Clip Click

Diário de Viagem de Bicicleta pela Europa

 

Cafi Otta e sua bike na travessia europeia / Arquivo Pessoal

 

Cafi Otta, especial para Panis & Circus

Sou viciado em viajar. Por mais clichê que possa parecer, esse papo de conhecer novas culturas, viver experiências únicas e transformadoras e respirar novos ares realmente tem muito valor.

Já viajei de avião, de trem, de barco, de carro, de ônibus e a pé, mas nunca tinha imaginado viajar de bicicleta. Depois de conhecer algumas pessoas que já fizeram viagens assim a ideia começou a ganhar forma.

Minha curiosidade de viajante logo levantou alguns pontos importantes.

 

Bike de Cafi Otta / Arquivo Pessoal

 

Logística: como carregar toda a bagagem na bike? O que fazer com a bike depois da viajem? Como levar a bike até o início da jornada? Qual o trajeto ideal? Acampar ou dormir em hotéis? Qual a melhor época do ano?

Segurança: as estradas brasileiras são perigosas até para os carros, então imagina cruzá-las de bicicleta? Aliás, nem nas cidades estamos seguros, quanto mais nas estradas!

Custos: será que sai mais barato fazer uma viagem de bike do que com meios mais convencionais?

Na busca por respostas, o quesito segurança realmente foi fundamental na escolha da Europa como destino para essa primeira aventura ciclística sobre duas rodas. Logo encontrei um site muito legal que mostra 17 rotas ciclísticas que cortam a Europa, de norte a sul e de leste a oeste, algumas com mais de 10 mil quilômetros de extensão, ligando a França a Bulgária, ou a Noruega a Grécia, por exemplo. Com tantas possibilidades foi quase impossível escolher qual caminho seguir. Ainda pensando em segurança, escolhi aquele que é talvez um dos países mais organizados do mundo, a Alemanha.

Obviamente isso implicaria num aumento significativo do quesito custos, já que cruzar um oceano nunca é barato, ainda mais levando uma bicicleta a tira colo. Uma maneira de diminuir esse custo foi comprar a bicicleta lá. Isso foi definitivo para a escolha da cidade alemã onde a viagem começaria. Encontrei uma loja com ótimos descontos em Berlim, entrei em contato com a loja e consegui comprar a bicicleta antes de sair do Brasil, claro que muito mais barato do que aqui, onde pagamos impostos estratosféricos.

Meio de transporte, resolvido. Cidade de início, resolvido. Faltava escolher o destino. De volta aquele site das Ciclo Rotas pelo velho continente descubro um caminho que vai da Rússia até a Irlanda, cruzando toda a Alemanha. Trajeto definido: de Berlim a Amsterdã.

 

Planejamento é tudo nessa vida de viajante

Com essas informações na mão parti para a próxima etapa, arrumar todos os detalhes para evitar grandes roubadas. Lembrando sempre que viagem sem roubada não tem graça, além disso, é impossível viajar sem contratempos.

Comecei a correr atrás de informações sobre a rota propriamente dita: mapas, distâncias diárias a serem percorridas, lugares para dormir. Aqui um detalhe importante. Seria mais barato e me daria maior independência acampar durante a viagem, mas na ponta do lápis comprar os equipamentos de camping necessários sairia mais caro do que dormir em Airbnbs durante todo o trajeto. Ou seja, bora reservar casas no interior da Alemanha. Enfim, para encurtar a história, em cerca de três ou quatro meses eu já tinha toda a viagem planejada em um dos meus inseparáveis caderninhos, com os dados de todas as casas: endereço, nome e telefone dos proprietários, distâncias a serem percorridas, códigos de reservas dos voos, previsão de gastos por cidade, e por aí vai. Sou bastante metódico e organizado, mas minha cabeça funciona melhor assim.

No dia marcado, e tão esperado, fui para o aeroporto e comecei mais uma jornada. Ainda dentro do avião, mas já perto do pouso, descubro que esqueci meu importante e inseparável caderninho, junto com meu estojo que mais parece um kit do Batman, em cima da mesa da cozinha da minha casa… pânico!

Hora de aplicar um dos mandamentos das boas viagens: o que não tem remédio, remediado está. Ainda mais porque em tempos digitais todas as informações que estavam escritas nele também estavam no celular, em vários aplicativos e e-mails, então não era um problema tão grande. Mesmo assim, a primeira providência foi ir a uma papelaria e comprar um caderno, um estojo e todos os apetrechos para reescrever tudo de novo e ter um pouco de conforto mental.

 

Bike nova: o encontro

Assim que cheguei em Berlim, logo depois da papelaria, fui direto para a loja de bicicletas. Conforme combinado com o vendedor, lá estava ela, linda como eu esperava. Hora de fazer alguns ajustes na magrela e gastar um pouco de dinheiro com cadeado, kit de reparo dos pneus, bolsas para levar a bagagem, óleo para corrente e mais uns tantos itens necessários para viagem, afinal seriam 800 km de pedal. Pois é, gente, isso tudo!!!! Eu que nunca tinha pedalado mais de 40 km num dia estava prestes a começar um trajeto de 800 km em 13 dias. Senta que lá vem história.

