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Backbone desafia os limites do corpo

 

Fernanda Araújo, especial para o Panis & Circus

Backbone ou Espinha Dorsal, espetáculo da premiada companhia australiana Gravity & Other Myths, deu luz ao circo contemporâneo ao construir um espetáculo acrobático com performances desafiadoras e produção acurada: trilha sonora ao vivo, iluminação atenta a cada número e roteiro pontuado por momentos de sensibilidade e humor. O espetáculo apresentado pela primeira vez na América do Sul foi um dos destaques da última edição do Festival Internacional Sesc de Circo, realizado no mês de junho.

A montagem, apresentada de 14 a 16 de junho, no Sesc Pinheiros, surpreendeu a todos na plateia lotada do teatro Paulo Autran (com 1.010 lugares) dos veteranos das artes, como Danilo Santos de Miranda (gestor cultural e diretor do Sesc) até os colegas de ofício circense contemporâneo. E, apesar da indiscutível qualidade técnica dos artistas, Backbone destacou-se pela sinergia entre as diferentes artes, igualmente bem cuidadas. Leia abaixo detalhes do espetáculo.

 

Pirâmide humana: artista sobe cerca de 4  metros do chão e dá salto mortal

 

O grupo Gravity & Other Myths – ou GROM, como é conhecido – surgiu em Adelaine, na Austrália, em 2009, e, além de ‘Backbone’, trabalha com dois espetáculos no momento: ‘A Simple Space’, apresentado 600 vezes, em 30 países; e ‘Out of Chaos’, que estreou em fevereiro último e ganhou o Helpmann Awards* de Melhor Produção de Teatro Visual ou Físico em 16 de julho de 2019.

A companhia tem direção geral de Darcy Grant, mas os espetáculos funcionam de forma quase autônoma. “Fiquei impressionado com a responsabilidade dos artistas. Não há um diretor de turnê. Normalmente, eles elegem alguns integrantes como interlocutor, mas todos sabem o que fazer, e fazem. E diante dos desafios, quase inevitáveis, eles lidam de forma madura. A disciplina e o respeito estão presentes em todos os aspectos”, conta Mark Bromilow, conterrâneo do grupo, diretor da Companhia do Polvo no Brasil e responsável por intermediar a vinda do espetáculo ao país.

Apesar de jovens, entre 19 e 35 anos, os artistas podem ser considerados veteranos, pois ingressaram na acrobacia de forma bastante precoce. Lachlan Harper, por exemplo, tinha 4 anos quando seus pais o colocaram na ginástica na tentativa de fazer o garoto ‘gastar energia’. Após 11 anos de treinamento, ele buscou uma nova maneira de explorar as capacidades acrobáticas de seu corpo. Seu primeiro contato com o circo foi quando um amigo o apresentou ao pitching (um tipo de número no qual o acrobata é arremessado). Apaixonado, ingressou no Instituto Nacional de Artes do Circo, onde se especializou em paradas de mão e acrobacias.

 

Integrantes de Backbone no Sesc Pinheiros / Carnival Cinema

 

Um dos fundadores do grupo, Martin Schreiber participou de diversas competições internacionais de ginástica e também ingressou cedo no circo. Suas habilidades incluem número de arremesso e acrobacias em conjunto.

Jascha Boyce brinca que sua vida tem sido uma performance desde que nasceu. Segundo ela, as apresentações de dança na sala de estar iniciaram logo que ela começou a andar. Aos 4 anos ingressou no circo e, após anos de treinamento, tornou-se a cara do grupo. Especialista em bambolê e adagio, ela é a protagonista de um dos números mais tensos de Backbone, no qual é passa segundos no ar, suspensa pelos colegas apenas pela cabeça.

 

Os números são exemplos de confiança

 

A cumplicidade entre os jovens também chamou a atenção de Mark Bromilow. “Eles têm noção da responsabilidade e dos riscos, então, há uma cumplicidade imensa. Confiança. Eles cuidam uns dos outros, passam férias juntos, são muito ligados. ‘No games’. No circo (na acrobacia) não há espaço para o ego, pois tudo é para o outro, diferentemente do teatro”, explicou Bromilow que estreitou o contato com o grupo em 2016, ocasião em que trouxe a montagem ‘Simple Space’, com apenas 10 integrantes, para um festival de cultura australiana em parceria com o Sesi.

