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Adeus, Palhaço Picolino! (1922-2018)

 

Ele deixa como legado a renovação do picadeiro nacional

 

Mônica Rodrigues da Costa, especial para Panis & Circus, e Da Redação

Roger Avanzi, o Palhaço Picolino II, um dos maiores nomes da arte circense brasileira, morreu, na segunda-feira (10/12/2018), data em que se comemora o Dia do Palhaço. Ele tinha 96 anos. Nasceu em São José do Rio Preto, no interior paulista, em 7 de novembro de 1922, e cresceu sob a lona do Circo Nerino, criado por seu pai, Nerino Avanzi, o Palhaco Picolino I.

Em 1948, casou-se com Anita Garcia, do picadeiro clássico de mesmo nome, e passou a maior parte da vida rodando pelas estradas brasileiras com a família no Circo Nerino e o Circo Garcia para levar as novidades culturais da capital – as musicais e teatrais — para as periferias e cidades do interior, até o final dos anos 1970. 

O que o liga às novas gerações de atores do circo é o seu mérito de ter aceitado e estimulado a renovação do circo, que conquistou os palcos do teatro e praticamente abandonou a tradição mambembe.

Hoje o Circo Zanni, aprendiz de Picolino e dos circos clássicos, é o grande herdeiro do picadeiro tradicional com roupagem contemporânea. Domingos Montagner, um dos criadores do Zanni, contou em entrevista em 2011: “Roger Avanzi, o palhaço Picolino I dava aula de palhaço, mas era diferente dessas que a gente vê hoje com a técnica europeia do clown. Ele ensinava o palhaço mesmo, da maneira como tinha aprendido com a família dele. A gente aprendia o tempo cômico, a fala, o andar. Era uma grande escola. Foi aí que vi no palhaço um caminho de ligação entre o lugar de onde eu estava vindo, que era o teatro, e o lugar para onde eu estava indo, que era o circo. Foi assim que consegui minha realização artística e consolidei minha maneira de pensar o teatro”.

Roger Avanzi contava nas entrevistas que concedia que, no circo teatro Nerino, na primeira parte dos espetáculos, a trupe familiar apresentava os números tradicionais, de trapézio, parada de mão, arame, lira, acrobacias aéreas e de solo, malabarismo e ilusionismo. Na segunda parte do espetáculo, a mesma trupe circense faz-tudo levava ao palco peças que eram famosas nos teatros burgueses ou aquelas populares preferidas do público, como “Coração Materno”, adaptada da canção de Vicente Celestino.

Em diversas entrevistas, Roger Avanzi declarava que suas técnicas foram todas apreendidas com esforço e muitos ensaios diários com irmãos e pais e outros parentes. Picolino II e Arrelia eram primos.

Esse aprendizado ocorreu com sua arte de palhaço, que Roger dizia que não era a sua atividade preferida, embora tenha sido a que lhe garantiu sucesso e longevidade em sua carreira artística. Ele começou a ser palhaço em 1932.

“No tempo em que nosso circo tinha teatro, havia dramas e comédias, de vez em quando eu usava frases que o Picolino I usava. Quando meu pai me punha para trabalhar nas peças, eu chorava de manhã até a noite, morria de vergonha e pedia: ‘Pai, me tira pai, ele não tirava. Aí eu tinha de fazer [o drama] no dia a dia. Eu encaixava algumas falas e ele dava risada. Dependendo do que estava acontecendo, eu soltava uma piada­”, contou Roger Avanzi.

A arte da palhaçaria foi justamente o maior legado de Picolino II a seus sucessores, sejam aqueles que se declaravam fãs incondicionais do palhaço, como Fernando Sampaio e Domingos Montagner (1962-2016), da Cia. La Mínima, sejam os outros palhaços e palhaças contemporâneos, como Raul Barretto e Hugo Possolo (Parlapatões) e Paola Musatti.

Roger Avanzi passou a ensinar o que aprendeu no seio das famílias em escolas de circo que surgiam nos anos 1960 a 1990, como a escola Piolin, e no espaço que conquistou celebridade na cidade de São Paulo nos anos de 1990, a Circo Escola Picadeiro, gerida pelo acrobata José Wilson, ele próprio de família circense tradicional, e Bel Toledo que tinha sido casada com Wilson e que hoje dirige o centro cultural Tendal da Lapa na zona oeste da capital paulista.