Passo dois dias em Berlim me acostumando a bicicleta nova. As costas começam a doer um pouco, o que não é um bom sinal, mas me sinto confiante com meu novo veículo.

 

Rota de Cafi Otta pelas florestas / AP

 

 

Primeira aventura 

Os dois primeiros dias de pedaladas foram uma delícia. Toda a rota é sinalizada com pequenas placas que indicam que direção seguir, além da distância até alguma cidade maior no caminho. Isso é fundamental para o bom andamento das coisas. Só que desde o primeiro dia eu percebo que as distâncias não são muito precisas. Sei que parece estranho um brasileiro reclamar da precisão das medidas dos alemães, mas acreditem, eles erram feio, às vezes, e eu também. No terceiro dia eu pude perceber.

Saí cedo, como fiz todos os dias, da cidade de Bad Belzig rumo a Dessau. Minha previsão era de pedalar cerca de 50 km. Errei feio, eu assumo. A distância real é de 100 km entre as duas cidades. Só que os benditos alemães que instalaram as tais plaquinhas são meio flexíveis, porque você vê uma placa que diz que a próxima cidade está a 40 km de distância, e programa sua cabeça para isso. Pedala os 40 km e vê outra placa dizendo que a mesma cidade está agora a 15 km dali. Isso é para enlouquecer qualquer um. Ao final deste dia completei os 100 km com louvor, pedalando forte mesmo no final do percurso, mas assustado com o que viria adiante. Recalculei todos os trajetos seguintes e repensei minha estratégia: começaria a usar trens para ajudar nos deslocamentos.

 

Segunda aventura

O quinto dia de viagem foi o primeiro em que usei trens aliados ao pedal. E deu ruim, mas deu bom.

Viajar com a bike no trem é supertranquilo, mas costuma exigir algumas trocas de trens, por conta das regras da companhia ferroviária alemã. Normal. Só que uma das conexões entre os trens era muito rápida, coisa de sete  minutos. E o trem atrasou, então sobraram menos de dois minutos. Resultado, correria pesada: sai do trem, corri até o elevador, entrei no elevador junto com duas mulheres levando malas enormes (bikes não podem descer pelas escadas, ainda mais carregadas de malas), esperei o elevador descer, sai do elevador (meio entalado nas malas das duas mulheres) corri até o outro elevador, esperei as duas mulheres entrarem no elevador, subi  até a plataforma, sai do elevador (agora já rolando uma coreografia de bike e malas na saída), corri muito e entrei no trem. Coloquei a bike no lugar reservado para ela e relaxei. Ufa, nem acredito que deu certo! Mas uma sensação estranha começou a me dominar. Será que entrei no trem certo? Afinal não deu tempo de olhar, só segui o fluxo e a correria geral. Pois então, não…

O trem parou na cidade seguinte e achei estranho, porque eu passaria por aquele lugar no dia seguinte, ou seja, eu estava indo para o lado errado. Atitude! Peguei a bike toda carregada e fui até a porta do trem, que já estava fechada. Tarde demais, assim que eu apertei o botão de abertura da porta, o trem saiu. Um alemão simpático, careca, pinta de galã, sacou todo o movimento e ainda tentou me ajudar, gritando para o  maquinista, mas não rolou. Restaram duas opções: descer na próxima estação e tentar pegar um trem na direção oposta ou descer na próxima estação e pedalar tudo de volta.

 

Lanche em dia de viagem / AP

 

Desço na próxima estação e descubro que o próximo trem de volta demoraria mais de duas horas. São só 4 km de distância então vou de bike. Uma pedalada deliciosa, só descidas, sol batendo no rosto. “Nossa, que dia perfeito”. Vai vendo!

Duas horas depois e eu continuava pedalando. Decidi fazer o trajeto todo de bicicleta, até a cidade final do dia. Parecia pouco no mapa, e até era. Mas eram só subidas, longas e intermináveis, no meio de florestas. Enfim chego na casa onde passaria aquela noite. O quarto é lindo, o jardim, maravilhoso. “Nossa, que dia louco, mas deu tudo certo”. Quase tudo… Sério!

Hora de almoçar, já passava das 4 da tarde. Mas, naquela pequena vila não tem restaurantes nem supermercados. Fica tudo na cidade ao lado, a mesma onde eu havia acabado de passar. Bom, hora de largar a bike e ir de busão, minhas pernas não aguentavam mais pedalar, chega de ladeira. Vejo os horários do ônibus, nada animadores. Demoraria mais de duas horas para passar. Como a fome era maior que o cansaço, fui de bike mesmo. Mais 10 km para conta. Devidamente alimentado, sento no jardim para uma deliciosa xícara de chá e um papo gostoso com a dona da casa. “Ah que dia louco, mas até que deu tudo certo”. Melhor nem pensar nisso, ainda eram 19:15…

 

Como saber a hora de parar

Planejei mal a aventura, por desconhecimento. Teria feito escolhas diferentes se eu soubesse de algumas coisas básicas.

