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“Errar é humano”

 

Cafi Otta no Parque do Povo durante montagem do Zanni / Foto Georgia Branco

 

Cafi Otta, especial para Panis & Circus

Uma das frases mais usadas no mundo, errar é humano, pode muitas vezes servir de desculpa esfarrapada para justificar nossos equívocos, e muitas vezes vem seguida do famoso “mas persistir no erro é burrice”. Bom, no circo essa máxima nem sempre faz sentido. 

Não são raras as vezes em que vemos um trapezista, por exemplo, tentar o triplo mortal ao final do número e errar o truque na primeira tentativa. Quando tenta de novo, mais um erro. E finalmente na terceira chance, o circo em silêncio absoluto, ele acerta. O público, até então contido e aflito, explode em emoção e o artista, que acabara de errar, e persistir no erro, se transforma no herói que motiva gerações a irem ao circo. Claro que para falsear um movimento errado o artista precisa ter muita confiança no próprio taco. Ele sabe que quando quiser, e precisar, ele vai acertar o truque. E muitas vezes é preciso tanta habilidade para acertar o truque quanto para fingir o erro.

O circo é o lugar dos super heróis reais. As pessoas vão ao circo para ver aquilo que elas não veem em suas vidas cotidianas, e isso pode acabar se transformando numa grande responsabilidade para nós artistas. Somos cobrados por diretores, treinadores, contratantes e parceiros de cena, nossos erros reais, aqueles que chamamos humanos, não costumam ser muito bem aceitos. Por fim é normal nos cobrarmos por estes fracassos – exceto os palhaços, que usam estes fracassos como matéria prima de seu trabalho.

Mas, acredito que malabaristas, equilibristas, aerialistas, enfim, todos os artistas circenses podem, e talvez devem, se valer de seus erros ao invés de se envergonharem ou se frustrarem com eles. O erro nos torna humanos para a plateia, e isso tem um poder que não se pode medir. Quando erramos passamos para o público uma mensagem muito forte: mesmo sendo capazes de façanhas incríveis, somos iguais a vocês. E tem mais, se vocês quiserem também podem tentar fazer coisas incríveis, o máximo que pode acontecer é errarem.

 

Cafi Otta e seu monociclo/Foto Divulgação

 

Mesmo dizendo isso, me esforço bastante para não errar em cena. Este esforço acontece fora de cena, nos treinos, esperando que na hora H as coisas saiam como o planejado. Mas o que pude notar depois de muitas horas assistindo a alguns dos melhores artistas circenses do mundo é que, por mais que treinem, eles vão errar.

Outro dado interessante é que quanto mais eles treinam, maior a frustração quando o erro acontece. E o público invariavelmente percebe isso, e ninguém quer ver um artista frustrado em cena. Por outro lado, aqueles que conseguem lidar bem com seus erros ganha o reconhecimento daqueles sentados na arquibancada, por sua capacidade de superação, por sua humildade ao se colocar no mesmo nível de todos ali presentes e por aceitar de maneira natural o inevitável: sim, errar é humano, e persistir no erro pode ser uma estratégia dramatúrgica muito poderosa.

Em tempos de internet, redes sociais e vídeos incríveis, não precisamos mais sair de casa para ver aqueles feitos que antes só podiam ser vistos no circo. Talvez por isso nunca tenha sido tão importante parecermos mais reais ainda mais para aqueles que nos assistem. Cada vez mais as pessoas vão sair de suas casas e pagar ingressos para sentir emoções reais, para ver pessoas de verdade, com seus acertos e feitos incríveis e com seus erros. A realidade virtual tomará conta da perfeição, o resto é com a gente!

 

 

Postagem – Alyne Albuquerque

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