Arte em Movimento

Virada: Zanni fica longe de seu grande público

 

Pablo Nordio e palco às escuras durante apresentação do Zanni/Keiny Andrade-Folha Press

 

Da Redação*  

O novo modelo de Virada Cultural adotado pela Prefeitura de São Paulo, com descentralização dos eventos por bairros e zonas centrais da cidade, mostra que pode ser uma saída interessante para artistas e público, mas tem um caminho a percorrer e requer mais empenho dos organizadores para atingir esse objetivo.

No caso das artes circenses, os organizadores recuperaram um histórico território para o mundo do circo com a programação de apresentações no Largo do Paissandu. Mas a descentralização imaginada com o uso de espaços no Parque do Anhembi não deu certo e frustrou público e artistas. 

Maíra Campos aquece para apresentação do Zanni/Alessandra Fratus

 

Um dos circos mais prestigiados do país, o Zanni, escolhido para apresentação no Anhembi, sofreu com o tipo de palco definido para apresentação de shows musicais, distante da plateia, a falta de energia e a dificuldade de acesso do público. Uma pane elétrica deixou o palco sem luz por volta das 21h50, no sábado, 20/5. 

 

Lu Menin treina no Anhembi antes de entrar em cena/Alessandra Fratus

 

Antes do apagão foram apresentados alguns números como malabares, poltrona e bambolê.

 

Daniela Rocha-Rosa no número do bambolê/Alessandra Fratus

 

Sem luz no palco não enxergamos nada. Vamos parar até que o problema seja resolvido”, avisou um dos integrantes da trupe. A demora na solução desmobilizou o público e os artistas. O show acabou por não ser retomado. 

 

Daniel Pedro no número da poltrona/Alessandra Fratus

 

Mas esse foi apenas um dos problemas enfrentados pelo grupo circense, conforme reportagem publicada pela Folha de S. Paulo. O outro se refere à escolha do local de apresentação dos artistas circenses: um palco distante do público entre shows de Daniela Mercuri e Fafá de Belém.

 

Pablo Nordio e Marcelo Lujan no número de malabares/Alessandra Fratus

 

“Fazemos um tipo de arte para ficarmos próximo ao público, mas aqui tivemos de nos apresentar distante das pessoas e ainda entre shows musicais”, lamentou Marcelo Lujan, um dos integrantes do Zanni, grupo que tem entre seus fundadores o ator Domingos Montagner, que perdeu a vida durante as filmagens de uma novela no Rio São Francisco, em setembro de 2016.

Pablo Nordio veste a camiseta do Zanni/Alessandra Fraus

 

Pablo Nordio, outro membro da trupe, indica o caminho a ser observado pelos organizadores na próxima Virada. “Sempre participamos da Virada, mas em locais onde havia apresentações de teatro, circo, com um público voltado para esses tipos de arte.”

 

Lu Menin, Nereu Ramos e Daniel Pedro/Alessandra Fratus

 

A artista Lu Menin descreveu para o Panis & Circus o vivenciado no Anhembi. “O roteiro contava com a banda e os músicos convidados Nereu Afonso e Renato Farias, números como o da poltrona acrobática (Daniel Pedro), bambolê (Daniela Rocha-Rosa), cadeira (comigo), mesa acrobática (Daniel Pedro e Maíra Campos) e equilíbrio de pratos (Érica Stoppel), malabares e palhaçaria. Mas, um erro de programação esvaziou a plateia. No centro da cidade estava o palco do circo. E o Zanni entre Daniela Mercury e Fafá de Belém. Não fazia sentido. Não fez.” E finalizou afirmando: “pensar em levar o espetáculo para periferias e lugares que não têm acesso à cultura, sim! Mas levar pro Anhembi isolando e enfraquecendo o evento, não!”

O próprio secretário Municipal de Cultura, André Sturm, admitiu falhas ao tratar da pouca visitação registrada no Anhembi. “É claro que a inovação comporta parte de risco”, disse em artigo publicado na Folha de S. Paulo.

 

Público critica organização

Trupe se despede do público após 20 minutos no palco/Alessandra Fratus

 

Quem conseguiu chegar ao local da apresentação para ver o Zanni se mostrava aborrecido, segundo a Folha de S.Paulo. A documentarista Laila Valoiz, que levou o marido e o filho para ver o espetáculo criticou a estruturada do local. “Tive de pagar R$ 40 e deixar o carro superlonge. Essa apresentação, que seria mais infantil, ficou longe da gente, lá no palco, difícil para as crianças acompanharem. Meu filho pouco pode ver.”

A atriz Estefania Zanaro, reclamou da dificuldade para chegar ao Anhembi. Ela e seus três amigos tiveram de descer na Estação Tietê e depois seguir a pé até o local. “Aqui é superdifícil de chegar usando transporte público. É desgastante e desrespeitoso”, disse.

 

Saída dos músicos do Zanni no Anhembi /Alessandra Fratus

 

Se o Anhembi não foi uma escolha acertada para o Zanni, o Paissandu foi elogiado por Elisa Betti, professora, ao afirmar ao Panis & Circus que “essa Virada privilegiou o circo mais que as anteriores e pena que o Zanni ficou tão longe da gente”.

 

*Colaborou Antonio Gaspar e Lu Menin

Deixe um comentário

*