãe, Victoria Thierrée Chaplin, filha de Charles Chaplin, utiliza técnicas de ilusionismo, marionetes, dança e tecido acrobático, entre outros. “Cirque Invisible”, de Victoria Chaplin, foi capa do Panis & Circus.

 

Seleção de grupos

A primeira seleção dos grupos e espetáculos para o FCB é feita pela curadoria do Festival “que trabalha no projeto desde a sua 1ª edição”, afirma Danielle Hoover. Depois, vem a triagem que leva em conta “viabilidade técnica, espaço e perfil”. É hora da terceira peneira, “em que uma equipe analisa os trabalhos selecionados anteriormente”.    

Em busca de números e espetáculos, os curadores do evento participam  também de festivais internacionais de circo e arte de rua como o de Demain (França), de Pennabilli e Fossano (Itália) e o de Moscou (Rússia)”, explica Hoover. 

 

“Arte na guarra”

Danielle Hoover afirma que o circo tradicional nordestino enfrenta dificuldades. “Apesar de o circo ser uma das poucas atividades culturais que chega às pequenas cidades do interior do nordeste do Brasil, onde não há cinema, teatro, biblioteca, centro cultural, não tem nem escola, o circo luta por sua sobrevivência ‘sozinho’. Não existem programas de apoio, de fomento, reciclagem ou aperfeiçoamento para os profissionais. Eles fazem arte na ‘garra’. O circo tradicional itinerante do nordeste luta para estar ‘vivo’!  

 

Circo Rebote, grupo do Distrito Federal, na 8ª edição do Festival/ Foto/ Divulgação

 

Distantes do circo itinerante, ela vê surgir novos grupos que mesclam a pesquisa da linguagem do circo tradicional e do contemporâneo.  

 

Teatro de Anônimo, do Rio de Janeiro, na Praça do Arsenal (Recife/PE) Foto/ Bruno Von Söhsten

 

A seguir, os principais pontos da entrevista do Panis & Circus com a produtora Danielle Hoover.

Circus:  Esse vai ser o 9º Festival do Circo do Brasil. O tema será “Vertigem”?  

Danielle Hoover: O tema ainda não é “Vertigem”… É a “intenção” dessa 9ª edição. Tentar fazê-la mais “viril”, mais “radical”, relacionando com arte de rua como o ‘Parkour'(arte do deslocamento, criada para ajudar a superar obstáculos desde galhos e pedras até grades e paredes de concreto. A cantora Madonna tem um vídeo com a arte do ‘Parkour’). Mas ainda não temos certeza de que vamos obter esse resultado. Vertigem seria, portanto, o nosso primeiro “mote”!

 

Circo Vox , grupo de São Paulo, na Praça do Arsenal (Recife/PE) Foto/ Hesiodo Goes

 

Circus: Palhaços ficariam de fora que tem como mote “Vertigem”?  

Danielle: De jeito algum…  Não existe Festival de Circo sem palhaços. Mas quem sabe teremos trabalhos mais “histriônicos”. Um tom acima…  Mas o certo é que teremos palhaços !

 

A equilibrista Jessica Arpin e seu número com a bicicleta Foto/Divulgação

 

Circus: Como é feita a seleção dos espetáculos e dos grupos?

Danielle: Alguns espetáculos são de artistas convidados. Outros são espetáculos que já vimos e que tem a ver com o que estamos pensando para a edição. Ainda outros surgem das inscrições dos grupos e espetáculos. Pode ocorrer também uma “repescagem” do arquivo de materiais que recebemos de anos anteriores.

A primeira “seleção” é feita pela curadoria do Festival. Pessoas que trabalham no projeto desde a primeira edição. Fazemos uma triagem de viabilidade técnica, espaço, perfil, e selecionamos previamente os grupos. 

No segundo momento, chamamos pessoas para assistir conosco a todo material pré-selecionado e normalmente dentro de dois ou três dias, começamos a fechar o ‘casting’ do evento.  

 

Le Passagers, grupo da França, criado em 1983, durante apresentação na Praça Arsenal / Foto Divulgação

 

Circus: Desde quando você responde pela produção do Festival? Até agora, sob sua gestão, qual foi a melhor edição para você?  

Danielle: Respondo pela produção do Festival desde sua 1ª edição em 2004. O Festival de 2012 foi uma edição leve e “divertida”, com atrações bem humoradas. Não sei dizer qual a melhor edição… tivemos várias boas edições, maiores ou menores. Acho que bom mesmo é o conjunto da obra.  Hoje nós temos uma pequena história com oito edições realizadas.

 

Maku Jarrak, palhaça argentina mostra suas excêntricas habilidades Foto/Divulgação

 

Circus: Apesar de se chamar Festival de Circo do Brasil tem números de estrangeiros. Como é feita a seleção desses números estrangeiros?  

