Pé na Estrada

Circuito Sesc de Artes: 882 apresentações

 

Cafi Otta, o 1º abaixado à esq. e a trupe do Roteiro 13 do Circuito

 

Cafi Otta, especial para Panis & Circus*

Um dos maiores prazeres dessa vida de artista é viajar a trabalho. É bom demais levar seu trabalho para lugares e plateias diferentes. Tive o prazer de fazer parte do Circuito Sesc de Artes 2017, sem dúvida um dos mais importantes projetos de circulação artística do Brasil, similar a Viagem Teatral do Sesi e ao Palco Giratório, do próprio Sesc. Resumindo: Durante três finais de semana, entre os dias 28 de abril e 14 de maio, 14 roteiros de programação circulam com diversas ações artísticas em praças, ruas e espaços públicos. O Circuito traz em sua programação ações de circo, música, dança, teatro, cinema, artes visuais e literatura. Realizado pelo Sesc São Paulo, o evento percorre 118 cidades (quatro a mais que no ano passado) do interior, litoral e Grande São Paulo.  

 

Totem com a programação do Circuito / Cafi Otta

 

O grupo Namakaca participou uma vez do Circuito, mas nessa época eu havia me afastado do grupo, então só ouvi histórias. E como eu já havia feito o Palco Giratório com o Namakaca, sabia como seria incrível participar do Circuito. 

Em 2012, criei o espetáculo Carlos Felipe em Apuros, e confesso que sempre sonhei em levar o espetáculo no Circuito Sesc. Projetos como esse permitem que o artista afine seu trabalho, que ele ajuste detalhes que na sala de ensaio não aparecem. E aconteceu exatamente isso comigo durante esta edição do Circuito. Terminei com uma intimidade muito maior com o espetáculo, com os objetos, com as cenas e com a relação dele com o público.

 

Se fechar a porta vira hospício 

É impossível prever o que vai acontecer quando se junta cerca de 40 pessoas desconhecidas dentro de um ônibus, ainda mais sabendo que essas pessoas têm que ficar dois finais de semana sem se desgrudar. Eu fazia parte da grade do Roteiro 13 que incluía  Santos, Cubatão, Guarujá, Bertioga, Peruíbe, Itanhaém, e a região de Registro. Quando vi quem iria participar desse roteiro verifiquei que conhecia apenas a diretora de uma companhia de dança de Santos. Logo pensei: ‘xiiiiii, tomara que sejam pessoas legais’…

 

Parque em Bertioga, litoral SP, palco do Circuito Sesc de Artes / Cafi Otta

Saímos do Sesc Belenzinho, ponto de encontro de todos os roteiros, e fomos para Santos, nossa base no primeiro final de semana. A viagem foi rápida e tranquila. Cada um no seu quadrado, ou melhor, na sua poltrona. Era uma quinta-feira (27/4), um dia antes da greve geral que prometia parar o país (em protesto contra as reformas trabalhista e da Previdência propostas pelo governo Temer). Uma reunião foi convocada para decidirmos o que fazer no dia seguinte – ou o que não fazer, por conta da greve. 

Na reunião todos estavam muito sérios. Ainda não nos conhecíamos, então todos se entreolhavam supondo o que o outro fazia ali, “quem é da dança, quem é do circo, será que aqueles ali são da música?”. Depois de muitas ponderações e outras tantas deliberações, ficou decidido que tentaríamos seguir a programação normal, adaptando o que fosse necessário, por exemplo, se as estradas estivessem bloqueadas ou se simplesmente não houvesse público na praça. 

Eu fiquei em dúvida sobre como me posicionar diante da conjuntura histórica que se apresentava. Fazer o espetáculo ou não? Como participar dos protestos de forma efetiva e furar a greve ao mesmo tempo? Decidi fazer meu trabalho, e expliquei para o público ao final da apresentação que aquela era minha maneira de participar das manifestações.

 

Tudo pronto para a apresentação no Guarujá / Cafi Otta


A  grande surpresa estava guardada para a volta. A curta viagem entre Cubatão e Santos se transformou num grande samba, todos cantando depois de mais um dia tenso para o Brasil.

E a música tornou-se companheira de viagem – depois de cada dia de trabalho fomos alternando samba com forró, música eletrônica e por aí vai. 

Assim, quando o roteiro 13 do Circuito Sesc das Artes chegou ao fim a tristeza, inevitável, chegou para todos.

Conheci pessoas incríveis, trabalhos maravilhosos, tudo aconteceu com leveza e vai deixar saudades. Vida longa a este projeto. Meus mais sinceros aplausos e agradecimentos a todos aqueles que estiveram envolvidos de alguma maneira, especialmente aqueles que não aparecem para o público: técnicos de som e de luz, pessoal da limpeza, seguranças, coordenadores e programadores, turma da alimentação, motoristas, carregadores, ou seja, a turma da mão na massa!

Ficou a saudade de todos do Roteiro 13. Ainda bem que o grupo do zap zap não para!

*Malabarista, palhaço e maratonista de monociclo

 

Conheça um pouco do Circuito Sesc de Artes

Trupe de Can Can, dos Irmãos Sabatino, no Circuito / Divulgação


A programação do Circuito Sesc de Artes 2017 – que aconteceu entre os dias 28 de abril e 14 de maio –  envolveu 529 artistas que fizeram 882 apresentações de circo, música, teatro, artes visuais, cinema e literatura em 118 cidades do interior e litoral de São Paulo. As apresentações foram realizadas em espaços públicos, como praças e ruas com cerca de 700 horas de programação. Nessa iniciativa, o Sesc SP tem a parceria das prefeituras e sindicatos do comércio locais. Para a coordenação dos trabalhos, 21 unidades do Sesc em todo o Estado estiveram envolvidas na realização do evento que ocorre em cidades de suas regiões.

 

 

Deixe uma resposta

*