Arte em Movimento

“Somos muitos e somos fortes!”

 

Maíra Campos e Daniel Pedro e o cartaz de adesão à campanha/ Foto reprodução.

 

Sim, juntos somos mais fortes!


Fernanda Araujo, especial para Panis & Circus

Foi tudo muito rápido. Quarta-feira (13/4) à noite, Bel Toledo (Presidente da Cooperativa Paulista de Circo) descobriu que haveria um corte de 40% na verba do ProAC –  Programa de Ação Cultural.  A informação não havia sido publicada oficialmente, mas era verídica. Bel foi ligeira: fez um post sobre a notícia no Facebook e pediu ajuda para a categoria em um grupo via Messenger. Em poucos minutos a informação viralizou e virou cartazes com fotos dos artistas.

 

Helena Figueira e Duba Becker, da Cia Suno, aderiram à campanha / Foto Reprodução

 

Como uma grande família circense, cada um contribuiu como pode. Um sugeriu a criação da campanha #CORTEAOCIRCONÃO (no modelo do cartaz acima), o outro providenciou um abaixo-assinado e uma comissão foi organizada para conversar com Aldo Valentim, coordenador da Unidade de Fomento à Cultura na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Houve quem desejasse ir à rua para manifestar o repúdio ao corte, mas os colegas ponderaram que as ruas já estão ocupadas com ações relativas a um cenário político ainda mais complexo (impeachment da presidente do Brasil). As portas do governo estadual estão abertas – aparentemente –, e Aldo Valentim deve receber a comissão do circo após o feriado em data a ser agendada. 

 

Fernando Paz em defesa da campanha "juntos somos mais fortes!"

 

“O papel do Estado é incrementar e fomentar a atividade cultural para formar público dentro do universo que o circo oferece, ou seja, um circo deve ter equilibristas, aramistas, trapezistas. De tudo um pouco. Os aparelhos são caros, a manutenção também. A verba oferecida já era muito limitada e os números ficavam reduzidos a palhaçaria. Há muito mais no circo”, explica Bel Toledo.  Mas, será possível reverter o corte? Bel completa: “Reverter talvez não, mas acho que pode conjugar o corte de outra maneira já que não tivemos nenhum aumento nos últimos anos”.      

 

Marcelo Lujan e Daniela Rocha aderem à campanha "do diga não ao corte do ProAc!"

 

A única certeza é que o circo vive um momento de notável consciência e maturidade. Independentemente da recente rixa derivada da criação do projeto de fomento à categoria, a união é notória e as consequências são promissoras. Atenção, o circo botou o bloco na rua … e veio para ficar!!!

Grupo Carrapeta unido na campanha contra o corte na verba do ProAc

 

Abaixo-assinado eletrônico contra o corte de verba / Foto Reprodução

 

Irmãos Sabatino mobilizados contra o corte de 40% na verba do ProAc

 

O circo é uma arte cara

Articulador da comissão que conversará com a Secretaria de Cultura em breve, Martin Sabatino (da Cia. Irmãos Sabatino), conta um pouco mais sobre os custos:

Panis & Circus: O que representa esse corte?

Martin Sabatino: É muito mais que um corte financeiro. Historicamente conseguimos poucos avanços no volume de aporte comparado com outras linguagens que tiveram aumento das verbas nos últimos cinco anos. A inflação subiu, tudo subiu e temos os mesmos valores. Se há cinco anos era difícil fazer tudo com o aporte pequeno, imagine agora. A redução de 40% quase que inviabiliza qualquer tipo de ação.

Panis & Circus: Parece que, por conta da crise, outras instituições estão optando por contratar grupos menores, com números mais limitados. Isso é verdade?

Martin Sabatino: Verdade. É tudo muito caro. Uma trave de circo custa 12 mil reais. Para fazer um petit volant sai uns 20 mil reais. Só uma lira custa 500 reais. Um aparelho de trapézio de voo sai por 30 mil reais. Um globo da morte custa 40 mil reais. Na estrutura que temos em nosso espetáculo ‘Vaiqueeuvôo’, por exemplo, eu vou gastar 40 mil reais. Com um ProAC de 60 mil reais fica difícil comprar aparelho, montar espetáculo, investir em estrutura, cenário e ainda circular.

Panis & Circus: E contratar um diretor artístico também?

Martin Sabatino: Os preços para diretores descritos nos programas são fictícios. Eles não cobram de 4 mil reais a 20 mil reais, o que seria justo. Eles fazem  direção para estimular o grupo ou o artista. Eles nos ajudam porque são parceiros, são legais e acreditam em nosso trabalho.

Panis & Circus: Qual a sua relação com ProAC?