  1. As distâncias apresentadas nos mapas são quase sempre menores do que a realidade. A diferença no meu caso nunca foi menor do que 10%.

 

  1. A maioria das pessoas faz o mesmo caminho que eu fiz no sentido contrário, ou seja, de Amsterdã para Berlim, do oeste par o leste, por um motivo muito simples: os ventos sopram sempre nessa direção, o que facilita a viagem.

 

  1. Dias de folga. Apesar do alerta de um grande amigo, não coloquei nenhum dia de folga nos 13 dias de aventura. Pensei em fazer alguns dias de deslocamentos mais curtos, mas o item 1 desta lista mostra que não foi uma boa estratégia.

 

  1. Este é um ponto imprevisível, mas fundamental pra decisão de parar: e quando o corpo começar a falhar?

 

De volta aos fatos. Planejei pedalar 800 km entre Berlim e Amsterdã, em 13 dias. Depois de 10 dias e 600 km percorridos decidi parar. Motivo principal, item 4: os joelhos começaram a reclamar muito, uma dor forte e constante bem naquela bolota superior interna dos dois joelhos. Nada gostoso. Tomar a decisão também não foi legal! Hora da parte emocional.

“Você vai desistir?”. “O que o seu filho vai pensar de você?”. “Looser”. Minha cabeça não parava um segundo sequer. “Você vive falando em perseverança, determinação, foco, superação de limites. Tudo papo furado!”. Pois é, mas meus joelhos falaram mais alto que minha cabeça, gritaram, na verdade. Achei melhor escutá-los.

Passei algumas horas no telefone com pessoas queridas me dando aquele reforço positivo, avalistas de uma escolha que agora me enche de orgulho. No 10o dia de viagem peguei um trem da cidade de Münster rumo a Amsterdã, onde fiquei mais cinco dias me recuperando. Mas ainda tinha mais um desafio pela frente.

 

Aventura final

Último dia em terras holandesas, hora de ir embora. As 10h saí de casa rumo à estação de trem. Pedalada tranquila, 10 minutos no máximo, sem chuva. Chegando lá comprei o ticket e em menos de 5 minutos estava com a bike dentro do trem, que sairia as 10h32. Sim, sairia.

Descubro que aquele trem não iria até o aeroporto, por problemas técnicos. Saio do trem e vou atrás de informações. Descubro então que nenhum trem vai até o aeroporto, pelo menos até o meio dia, e que ninguém poderia garantir que a partir desse horário os trens voltariam a circular normalmente. Sou aconselhado a pegar o metrô até um lugar e de lá ir pedalando. Com o coração batendo mais forte que o normal fui até o metro.

Lá comprei a passagem e descobri que o elevador não estava funcionando, e não me deixaram usar a escada rolante.

Depois de uns dois minutos de pânico resolvi pegar um trem até a estação mais próxima do aeroporto, Lellyland. De lá seriam 11 km de bike. Ok. Desci na tal estação, e adivinha: mais um elevador quebrado, só que não tinha escada rolante naquela plataforma. Lá vou eu descendo escada abaixo com a bike toda carreaga. Então agora era só colocar o roteiro no Google Maps e pronto, certo!? Não!!!! Meu cartão do trem não abria a cancela por nada, então simplesmente estava preso dentro da estação. Depois de uns cinco minutos alguém apareceu e consegui sair.

Lá vou eu! Frio, vento, uma chuvinha aqui e ali, joelho doendo, mas tudo bem. De repente… uma puta chuva, puta chuva mesmo, vento forte. O aeroporto logo ali, dava para ver… fiquei embaixo de uma árvore me protegendo mais do vento que da água, e depois de uns cinco minutos a tempestade passou. Falta tão pouco. Mas ainda dá tempo para mais um pequeno contratempo, claro!

Cerca de 200 metros depois da santa árvore um carro de polícia com dois policiais pedem para eu parar. Paro, lógico, e depois de verem passaporte e de conversarmos um tanto, estou livre para seguir. Mais uns 15 minutos de pedal e pimba, tô no aeroporto. Pés ensopados, congelando, as mãos tão geladas quanto os pés. A partir de então tudo começa a dar mais certo – até porque nem deu tão errado assim, vai!?

Compro a caixa da bike, arrumo tudo, embalo tudo, checkin um pouco demorado por causa do sistema, mas são 14h00 e o voo é só as 16h15. Valeu a pena ter saído de casa tão cedo!

Amo viajar. Além de aprender essas lições de humildade, que mostram que somos realmente nada diante do tamanho desse universo de possibilidades, volto com a sensação de que dá para ver as coisas com outros pontos de vista. O que parece ruim, às vezes, é só uma chance de ver o mundo por outro ângulo, e que esse outro ângulo talvez estivesse ali o tempo todo, mas a rotina, a teimosia ou a pressa não deixa ver daquele jeito. Que venha a próxima aventura e as próximas escolhas difíceis.

Deixe um comentário

*