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Cachimônia fecha trilogia da Artinerant´s

Dança em Cachimônia …
… macaca e o castelo de madeira em Balbúrdia …
… e o pássaro negro no arame em Vizinhos

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Mônica Rodrigues da Costa*

A temporada da 1ª Mostra Virtual de Repertório da Artinerant´s com a trilogia Cachimônia (2019), Balbúrdia (2017) e Vizinhos (2014) se encerrou em 13/8/2021 no YouTube, com Maíra Campos e Nié Pedro, também artistas do Circo Zanni.

O repertório deixa clara a linha de trabalho da companhia, que experimenta uma dramaturgia de ações justapostas, configurando uma narrativa misturada entre teatro e evoluções acrobáticas e de equilibrismo.

Cachimônia, que fechou a temporada, representa o dia a dia inusitado de um casal. A peça tem início em uma comemoração com vinho à mesa de jantar. Acontece que a mesa começa a girar involuntariamente. Os artistas sobem então nela para apresentar suas performances. Maíra e Daniel Pedro seguem uma rotina, mas embaralham as cartas.

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Tecido brocado no chão evoca ação de contar histórias na mesa giratória…
… e o andar em cima de garrafas após embriaguez dos sentidos em Cachimônia

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O casal dança agora no picadeiro e se multiplica em vários personagens com o apoio de pedaços de corpos com os quais contracenam. Em seguida se expandem a um entra e sai de dentro de um quadro negro feito de elástico. A dança logo se transforma em números de acrobacia e equilibrismo no solo e no ar.

O inusitado da sequência de ações de Cachimônia faz jus ao conteúdo explosivo de significações. Em outras palavras, corporifica a imprevisibilidade da arte surrealista, que muda de lugar e função todos os objetos cênicos.

É a cara do circo novo, em que cadeiras são parte da pirâmide humana e que qualquer relevo é palco para o equilibrismo antes restrito ao arame tenso. É como se todos os objetos cotidianos tivessem se transformado em aparelhos de circo.

Como o circo teatro de antigamente, são peças satíricas, mas leves. O enredo da trilogia trata da vida urbana de um casal no ambiente do picadeiro. Os atores fazem um pouco de tudo conforme a tradição circense, são músicos, dançarinos, cômicos, equilibristas, acrobatas, mímicos e performáticos. A direção é de Lu Lopes, a palhaça Rubra, atriz premiada, que realiza os próprios espetáculos.

O grupo Artinerant’s completa sete anos neste 2021. Vizinhos, peça de teatro físico (com força nos movimentos) e sem diálogos, retrata a rotina de um homem e uma mulher numa casa. Os outros dois espetáculos são também sem palavras.

Em Vizinhos, o aparelho de arame tenso da equilibrista tem o fio usado como varal, a cama serve para fazer acrobacias e coisas parecidas ocorrem com todos os objetos do palco. A trama é criativa e por isso gera ambiguidades. São vizinhos ou estão casados?

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Livro pega fogo ao lado da toura …
… e agora o acrobata com a coelha

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No século 21 a arte é polissemia mesmo, e experimental. As duas primeiras décadas começaram com o paradigma da inovação. A arte hoje remete a outras artes, sobretudo às de vanguarda na Europa a partir da metade dos anos de 1800 – simbolismo, dadaísmo, cubismo, surrealismo e outros ismos.

A trilogia produz imagens inéditas no circo que nos fazem estranhar o cotidiano. Balbúrdia mostra o espírito heterotópico, opostos, disparidades.

Em Cachimônia, Nié Pedro dança para completar a performance acrobática e a dançarina cumpre seu destino ao andar como macaca, coelha, touro (ou taura como quer a diretora Lu Lopes), cabra ou gente, mas sobretudo como a aramista que faz de qualquer superfície estirada um fio para dar os passos da experiência, única a cada vez, de equilíbrio no arame.

Balbúrdia expande o rearranjo paródico dos objetos. Para alguns, como o filósofo Jean Baudrillard (1929-2007), as peças seriam o simulacro que aparece em todas as esferas da vida, o espelho com nossa ilusão. Para o surrealismo são imagens nascidas de ações desautomatizadas e por isso inovadoras.

