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Aparelhos cênicos surpreendem em “Fecunda”

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Monica Alla, de macacão preto; ao lado Maíra Campos, que veste figurino criado pela cenógrafa, no palco do Theatro Municipal em São Paulo

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Fernanda Araújo, especial para o site Panis & Circus

‘Fecunda – Uma Opereta Tropicalista’, espetáculo apresentado no Theatro Municipal de São Paulo, nos dias 15 e 16 de dezembro de 2020, teve o mérito de valorizar o feminino em diversas vertentes, do roteiro ao cenário, passando pelo elenco, produção e direção. Uma noite feita por mulheres, em homenagem às mulheres. Mas a surpresa ficou por conta dos aparelhos cênicos que deram volume e forma às performances, principalmente as aéreas, integrados ao conjunto da obra de forma harmônica e elegante destacando o trabalho cenográfico de Monica Alla, que divide a direção com Lu Lopes, a Palhaça Rubra — que por sua vez foi também a mestre de cerimônias do espetáculo. Sobre ‘Fecunda’, você confere aqui a matéria de Mônica Rodrigues da Costa.

Monica Alla – bailarina, acrobata, capoeirista, coreógrafa e diretora – utiliza as competências adquiridas ao longo dos mais de 30 anos de carreira para construir, com maestria, aparelhos que dialogam com a performance e o corpo de cada artista, com a proposta cênica, com o roteiro e a poesia inerente a cada produção. Um ofício que vem sendo apurado desde que fundou o Grupo Ares (e foi uma das fundadoras das companhias Nau de Ícaros e Linhas Aéreas). Monica trabalhou também em outros grupos, como Teatro do Ornitorrinco, Teatro da Vertigem, Acrobático Fratelli, Intrépida Trupe e Paraladosanjos, e desenvolveu projetos artísticos na Holanda e Inglaterra.

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Desafio de criar objetos cênicos especiais para o espetáculo ‘Fecunda’

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“Eu acredito que um processo de criação parte sempre de um devir criativo, uma ideia central que vai nortear e inspirar as imagens que virão. Quando passei de intérprete para diretora essa visão me foi muito cara, a de saber primeiro para onde quero me lançar, que emoções queria suscitar antes de chegar com um número ou ideia pronta. Acredito que isso de formalizar vem depois”, explicou Monica Alla sobre o processo criativo.

E todas as experiências adquiridas na vida são válidas. “Tudo vai acrescentando ao saber artístico. A capoeira, por exemplo, me trouxe uma grande capacidade de improvisação quando eu entrei no circo”, contou a diretora que trabalhou com capoeira e dança em Londres antes de ingressar no trabalho circense.

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Desenho das primeiras linhas do cubo
… e o cubo triplo de contorção no espetáculo ‘Fecunda’

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 “No ‘Fecunda’ não foi diferente. A ideia ou imagem que queríamos abordar era a da elegância feminina. Uma energia potente e sutil deveria emanar do palco. Pensamos que nada seria mais justo que colocar essa energia dominando o Theatro Municipal. Foi isso que norteou a escolha de todos os equipamentos, bem como a relação dos intérpretes com os mesmos e da luz com o todo, numa relação simbiótica: um determinado intérprete suscita um determinado equipamento, uma luz pode gerar um outro ritmo coreográfico, tal equipamento já traz uma dança por si só… cada caso um caso, sempre focando numa criação com ar, que inspire e que inove”.

A escolha dos equipamentos, da qual Monica se refere, condiz também com as recomendações deliberadas durante a visita técnica: o palco deveria estar ‘limpo’, ou seja, sem cortinas e rotundas, por conta da prevenção à Covid 19. Assim, sem cenário formal, um potente projetor foi utilizado para ilustrar as imagens nas paredes do teatro. 