Em suas aulas ou oficinas de circo, Roger Avanzi, o Picolino II, ou simplesmente Picolino, costumava dizer que as técnicas de comédias, o estilo de interpretação e a indumentária do palhaço eram os elementos essenciais da palhaçaria, a começar pela maquiagem.

Pintura de palhaço 

1. Picolino com pintura de palhaço. 2. Ele perde parte da pintura. 3. Só branco nos olhos. 4. Resta apenas um olho branco. 5. Sorri ao se ver jovem. 6. Picolino jovem /Fotos Asa Campos

 

Contou Picolino em uma de suas entrevistas que a maquiagem de Picolino I e II fora criada por seu pai. Assim como fez com o figurino e até com as piadas típicas, Roger fez modificações para conquistar personalidade e estilo. “O artista deve se renovar. Fui modificando um pouco as piadas e um pouco da roupa. A roupa de meu pai era toda preta, como é minha calça. Eu achei escuro, até os sapatos dele eram pretos. Mudei para sapatos coloridos. O chapéu dele era preto também, é como se Picolino I estivesse vestido a rigor, numa casaca, para mostrar o ridículo do que é sério. Mas eu passei a usar paletó e chapéus coloridos.” Para Roger Avanzi, a personalidade do artista vem da maquiagem: “Cada artista cria a sua própria maquiagem. Falo para os alunos que eles não devem imitar outros palhaços na maquiagem”, ensinava.

Roger contou que o creme branco que sua mãe criou substituiu a tinta de maquiagem. “Antigamente, em São Paulo, havia uma família, a Rio Neves, que fabricava o creme branco, chamado de batom. Havia diversas grossuras e tamanhos. Mas minha mãe cozinhava [os ingredientes], tinha manteiga de cacau, sebo de carneiro. Agora, quase todo palhaço tem nariz vermelho, e eu não sei por que o do meu pai era preto, o meu ficou preto também”, me explicou Roger Avanzi em entrevista nos anos 1990.

Em 2004, Roger escreveu o livro Circo Nerino em parceria com a jornalista Verônica Tamaoki. Em 2009, ajudou a fundar, ao lado de Tamaoki, sua grande parceira de trabalho, o Centro de Memória do Circo, no centro de São Paulo.

O velório de Picolino ocorreu na terça 11/12, das 9h às 15 h, na Sala Olido, da Galeria Olido (av. São João, 473), onde está o Centro de Memória do Circo.  Seu Rogê, como também era conhecido, foi sepultado no Cemitério São Paulo (rua Cardeal Arco Verde), às 16h. 

Panis & Circus selecionou reportagens feitas com seu Rogê, o Palhaço Picolino, para homenageá-lo e lembrar que era impossível não rir de suas graças e deixar de se encantar com suas histórias.    

 

Palhaço Picolino deu o ar da graça na Bienal e Artes 

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 Picolino, em cena de vídeo-arte na 31ª Bienal de Artes em SP/Asa Campos

 

Palhaço Picolino vai desfilar na Unidos de Vila Maria

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Dani Bolinha, madrinha da bateria da Unidos de Vila Maria/Foto Asa Campos

 

Seu Rogê comemora aniversário na Escola de Samba Vila Maria/Asa Campos

 

Picolino: sucesso no desfile da Escola de Samba de Vila Maria

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Seu Rogê, o Palhaço Picolino, em cima do carro alegórico da Escola de Samba da Vila Maria, que o homenageou no Carnaval de 2014

 

Até amanhã, Palhaço Picolino

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Roger Avanzi e Picolinos no 1º Festival Internacional Sesc de Circo/Asa Campos

 

Picolino prestigia curta-metragem A Música do Circo Nerino

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Seu Rogê deseja “vida longa para o curta”. Brincadeira de palhaço que quer que o filme de 11 minutos ganhe mais 79 e se transforme num longa/Foto Arquivo

 

Quanto riso, quanta alegria!

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Roger Avanci e Bia Angelone no Centro de Memória do Circo no Dia do Circo

 

Espie pela cortina.  Hoje tem espetáculo: Centro de Memória inaugura mostra permanente

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Roger Avanzi com Verônica Tamaoki, do CMC, e Bell Bacampos, do Panis/Asa C

 

 

Verônica Tamaoki pesquisa a história do circo

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Livro de Verônica Tamaoki e Roger Avanzi 

 

Nerino: o histórico palco-picadeiro do Circo Nerino

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Roger Avanzi Filho, Nerino Avanzi e Roger Avanzi/Foto Reprodução

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