Danielle:  Inclui números, oficinas e espetáculos estrangeiros. Nós recebemos cerca de 300 inscrições por ano.  Participamos de vários Festivais (de Artes Circenses) como o de Demain (França) Pennabilli e Fossano (Itália) e Moscou (Rússia). E de Festivais de Arte como Edimburgo (Escócia) e Avignon (França). 

 

Matapeste, grupo da França, há mais de 30 anos na estrada, no Parque da Jaqueira Foto/Costa Neto

 

Circus: Os circos nordestinos de lona estão em situação precária?  

Danielle: Os circos nordestinos de lona estão numa situação muito difícil.  Eles vivem à própria sorte. Não existem políticas públicas eficientes para este tipo de arte que circula pelos interiores do nordeste.

Suas necessidades e questões são as mais básicas: sobrevivência! Pouquíssimos circos de lona conseguem manter uma estrutura razoável. A maioria circula com grande dificuldade.

 

Teatro Necessario, da França, em apresentação do Festival de 2011 Foto/ Divulgação

 

Circus: Eles vão estar também representados no Festival? Ou a pegada será mais a do circo contemporâneo?  

Danielle: A pegada do Festival é mais contemporânea, mas sempre tivemos a inserção do circo tradicional. Em 2012, o principal número da Praça do Festival foi  “A Escada Giratória”,  de um circo tradicional pernambucano “Circo Bambolê”. Foi um grande sucesso. Vamos inseri-los da melhor forma para que fiquem “confortáveis” na programação. 

 

Tholl , do Rio Grande do Sul, em apresentação do Festival de 2008 Foto Divulgação

 

Circus: Quando você disse, em São Paulo (durante Circus – 1º Festival Internacional de Circo do Sesc) que os circos itinerantes nordestinos tinham que lutar pela sobrevivência e, por isso, não tinham como se preocupar com novas linguagens mas sim em se manter vivos,  verifiquei que sua fala surpreendeu alguns dos presentes. Por que?

Danielle: Apesar de ser uma das poucas atividades culturais que chega às pequenas cidades do interior do nordeste do Brasil, onde não tem cinema, teatro, biblioteca, centro cultural, não tem nem escola… o circo luta pela sua sobrevivência “sozinho”.  Não existem programas de apoio, de fomento, reciclagem ou aperfeiçoamento para os profissionais e artistas e eles intuitivamente se adaptam aos novos tempos.

Eles fazem arte na “garra”, e, na maioria dos casos, é difícil permanecer em atividade com uma boa estrutura. 

O circo tradicional itinerante do nordeste luta para estar “vivo”!

Na maioria das vezes, os circenses não têm documentos, não têm financiamento, não têm espaço público para montar a sua lona… O circo vive em situação de pobreza, sem ser “visto” pelo poder público, pela gestão pública cultural.  

Enquanto isso, o surgimento de grupos de circo (inicialmente de palhaços) formado por jovens de escolas sociais de circo ou intercâmbio entre artistas, é um fato novo por aqui.  Eles não são da tradição do circo, e se formam pela pesquisa da linguagem do circo tradicional e contemporâneo.  

Não há comparação ou julgamento de valor e mérito entre estas duas formas, até porque são muito 0distintas na proposta de vida. Cada uma tem a sua linguagem, importância artística e social.  

É apenas a constatação que, diante de tantas dificuldades básicas, é quase impossível o circo de lona (que circula duramente pelo interior do nordeste), superar tantos  problemas…  e isso se reflete na sua lona, na sua arte e na sua vida.  

 

 

 

Clique aqui para ler a reportagem do Panis & Circus sobre o espetáculo Le Cirque Invisible.

Clique aqui para ler a reportagem do Panis & Circus sobre a companhia Tholl.

Clique aqui para ler a reportagem do Panis & Circus sobre o espetáculo Romeu e Julieta do Grupo Acrobático Fratelli.

Clique aqui para ler o comentário do  Panis & Circus sobre o espetáculo Circo Vox encena história do picadeiro.

Clique aqui para ler o comentário do Panis & Circus sobre o espetáculo Se Não Chove Não Molha do Circo Vox

Clique aqui para ler a reportagem do Panis & Circus sobre o Circo Rebote.

 

 

Vídeo de Capa – Luni Produções

Postagem: Alyne Albuquerque

 

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One Response to "Abertas as inscrições para o 9º Festival de Circo do Brasil"

  1. Parabéns à Danielle Hoover e toda a equipe do Festival, precisamos de eventos assim para que cada vez mais a Arte faça parte de nossas vidas.

    Cláudia Cristal e Laura Azulay
    diretoras e coreógrafas

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