O número de equilíbrio cruzado em Balbúrdia, em que Maíra e Daniel ficam em cima de uma tábua apoiada em dois carreteis e dão passos de cinema mudo.

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Cordas poéticas em …
… contraste com o barulho da esmerilhadeira …

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Em Balbúrdia a mulher sobe às alturas com fluidez, pelas cordas penduradas no  meio do cenário. O homem faz evoluções de solo e mexe com equipamento elétrico que solta faíscas. Ambos estão em contraste, mas próximos, já que fazem acrobacias de dupla com variadas interações.

O procedimento é o da mesma mistura presente em Vizinhos e Cachimônia. Com a visão do dia a dia entrelaçada à trama do circo, a linguagem explora a vida real passada a limpo sob a lona, contém o difícil e o alegre, o vivaz apaixonado e a nostalgia irônica dos palhaços.

Assim que o filme de Cachimônia começa o espectador percebe logo o cenário amalgamado. A cenografia (Artinerant’s) é uma roda de picadeiro sobre o chão, mas não é feita de lona, e sim de tecido brocado, decorado, daqueles de origem árabe e que no espetáculo evoca, por exemplo, a ação de contar histórias. A alternância de cores no palco faz o bordado brilhar e dá ao ambiente ar de cabaré.

A cada número ocorre igualmente um rearranjo da gesticulação. É um universo em ebulição, vaivém dos astros em translações. A mesa da sala vira um palco giratório onde Maíra e Daniel fazem evoluções que ora os aproximam, ora os afastam.

Os gestos (teatro físico) do elenco são revelados por repetições. O público constrói sua própria narrativa. Qualquer que seja ela, não prescinde do circo, que está na mistura do experimental com a tradição de picadeiro, do lírico com o cômico, da música erudita com a popular e com a que se popularizou.

Onomatopeias da fazenda estão costuradas na trilha sonora e destacam o contraste entre a música urbana e o repertório rural evocado.

O circo na releitura esperta de saltos e giros acrobáticos, passos de dança, mímica e performance produz plasticidade e arma peripécias.

Maíra Campos e Nié Pedro, com a direção informada de Lu Lopes, impõem serenidade diante dos passos e saltos a serem dados, mesmo no número da atiradora de facas, em que a atriz ameaça a plateia (ironicamente imaginária), porém acerta um coração desenhado no cartaz pregado nas costas de uma cadeira em cima da mesa.

Maíra se arrisca ao se equilibrar andando sobre garrafas de vidro, como falsária da arte de se equilibrar do arame – operação metalinguística das melhores. Na trilogia, os corpos em movimento narram parte de uma mesma história sem palavras, como o continuar dos dias.

*Jornalista especializada em infância, crítica de teatro e professora. É autora do livro de poesia “Perda Total” (Ed. de los Bugres, 2019).

Fichas técnicas

Balbúrdia e Vizinhos

Em cima dos carretéis: equilíbrio com passos como no cinema mudo em Balbúrdia
E na cama com os travesseiros em Vizinhos

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Direção: Lu Lopes

Criação e elenco: Daniel Pedro e Maíra Campos

Cenografia: Cris Decot (“Balbúrdia”) e Flavia Mielnik (“Vizinhos”)

Figurino: Artinerant’s

Desenho de luz: Paulo Souza

Trilha sonora: Artinerant’s e Lu Lopes

Iluminação: Carlos Eduardo Sporkens

Cenotécnica e contra-regragem: Edimar Santos

Produção: Marina Ferreira

Cachimônia

Cena de Cachimônia 

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Direção: Lu Lopes e Tato Villanueva

Criação e elenco: Nié Pedro e Maíra Campos

Figurino e cenografia: Artinerant’s

Adereços: Cris Decot

Direção de arte: Joana Lira

Arranjos musicais: Renato Faria

Coreografia: Marcelo Vasquez

Desenho de luz: Dodô Giovanetti

Cenotécnica e contra-regragem: Edimar Santos

Trilha sonora: Fê Stok e Lu Lopes

Design gráfico: Agatha Campos

Filmagem: André Marques Albuquerque

Produção e idealização de projeto: Eu.Circ (Marina Ferreira)

Foto de Capa – Cena da dança de salto alto em Cachimônia / Paulo Barbuto

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