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“Cachimônia” mexe com as cabeças

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Dario Palhares*

Apresentado ao vivo em 4 de setembro, nos derradeiros instantes da 6ª edição do Festival Internacional Sesc de Circo (CIRCOS), o espetáculo “Cachimônia” (www.youtube.com/watch?v=7rXTDxI9tKk), da Cia. Artinerant’s, poderia, perfeitamente, integrar mostras da produção teatral contemporânea. Protagonizado por Maíra Campos e Daniel Pedro, o Nié, o trabalho – também exibido recentemente na Mostra de Repertório do grupo – promove uma feliz e original fusão de duas artes do passado: o teatro circense, uma das principais atrações dos picadeiros entre o século 19 e as primeiras décadas dos 1900, e o cinema mudo, que esteve em voga até o fim dos anos 1920. Como seu título indica, entretanto, “Cachimônia” (“cabeça” como “centro do intelecto”, segundo o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”) provoca mais reflexões do que risos.

A trama se desenvolve em uma casa no campo, como indicam, logo na abertura, pios, cacarejos, mugidos e balidos ao fundo. As semelhanças com a célebre canção de Zé Rodrix (1947-2009) e Tavito (1948-2019), de 1971, se resumem, contudo, aos “carneiros e cabras pastando no (meu) jardim” – que se prestam, inclusive, a uma inusitada ordenha de vinho por Maíra.

A degustação da bebida é o ponto de partida da interação e das performances dos artistas: primeiro ao redor e sobre uma mesa giratória; depois em um bailado, ao som da valsa “Gramofon” (Eugen Doga), do qual “participam” braços e uma cabeça postiços, esta afixada no topo do chapéu de Maíra.

O recurso a acessórios e equipamentos originais é uma das marcas registradas da Artinerant’s. O destaque em “Cachimônia” fica por conta de uma grande estrutura metálica vazada, em formato de cubo, que se presta a vários fins. De início, a dupla se entremeia às tiras de tecido fixadas verticalmente na parte frontal da caixa para executar uma divertida coreografia do gênero “esconde e revela”, que traz à memória técnicas usadas no teatro negro de Praga. Mais à frente, a peça serve de suporte para exibições de arremessos de facas e de equilibrismo, a cargo de Maíra.

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São as exibições conjuntas, no entanto, que compõem a linha mestra de “Cachimônia”. O cardápio inclui elaboradas acrobacias no chão e sobre a mesa, um bailado à la Broadway, no qual o dueto se equilibra sobre sapatos de salto alto dignos de roqueiros da vertente heavy metal, e um solo de trombone de vara de Nié como acompanhamento para evoluções de Maíra no solo e sobre uma pilha de cadeiras. A colaboração atinge o ápice durante a caminhada da equilibrista sobre garrafas de leite, cuja trajetória é “pavimentada” e suportada pelo dedicado parceiro.

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A jornada transcorre sem rusgas. Maíra até “incorpora” uma cabra, mas não pega no pé de Nié, como em alguns hilários momentos de “Vizinhos” e “Balbúrdia”, os dois primeiros espetáculos da Mostra de Repertório. No fecho, ela interpreta ao megafone “Azul”, de Maria Tereza Lara, acompanhada por seu par ao trombone. A canção prossegue na voz de Natalia Lafourcade, que embala em blue a dança final do casal.

*Dario Palhares é jornalista e artista plástico. Faz arte com papel trançados e colagens, entre elas, uma sobre a lona de circo – conforme se vê abaixo.  

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“Cachimônia” une os fios de “Vizinhos” e “Balbúrdia”

Cachimônia faz parte trilogia da Artinerant´s, dos artistas Maíra Campos e Nié Pedro, também sócios fundadores do Circo Zanni. Os outros dois espetáculos, Vizinhos e Balbúrdia, também podem ser vistos em vídeos on demand do Sesc. Leia abaixo também os dois comentários de Dario Palhares sobre Balbúrdia e Vizinhos.  

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Cachimônia no ar …

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… Vizinhos de ponta cabeça

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… e Balbúrdia nas cordas

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A versátil bagunça de “Balbúrdia”

Dario Palhares

Em seu formato tradicional, os espetáculos circenses sempre foram calcados em performances de vários especialistas, cada um na sua. Mágicos e ilusionistas dão toques de mistério às sessões sob a lona, o frisson das plateias fica por conta de equilibristas, malabaristas, atiradores de facas e trapezistas, as gargalhadas são garantidas pelos palhaços, e assim por diante. Novas gerações de profissionais do picadeiro, no entanto, vêm subvertendo esse regime de “reservas de mercado” e “invadindo” as praias de colegas do ramo. Dois exemplos são Maíra Campos e Daniel Pedro, o Nié, da Cia. Artinerant’s, de São Paulo, que dão banhos de equilibrismo, acrobacias, coreografias, humor e artes cênicas em geral em “Balbúrdia”, o segundo vídeo da sua Mostra de Repertório.