Como parece, o circo tem se popularizado na Austrália nos últimos 25/30 anos, com escolas para crianças e adultos. “Os pais querem dar essa experiência aos filhos, não só pelo físico, mas pelos valores de respeito, cumplicidade, mistura de pessoas e faixas etárias. O circo traz uma série de coisas positivas”, afirma Bromilow. 

 

Cenário e iluminação impecáveis

 

E o espetáculo?

Explicar a maestria das cenas com palavras é um tanto complicado, mas a reportagem do Panis & Circus conta um pouco dessa magia.

 

O artista com armadura dá o tom de humor

 

No palco, os artistas começam deitados no chão, ao lado de uma arara com roupas penduradas, baldes de alumínio e um cavaleiro com armadura medieval. Aos poucos, em um tom de despertar, todos se levantam, pronunciam palavras um tanto desconexas e erguem varas de diferentes tamanhos na posição vertical, ao fundo.

Na lateral esquerda do palco, a ala tecnológica se une às performances acrobáticas. Uma mesa de som digital e uma bateria acompanham o ritmo das cenas, pontuando os movimentos ao vivo. A iluminação, colocada à frente dos equipamentos sonoros,  acompanha as ações por meio de seis canhões de luz posicionados no chão – as luzes de diferentes cores são direcionadas para a mesma quantidade de placas espelhadas no teto do palco, que redirecionam os focos de luz.

Na primeira cena de equilíbrio, três mulheres caminham sobre as cabeças dos homens, isto é, pisam sobre as cabeça dos rapazes que se posicionam em fileiras. Em seguida, nove artistas protagonizam outra cena de empilhamento triplo: três jovens se movimentam pelo palco sustentando dois artistas cada, em pé. Um dos artistas que faz a base se arrisca até a dançar.      

A iluminação e a música eletrônica indicam que algo dramático se aproxima. Os pequenos grãos que estavam nos baldes são jogados do chão, cobrindo a superfície do palco. Um artista arrasta o outro sobre os fragmentos, enquanto outro grupo faz uma pirâmide com latas na cabeça. Um clima de angústia toma conta da cena, da humanidade que também se arrasta, quem sabe – ou da necessidade de puxar o outro quando preciso.

 

Chicotada com elástico: o drama aos poucos toca o humor

 

Em roda, com um elástico na cintura, os artistas fazem um tipo de contagem sem ordem definida em círculo no qual só uma pessoa pode falar por vez. O desafio requer atenção e um bocado de sorte. Quem falar junto com o outro, como castigo, deve ficar no centro da roda e sofrerá uma estilingada dos colegas das pontas. O barulho do elástico chicoteando o abdome do infrator (ou vítima, depende do ponto de vista), é tão marcante quanto o vergão ali deixado. Aos poucos, o drama torna-se engraçado.    

Em outro momento, um artista com armadura medieval diverte o público dançando um passinho da moda. Na frente dele, números de arremesso de todos os tipos.

Uma moça surge arrastando uma pedra. Em um solo insólito, ela parece personificar a figura da mulher na sociedade atual… faz tudo sem abdicar à responsabilidade material e emocional ali implícita. O som e a iluminação potencializam as emoções.

No final, os dois números mais tensos do espetáculo: no primeiro, uma mulher é sustentada pela cabeça por dois colegas empilhados uns sobre os outros; no segundo momento, o corpo de uma moça é erguido sobre diversas varas que são retiradas aos poucos, até que o equilíbrio, no alto, se faz sobre uma única vara… (sim, ver tudo isso dá uma palpitação danada! Dá vontade de ficar lá embaixo apoiando uma possível queda, mas dá tudo certo, acredite).

Infelizmente, a agenda não prevê mais nenhum show no Brasil em 2019 mas, enquanto isso, clique aqui para conferir o site e se surpreender com os projetos da companhia. Fica o apelo: Gravity & Other Myths, volte logo.             

 

  

Ficha Técnica: Backbone
Direção: Darcy Grant

Elenco: Martin Schreiber, Lachlan Binns, Jascha Boyce, Jacob Randell, Lewie West, Lewis Rankin, Joanne Curry, Mieke Lizotte, Lachlan Harper e Jackson Manson
Produção no Brasil: Companhia do Polvo – Mark Bromilow, Mari Savarese e Natalia Presser
Apoio: Embaixada da Austrália

 

*Helpmann Award, prêmio de maior prestígio da indústria de entretenimento ao vivo da Austrália, foi criado em 2001. O nome do prêmio é uma homenagem ao australiano Robert Helpmann, ator, coreógrafo, dançarino e diretor de teatro.

O crédito de todas as fotos é do Carnival Cinema. 

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