Picadeiro

Cachimônia é lindíssimo e engraçado

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Beatriz Antunes, especial para Panis & Circus

Com o espetáculo Cachimônia, criado em 2019, a dupla Maíra Campos e Daniel Pedro, da Cia. Artinerant’s, encerra a sua instigante trilogia de espetáculos de circo contemporâneo em que o tema central é a relação amorosa.

Envoltos numa atmosfera de intimidade que não envolve apenas os personagens Ele e Ela que dividem o picadeiro em Vizinhos (2014), Balbúrdia (2017) e Cachimônia, mas também a intimidade dos artistas em cena, a trilogia esmiúça as relações entre as artes do corpo e a vida cotidiana. Circo, dança, teatro físico, palhaço: eis algumas das expressões que atravessam os três espetáculos e que foram exibidos, excepcionalmente por meio digital por conta da pandemia, no mês de maio, e que compuseram a primeira Mostra de Repertório da companhia.

Em Cachimônia, o casal se entrega a uma noite de embriaguez e delírio em sua casa no campo. Compatilham vinho em lugar de leite, que aparece nessa noitada como garrafas vazias, onde brincam de se equilibrar. Usando a linguagem mista que caracteriza a pesquisa da companhia, circo, dança, acrobacia, teatro e música dão contorno a uma atmosfera onírica em que o casal experimenta viver desejos confessados somente por conta da embriaguez.

Mais do que nos espetáculos anteriores, a dança é o eixo em torno do qual se dá a interação de Maíra e Nié. É o que se vê na cena em que Ela desconcerta o parceiro ao lhe dar de presente um par de botas brilhantes. As botas trazem para a cena um certo ar de Lady Gaga, que surpreende o público e o faz ansiar pela reação do homem: será que ele vai calçá-las? A expressão vencida de um palhaço atordoado toma conta de Nié, aumentando o suspense e recolocando o jogo cênico nos termos da provocação e do desafio, que já vimos em outros espetáculos e que de certa forma caracterizam a companhia. Depois de um arranjo rápido de cabelo e postura, eis que Ele se ergue ligeiro, e onde havia um corpo tímido e constrito, agora fica em pé um homem firme, consciente de cada músculo de seu corpo, Ele encarna a dança. Lado a lado e calçados em seus respectivos saltos, altíssimos por sinal, Maíra e Nié ficam de frente para o público e dançam. É dança, e também é circo, é equilíbrio e apoio, e nessa intenção narrativa estruturada em cena através da coreografia, o espetáculo condensa, de maneira muito original, o humor, a dança e as artes circenses.

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É digo de nota, ainda, que neste encerramento da trilogia há um evidente amadurecimento da relação entre os personagens já evocados antes, pois Ele e Ela  nunca estiveram tão empenhados nas mesmas ações e intenções como aqui. Em Vizinhos, tratava-se de parceiros cujas vidas andavam em paralelo e só ocasionalmente se encontravam; em Balbúrdia, era um casal sempre à beira do colapso buscando maneiras criativas equilibrar a vida em meio ao caos.

Em Cachimônia o que não há é desencontro. Pelo contrário, é a história de uma grande união, em que o amor é compartilhado até mesmo no “dark side” dos desejos inconfessáveis que só podem vir a tona trocando o leite de todo dia pelo vinho tomado ao longo de toda uma noite. Até quando Ela mais parece estar fatal, e aqui a expressão é precisa, pois além de usar salto alto e vestido preto, o que ela lança contra um alvo móvel controlado por Ele é uma faca, até mesmo nesse esprírito de vale-tudo eles se encontram. E pouco a pouco vão conduzindo a parceria para a gentileza, o abraço, o dueto a meia-luz e finalmente ao cansaço de uma noite em que foram tudo o que quiseram.

Cachimônia ‘é lindíssimo’.

*Editora autônoma e co-autora com João Bandeira de “De gatos e galáxias – Trajetória poética de Haroldo de Campos”

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