Picadeiro

As asas que acariciam a alma

 

 

Daniele Finzi Pasca, criador de “Corteo” e “La Verità”, é um homem que voa e faz os outros voarem.

Janaina Leite

 

Em tempos de Twitter, quando o mundo está reduzido a 140 caracteres, este texto poderia ser resumido assim: “Daniele Finzi Pasca é um homem que voa”. Poderia, mas seria inexato. O problema é que, apesar de nascido há 49 anos, ele não é exatamente deste tempo. Suas asas alcançam céus atemporais, onde as histórias, como as nuvens, mudam de formato e permitem um sem conta de analogias e interpretações.

Tido como um dos maiores diretores contemporâneos na área de espetáculos circenses e teatrais, Finzi Pasca é conhecido dos brasileiros. Trouxe ao país vários espetáculos, como “Donka – Uma Carta a Tchekov”, “Ícaro”, “Corteo” e “La Verità”. Crítica e público renderam-se ao universo onírico, mas pleno de humanidade, tecido por esse europeu oriundo de Lugano, principal cidade da chamada Suíça italiana.

 

Cena de "La Verità" , que estreou em janeiro de 2013, em Montreal, no Canadá / Foto Divulgação

 

Finzi Pasca tornou-se conhecido ao criar o Teatro da Carícia – método artístico que revela o encantado a partir de gestos baseados em simplicidade e leveza. Também é o fundador do Teatro Sunil, companhia teatral que abordou novos significados para as técnicas de clown, dança e jogo. Para ele, a perfeição física é algo que cabe aos ginastas. Aos artistas, o que importa é aperfeiçoar a alma ao máximo, até que possam tocar o intocado, a essência, e servir como espelhos perfeitos ao espectador.

 

Espetáculo "Donka- Uma Carta a Tchekov", de 2011 / Foto Divulgação

 

“É preciso treinar para que a realidade não pese, para que seja um pouco mais leve e simples em sua infinita complexidade. Entre nossos pés e o solo, vento”, afirma. Mas, pergunta-se, esse tipo de ascensão é tarefa de quem se apresenta ou de quem se ocupa do divino? “Eu não sou um sacerdote nem um xamã, sou um clown. Então, o que faço não são verdadeiros rituais; conto histórias feitas de uma matéria que poderíamos chamar de metáforas e que se abrem para a dimensão dos invisíveis.”

 

"Corteo", criado em 2005, por Finzi Pasca, está em turnê pelo Brasil / Foto Divulgação

 

Quem assiste as montagens entende. Schopenhauer, o filósofo da vontade e da representação, escreveu certa vez que a vida e o sonho são páginas do mesmo livro – ler essas páginas em ordem seria viver, enquanto folheá-las corresponderia a sonhar. Finzi Pasca é dessas pessoas que conseguem fazer com que as outras brinquem com o livro mesmo acordadas.

 

O voo, sob inspiração de Finzi Pasca, em "La Verità" / Foto Divulgação

 

O teatro, conforme pensado por gente como Finzi Pasca, é um antídoto à verborragia e aos diálogos comportamentais. O homem é mais do que seu dia-a-dia, mais do que sabe e disseca sobre si. Nas peças de Finzi Pasca há anjos, rinocerontes, véus, acordeons, moribundos e pedaços de carne. Tudo fala, mas fala diretamente aos olhos. Só depois do sentir nasce o pensamento. É uma vigília em que todos, no palco e na audiência, compartilham um sonho coletivo. “Um clown, quando atua, representa a vida, a história da humanidade, utilizando a linguagem aparentemente incoerente do nosso mundo inconsciente”, explica.

 

 

Hora, então, de voltar ao primeiro parágrafo deste texto. Ele ficaria melhor escrito de outro modo. “Em tempos de Twitter, quando o mundo está reduzido a 140  caracteres, quando a pressa dita regras, quando a superfície engole o profundo, o perfil aqui escrito poderia ser resumido assim: ‘Daniele Finzi Pasca é um homem que voa, mas gosta mesmo é de fazer as pessoas voarem’.”

 

Frases de Danielle Finzi Pasca: um clown contador de histórias

 

Daniele Finzi como clown / Foto Divulgação

 

“O circo é uma concentração de elementos míticos, a representação de reflexões muito antigas. A mim emocionam os funâmbulos; a outros, os trapezistas; e a outros, os malabaristas. O gesto acrobático é a representação de nossa forma de entender e lutar contra as leis da realidade. Descobrimos, no princípio, que o corpo está grudado no chão e, assim, começamos a dançar gestos que nos fazem voar.” 

 

Ensaio de Corteo em 2005 / Foto do Livro "Daniele Finzi Pasca - Teatro da Carícia"

 

“O clown interroga, leva a história, a humanidade. É o narrador. Um clown é o guia, é o Virgílio de Dante.”

“Sou um clown e conto histórias de heróis perdedores, daqueles que fazem o que podem com o que são, que, com honra e dignidade, perdem quase sempre. Aqueles que, no final da história, desvanecem discretamente.”

“O talento vem do nascimento, mas, depois, é preciso desenvolvê-lo para que dê frutos. Quando encontro alguém com talento, fico sempre fascinado. É uma qualidade humana que me põe de bom humor, que me faz sorrir, que me comove.”

“O polêmico é o malabarista das ideias.”.

“Certas ideias são como os pássaros que vêm fazer ninho em seus cabelos. É preciso golpear a cabeça de tempos em tempos para que partam.”

 

Durante os ensaios de "Donka" / Foto Livro "Daniele Finzi Pasca - Teatro da Carícia"

 

“‘Corteo’ foi um terreno de grande aprendizado e em que também pude declarar com liberdade minha filosofia de trabalho. Há anos faço as pessoas voarem; em ‘Ícaro’, carrego um espectador sobre meus ombros; em ‘Corteo’, tudo voa, o cenário, o clown que sobe ao céu com sua cama, anjos que chegam de todos os lugares. Nada muda, simplesmente mudam as medidas, mas a essência é sempre a mesma: gosto de fazer os outros voarem.”

 

Daniele Finzi Pasca, em frente a tela de Dalí , tema de "La Verità" ; e com a equipe de "Corteo"/ Fotos Divulgação

 

“Dirigir é um esforço de mediação entre imagens que povoam meus sonhos, a equipe e o vento.”

* Frases retiradas do livro “Danielle Finzi Pasca  – Teatro da Carícia de Facundo Ponce de León”.

 

 

 

 Postagem: Alyne Albuquerque

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