Gravada em março no Circo Zanni, que tem a dupla entre seus sócios-fundadores, a produção é estruturada, em boa parte, em dois eixos espaciais – um vertical, outro horizontal. O destaque, no primeiro, fica por conta da apresentação de Maíra em um original aparelho composto por uma trave da qual pendem longas cordas brancas. Tal e qual uma aranha em seu habitat, a artista, que está completando 20 anos de trajetória, não apenas deita e rola como, também, enrosca, dependura e estende seu corpo na estilosa teia. Em meio aos movimentos, ela encontra tempo para “anunciar” a sua presença ao parceiro: com o auxílio de um estilingue que trazia pendurado ao pescoço, atinge com um pequeno petardo o incauto Nié, às voltas com uma lixadeira elétrica.

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Balbúrdia: passeio de carro com carretéis

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A criatividade de “Balbúrdia” se estende ao solo do picadeiro. Com o auxílio de dois carretéis de madeira e uma tábua, a dupla de protagonistas simula um passeio de carro – trazendo à memória, de forma simultânea, o singelo brinquedo improvisado por crianças dos quatro cantos do planeta ao longo dos séculos e o clássico número do calhambeque dos palhaços. De quebra, os apetrechos servem de base e suporte para manobras de improvisadas cadeiras de rodas, apresentações individuais de equilibrismo e uma soberba exibição conjunta de acrobacia.

No fecho do espetáculo, Maíra fica, literalmente, com a macaca, em uma encenação que remete aos grandes momentos das comédias do cinema mudo. Com uma máscara de símio sobre a parte posterior da cabeça, a personagem até tenta, de maneira desastrada, auxiliar Nié na montagem de um castelo de cartões. “Expulsa” da atividade pelo parceiro, ela passa a realizar evoluções na trave e na corda bamba, enquanto se prepara para novas travessuras e bagunças. O intento é alcançado, em grande estilo, com um puxão de corda, que coloca abaixo a recém-concluída obra de Nié, provocando a fúria e tentativas de represálias de seu autor. Uma hilária e total Balbúrdia!

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“Vizinhos”: palco iluminado

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Impossível assistir a “Vizinhos” sem lembrar de “Chão de Estrelas” (1937), embora o clássico do cancioneiro nacional não integre a trilha do espetáculo, apresentado originalmente em 2014. Protagonizada por Maíra Campos e Daniel Pedro, o Nié, a produção, filmada em março e lançada em 9 de julho, é uma versão com final feliz da seresta de Sílvio Caldas (1908-1988) e Orestes Barbosa (1893-1966), que exalta em tom melancólico, após o fim de um relacionamento, “nossas roupas comuns dependuradas, na corda qual bandeiras agitadas”.

Logo na abertura, a personagem de Nié ganha a companhia de uma “invasora” em seu cantinho, que poderia muito bem ser “um barracão no morro do Salgueiro”. De maleta em punho, a musa trata logo de marcar presença: pendura os seus trapos, mostra a sua faceta artística, retirando máscaras da valise, e inicia uma interação gradativa com o dono do pedaço. A dupla deixa de lado reservas e desconfianças e acaba dividindo uma porção de macarrão, em meio a acrobacias.

A comunhão do prato é o ponto de partida para uma série de performances conjuntas. Um dos pontos altos ocorre durante uma arrumação da bagunça doméstica, com um bailado que tem como ilustre coadjuvante uma mesa equipada com rodízios. Outro é a sequência final, que mostra o enfrentamento e a reconciliação da dupla após a audição de um relato radiofônico sobre o lado sombrio do casal formado por Jean Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986).

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Os solos também são destaques de “Vizinhos”. No caso de Nié, o grande momento é o hilário episódio em que ele tem de lidar com um livro “grudento” e uma poltrona “devoradora”, que atrapalham o seu ritual de leitura. Seus apuros trazem à memória a cena de abertura de “Luzes da Cidade” (1931), na qual o Carlitos, de Charles Chaplin (1889-1977), acaba fisgado por uma espada empunhada por uma estátua, durante a inauguração de um monumento público.

Maíra, por sua vez, consegue se livrar de um cabide ao qual estava pendurada e sobe ao arame, no terceiro bloco do espetáculo. Durante nove minutos, ela caminha, pula, se estende e muda três vezes de figurino sobre a corda bamba. Remetendo novamente à obra de Caldas e Barbosa, a artista comanda “um estranho [e belo] festival”, uma “festa dos nossos trapos coloridos”.

Dirigido por Lu Lopes, “Vizinhos”, que foi contemplado com recursos do Programa de Ação Cultural (Proac) do governo paulista, por meio da Lei de Incentivo Aldir Blanc, bebe diretamente na fonte das artes circenses, berço da formação profissional de Maíra e Nié.

O bom humor do espetáculo é reforçado pela trilha sonora, que apresenta, entre outras composições, “Piel Canela”, a cargo de Eydie Gormé (1928-2013) e Trio Los Panchos, “He Venido”, com Los Zafiros, “Você não Vale Nada”, em interpretação de Tiê, e uma versão instrumental, à la Dixieland, de “Summertime” (George Gershwin – DuBoseHeyward). Para os próximos projetos da Artinerant’s, fica aqui a sugestão de “Chão de Estrelas” – de preferência na voz do grande Nélson Gonçalves (1919-1998) –, que promete tornar ainda mais radiante o “palco iluminado” de Maíra e Nié.

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Vizinhos…

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…Balbúrdia …

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…e Cachimônia – a trilogia da Artinerant´s

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