Martin Sabatino: Já ganhei três ProACs, um de número e dois de circulação. O primeiro, por exemplo, foi em 2009 e eu ganhei 10 mil reais para fazer um número. Construímos nossa estrutura de barra fixa que custou cerca de 4 mil reais. Depois criamos um espetáculo para incluir o número. É muito com pouco dinheiro.

Panis & Circus: Na prática, tem que colocar do bolso?

Martin Sabatino: Você ganha um agrado, mas para viabilizar a ideia tem que colocar mais. Naquele projeto colocamos muito mais para ajudar na execução do número. Nos outros dois de circulação nós quase nos enforcamos. Executamos com retidão o que foi prometido no nosso plano de ação, mas as verbas eram muito enxutas.

Panis & Circus: Foi preciso propôs algo mais viável?

Martin Sabatino: Acontece que você já concebe o projeto minimizando custos. Não dá para colocar uma tecnologia de ponta, um efeito.

Panis & Circus: É desestimulante?

Martin Sabatino: Esse tipo de prêmio deveria vir para provocar uma transformação no sentido de fomentar a pesquisa. Tem que ser suficiente para trazer profissionais com maior conhecimento, que vá agregar de forma grandiosa no espetáculo, na criação e circulação. Mesclar as linguagens artísticas e o que há em outros países. Se conseguirmos mesclar essas linguagens nossa realidade fica plural.

Panis & Circus: Qual o objetivo da comissão na Secretaria?

Martin Sabatino: Nosso objetivo não é criar intriga. Queremos criar um canal de diálogo para que consigamos, de forma pacífica, alterar essa estratégia que a secretaria está nos apresentando de redução de custo.  

Panis & Circus: Quem estará na comissão?

Martin Sabatino: Eu, a Bel Toledo e o César Guimarães com certeza. Estamos conversando com várias pessoas, mas ainda não fechamos os nomes. 

Panis & Circus: O encontro já tem uma data?

Martin Sabatino: Ainda não, mas posso dizer que eles abriram as portas para ouvir a demanda circense e estão dispostos a estudar uma solução.

 

ProAC

A Secretaria de Cultura informa:

Ao promover o incentivo à cultura por meio do Programa de Ação Cultural – ProAC, nas modalidades ICMS e Editais, a Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo promove a ampliação e a diversificação da produção artística, cria novos espaços, preserva o patrimônio histórico e aumenta as formas de circulação de bens culturais em todo o Estado.

Com o objetivo de fomentar e difundir a produção artística em todas as regiões do Estado, o ProAC apoia financeiramente projetos artísticos, selecionados por meio de Editais. Diversas expressões culturais são contempladas pelo programa em Editais específicos, entre elas: teatro, dança, música, literatura, circo, artes cênicas para crianças, festivais de arte, audiovisual, museus, diversidade e artes visuais.

Lançados anualmente, os Editais funcionam como concursos, nos quais os projetos inscritos são avaliados por uma comissão composta por especialistas do segmento escolhido. A verba é oriunda de recursos próprios da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Os grupos beneficiados pelo ProAC devem obrigatoriamente oferecer contrapartidas sociais, na forma, por exemplo, de exibição de espetáculos a preços populares ou gratuitos. 

Em 2015, o ProAC oferecia aos circenses três caminhos para inscrição no concurso:

Circo de Lona com Itinerância: seleção de 10 projetos com prêmios de até R$ 60 mil, cada.

Produção e apresentações de número circense: seleção de 30 projeto (15 para números circense solo, com prêmios até R$ 10 mil, cada; 15 para números circenses de trupe, com prêmios até R$ 20 mil, cada).

Montagem e temporada e/ou circulação de circo: seleção de 15 projetos com prêmios de até R$ 60 mil, cada

 

O fato é que os prêmios são bem inferiores aos oferecidos aos artistas de teatro e dança e, segundo os circenses, não cobrem os custos. Ou seja, um corte de 40% é muito representativo.

 

Fernando Sampaio em defesa do "juntos somos mais fortes!"

Erica Sttopel em apoio à campanha que defende o não ao corte do Proac

 

Pablo Nordio contra o corte na verba do ProAc

 

Palhaço Picolino em cartaz do "Corte ao Circo Não!"

 

Elza Wolf apoia a campanha: "vamos dizer não a redução do Proac do Circo"

 

Solas de Vento em prol da campanha "Juntos somos mais fortes"

 

Irmãos Becker em defesa da campanha

Duo Trapezio em cartaz do "Corte ao Circo Não!"

 

Classe presta homenagem ao palhaço Graveto, e manifesta #corteaocirconão / Foto Reprodução

 

 

Postagem – Alyne Albuquerque 

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