 “A cenografia foi composta por imagens de vídeo arte, juntamente com uma composição de aparelhos aéreos inusitados. O mais inusitado possível para findar um ano inusitado, rompendo as fronteiras das linguagens artísticas tradicionais”. E o resultado ficou estampado no ar de forma sofisticada: “tudo pendurado no espaço, criando uma atmosfera cenográfica aérea e plural”.

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Candelabros de cristais …
… e cordas para performances aéreas

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Sobre alguns dos aparelhos de ‘Fecunda’, a diretora conta que “para ter uma ideia, tivemos três candelabros de cristal de diferentes desenhos; duas espirais douradas girando para o infinito; um cubo aéreo; um globo com uma contorcionista dentro simbolizando o mundo flexível. No solo, bailarinas com bexigas gigantes trazendo o útero feminino. Também no solo um aparelho inusitado compõe o cenário, o cubo triplo de contorção, e um aparelho de bambu, especialmente criado para o número de parada de mão. Enfim, muita coisa para tentar abarcar um pouco dessa ideia da elegância feminina.

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Globo com contorcionista…
… e espiral dourada no universo feminino…
…de bixigas gigantes como útero

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Salvador, um ferreiro de Cotia, foi o profissional escolhido para desenvolver os objetos cênicos. “A maioria das companhias trabalham com o Salvador, pois ele conhece o processo. Ele dá um palpite ou outro, questões técnicas e entrega tudo prontinho”.  

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Aparelho de bambu criado especialmente para o número de parada de mão
Aparelhos em cena …
… no espetáculo ‘Fecunda, uma Opereta Circense’, no Theatro Municipal

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Monica Alla foi também a responsável pelo figurino do espetáculo ‘Fecunda – Uma Opereta Circense’.

Sobre as novidades, a produção de Monica começa intensa em 2021. “Acho que vale comentar também que a ideia do feminino é o motor para meu próximo projeto, contemplado agora pela Lei Aldir Blanc. No entanto, vamos trazer outra característica feminina à tona: a resiliência. Essa força sutil e flexível que carregamos no peito e na coragem. Daí surge, claro, outros equipamentos: elásticos que se esticam e contraem em resistência sutil. Aguardem!”, resumiu Monica sobre a produção que a princípio se chamará ‘Resiliência – Substantivo Feminino’ e deve contar com a presença da filha, Gita Govinda, responsável pela iluminação de ‘Fecunda’ e de diversos shows musicais.

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Elástico vai simbolizar resiliência no novo espetáculo de Monica Alla/Foto Marco Shker

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Monica Alla, segundo o site do Grupo ARES

Monica Alla é coreógrafa, bailarina e acrobata, formada em capoeira pela (Associação São Bento Grande – SP). “Comecei minha pesquisa em dança aérea em 1999 quando me mudei para a Holanda. Ao voltar para o Brasil, fundei o Grupo Ares e comecei a pesquisar, desenvolver e trabalhar com o elenco, diferentes técnicas de dança aérea e vertical, como elásticos, rapel, cordas horizontais e verticais”, conta. No Brasil, transitou por diferentes universos artísticos. Fundou as companhias Nau de Ícaros e Linha Aéreas, foi integrante do Acrobático Fratelli e participou de montagens do Teatro do Ornitorrinco e Teatro da Vertigem. Em Londres fundou a The Capoeira Dance Company quando desenvolveu uma linguagem própria, a Flow Improvisation que une capoeira e improvisação. Seu primeiro contato com a dança aérea aconteceu em Amsterdam onde realizou uma parceria artística de sete anos com a companhia Kris Niklison KNTC, atuando como interprete, coreógrafa, assistente de direção, cenógrafa e figurinista em espetáculos premiados, apresentados em teatros e festivais de 20 países em 4 continentes.

www.grupoares.com.br/direcao
E-mail: artistico@grupoares.com.br

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Mônica Alla no palco do Theatro Municipal

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Legenda da foto de Capa – Objeto cênico projetado por Mônica Alla para ‘Fecunda’ / Fotos do espetáculo são de Paulo Barbuto

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