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Festival da Costa de Marfim é principal manifestação circense da África Ocidental

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 Ivy Fernandes, de Roma

 

O Festival de Circo da Costa do Marfim vai se consolidando como a mais importante manifestação de arte circense da África Ocidental. Neste ano, o tema escolhido por seus organizadores para a 5ª edição foi a Rencontres interculturelles du cirque d’Abidjã (Rica)  (Valorização dos Espaços Verdes Urbanos).

Nove companhias e 57 artistas provenientes de diversos países como Marrocos, Guiné, Líbano, Burkina Fasso, Costa do Marfim, Brasil e França participaram do evento realizado em Abidjã, ex-capital da Costa do Marfim.

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Circus Baobab, da Guine…

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… e a companhia ColoKolo, de Marrocos

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Entre os espetáculos que mais cativaram o público estão os realizados pelo Circus Baobab, da Guiné, com acrobatas e contorcionistas, as companhias ColoKolo (Marrocos), T’es rien sans la Terre (França), a brasileira Livia Mattos, o circo Burkinabe Atoufa e o espetáculo Circonflex, criado por artistas da França e da Costa do Marfim.

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Cena de T´es rien sans la Terre (França) 

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A edição deste ano do Festival do Circo de Abidjã, como também é conhecida a iniciativa, foi inaugurada em 14 de março. Ela é resultado de uma parceria entre La Fabrique Culturelle e o Instituto Francês de Cultura.  “Organizar este ano o festival foi um ato de desafio econômico e cultural”, afirma a idealizadora e diretora do evento, Chantal Djedje.

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Chantal Djedje, diretora e criadora do festival

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Segundo Chantal, o festival foi feito com um orçamento de apenas 64 mil euros. “Mas isto nos deu muita energia, as empresas vieram com o desejo de dar e compartilhar”, explica ela. “Como os artistas são muito ligados à população local, eles concordaram em reduzir o cachê. Todo o orçamento foi equilibrado e acabou não afetando o nível do festival.”

De acordo com a diretora, o sucesso do Rica se deve ao fato de ser aberto a artistas de qualquer país, com  acrobacia, dança, malabarismo, magia, música, teatro e  circo burlesco, todas as faces do chamado circo contemporâneo. Ela conta que são feitos espetáculos gratuitos nas ruas e também a preços populares debaixo da lona. Outro fator de sucesso, segundo Chantal é o DNA musical do Festival de Abidjan. “No final dos shows, artistas, público e passantes podem dançar  todas as noites, em bailes temáticos de cada país participante do festival”, explica Chantal.

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Passos ritmados ao som de tambores

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“Elevador social”

Diretora do Instituto Nacional de Artes e Ação Cultural, Chantal salienta também a importância das disciplinas artísticas e especialmente do circo para a formação cultural das crianças na Costa do Marfim, lembrando que muitos artistas profissionais puderam deixar as ruas de cidades africanas graças ao circo.

 “As disciplinas artísticas, incluindo o circo, podem se tornar ‘um elevador social’ para as crianças que não têm acesso à educação, ao convívio com qualquer espécie de atividade cultural. Em vez de viver brincando nas ruas, nós oferecemos a possibilidade de elas participarem gratuitamente de atividades  de uma espécie de escola circense.

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Cenas da 5ª edição Rica…

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… no Festival de Costa Rica

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A Fabrique Culturelle em Abidjan também muita importância nesse trabalho. Trata-se de um centro permanente de intercâmbio que leva regularmente artistas às escolas dos bairros da classe trabalhadora. “Um exemplo é o da trupe franco-americana Cirk Biz’Art que chegou com antecedência no festival para realizar um show especial com números acrobáticos e malabarismos nas escolas públicas para incentivar os estudantes”, diz Chantal.

Modou Toure, 28 anos, da trupe senegalesa Sen Cirk, é um exemplo de resgate das ruas para a arte circense. Ele diz que era uma criança de rua e que conseguiu sair dela e do anonimato graças ao circo. “Deu-me uma nova vida! Agora quero compartilhar com outras crianças, para mostrar-lhes que isso pode ser feito”, afirma. A Sem Cirk, formada por 13 artistas, se apresenta regularmente em centros infantis e hospitais. O grupo também criou uma escola circense no Senegal de reinserção profissional, que acolhe cerca de trinta alunos.

O diretor-artístico da trupe de acrobatas Atoufa, de Burkina Fasso, Mahouzou Tanyan, também enfrentou muitos desafios para se tornar artista de circo.  Ele disse que foi preciso coragem para se envolver com essa arte porque seus pais condenavam a sua decisão de ingressar no picadeiro. Queriam que ele  frequentasse uma universidade. “Se eu não estivesse aqui, seria uma pessoa muito frustrada, porque eles não queriam que eu fizesse este trabalho. Mas, graças a Deus, hoje pude desenvolver minhas habilidades até este nível e me sinto realizado”, diz Tanyan. 

 

A brasileira Lívia Mattos no festival de Abidjan

A artista brasileira Livia Mattos, que se apresentou este ano no Festival do Circo de Abidjã (ex-capital da Costa do Marfim) começou a carreira nos palcos e circos do Brasil ainda adolescente. Ela começou a trabalhar em um circo tropicalista de Salvador. Ela confessa que seu sonho era  trabalhar com fogo e voar no trapézio.

Mas ali, no circo tropicalista, acabou desenvolvendo sua paixão pela música, em especial pelo acordeão. Começou a tocar a sanfona, a desenvolver música para a cena. Após cursar sociologia, Lívia realizou extensa pesquisa sobre a história da música no circo brasileiro.

Fez inúmeras viagens pelo Brasil e Europa. Chegando à França descobriu que aquele país tem uma simbiose musical com a sanfona. O acordeão faz parte  da  musicalidade francesa  e  Livia  encontrou ali um clima favorável à sua arte, unindo música e circo. Como artista circense muito versátil, cantora, compositora, pesquisadora, instrumentista, participou  de vários  festivais e encontros culturais na Europa. 

 

Legenda foto de capa: Cartaz da 5ª edição: RICA- Rencontres interculturelles du cirque d’Abidjã 

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