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“Athletis”, grau A da paródia circense

  

Fernando Sampaio em "Athletis"/Fotos Carlos Gueller/Divulgação

 

Fernando Sampaio: o Grande-Otelo-Chaplin tupiniquim

No solo “Athletis”, Fernando Sampaio se comunica com o público através da fala, da mímica e em diferentes suportes e linguagens: a do ator no palco, com bonecos que ele próprio manipula e em projeções de cenas de vídeo que fazem parte da narrativa do espetáculo e que são exibidas num telão. A peça esteve em cartaz por curta temporada no primeiro semestre de 2012.

São poucos os elementos cênicos de “Athletis”: o telão, um balcão à esquerda do palco para manipulação dos bonecos e alguns objetos. O forte da peça é o jogo interativo entre as cenas com projeção de vídeo e o trabalho de ator e palhaço de Fernando no palco.

O enredo é fragmentário. Sampaio interpreta vários personagens cômicos em esquetes curtas que se sucedem, todas com o tema da prática olímpica. São todos atletas. Entre as esquetes, há adivinhas, brincadeiras com sombra, halterofilismo, corrida, futebol.

Provoca riso o contraste do corpo magro do ator no papel de pesos pesados do esporte, reais e imaginários, como o Homem das Cavernas, que Fernando desenha entre os Flintstones e o palhaço tosco do circo mambembe, cujo mérito é já ter repetido centenas de vezes o mesmo número.

É essa a sensação diante da atuação de Sampaio. Tudo o ator transforma em números de palhaço, conhecidos de trás para diante, e sabe como ninguém adicionar sabor à clássica esquete de teatro de revista.

Um dos personagens de maior destaque é baseado no francês Pierre de Frédy (1863-1937), que deu origem à Olimpíada moderna e era conhecido como barão de Coubertin. Sampaio o interpreta em conferências que lhe são atribuídas e como boneco que manipula a si mesmo.

O discurso histórico e didático fica bem engraçado na interpretação do palhaço e ator cômico de expressão que é o Fernando.

Muitas vezes Sampaio lembra Grande Otelo (1915-1993), pelo estilo e perfil físico simultaneamente. Grande Otelo fazia rir enquanto dizia as frases mais comuns em uma prosódia pouco diferenciada do discurso coloquial.

Com Fernando Sampaio, os detalhes de inflexões de voz, as variações da expressão facial e a forma inocente e atrapalhada de errar os truques cômicos levam a plateia às gargalhadas.

Em todas as interpretações de atletas, Sampaio se sai bem, com recursos atraentes e que mostram desde o lançador de pesos até o barão. Está à vontade na pele dos personagens como ator, boneco ou entrando e saindo de cenas de vídeo que fazem palco e telão interagir, em excelente recurso de concepção e direção da montagem.

Destaque para o jogo de pingue-pongue em tempo real entre dois personagens de Sampaio, um deles na tela e o outro, no palco, desafiando a percepção do espectador em piadas entre o real e o mundo virtual.

O Coubertin de Fernando Sampaio repete o lema-bordão: “O importante não é vencer nem só competir, o importante é se divertir”.

 

 

Ficha técnica

Argumento: Fernando Sampaio e Domingos Montagner. Roteiro: Paulo Rogério Lopes, Fernando Sampaio e Domingos Montagner. Texto e direção: Paulo Rogério Lopes. Elenco: Fernando Sampaio. Assistente de direção: Suzana Rebelo. Desenhos do Barão: Laerte. Cenários: Domingos Montagner. Figurinos: Carol Badra. Adereços: Maria Cecília Meyer. Produção de vídeo: Ciro Bueno e Daniel Buonavoglia. Realização: ADH Cine Vídeo. Iluminação: Fernanda Carvalho. Trilha sonora: Beto Villares. Colaborações musicais: Antônio Pinto, Gui Amabis, Fil Pinheiro, Samuel Ferrari e Siba e Fuloresta. Engenheiros de som: Thácio Palanca e Thiago Perlmann. Preparação corporal de mímica: Newton Yamassaki. Contrarregragem: Marcello Stolai. Ilustrações: Gisele Silva. Costureira: Zezé de Castro. Maquiagem: JRO Santos. Perucas e bigode do Barão: Maracujá Laboratório de Arte (Sidnei Caria, Silas Caria, Tetê Ribeiro). Direção de produção: Luciana Lima. Produção executiva: Cátia Pires. Realização: La Mínima.

 

A peça não está em cartaz, mas, de vez em quando, volta aos palcos.

(Mônica Rodrigues da Costa)

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