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A volta dos grandes festivais circenses

Festival de Mirabilia, em Fossano, Itália / Foto Asa Campos

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Ivy Fernandes, de Roma

A travessia está sendo longa e difícil mas, passado o pior da pandemia da Covid-19, as apresentações artísticas começam a voltar na Europa com a flexibilização do confinamento. E, como não poderia deixar de ser, dois dos principais eventos circenses da Europa, o Festival Circa de Auch (França) e o Festival de Mirabilia (Itália), confirmam espetáculos para setembro e outubro.

De acordo com o diretor de Comunicação do Circa, Guillaume Guilbert, o festival deve acontecer no período de 16 a 25 de outubro. Realizado desde 1988 na cidade francesa de Auch, quase na fronteira com a Espanha, é um dos maiores eventos de circo contemporâneo da Europa. Durante o festival, Auch se transforma na cidade do circo.

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Circa na cidade de Aunch / Foto Divulgação

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Tradicionalmente o Circa conta com a participação de escolas circenses nacionais e internacionais e acolhe jovens de até 25 anos, permitindo que mostrem sua arte e possam evoluir no mercado de trabalho. Paralelamente às apresentações circenses, o público pode visitar mostras de audiovisual, ver documentários e conferir manifestações artísticas. Durante o ano, o Circa administra uma escola de circo para crianças e adolescentes.

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A ‘volta’ da cultura

Guilhaume, à esq., e os cartazes do Circa / Divulgação

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Guilhaume disse acreditar que até 1.º de julho a vida cultural na França esteja em plena atividade, com o sinal verde dado pelo presidente Emmanuel Macron, que flexibilizou o confinamento. “Acreditamos que, em outubro, este pesadelo tenha  passado. Estamos trabalhando na preparação do nosso 33º festival.”

O diretor diz que ainda não está claro como será encaminhada a decisão sobre o distanciamento entre o público. Ele considera que garantir o distanciamento debaixo da lona é difícil e pode prejudicar a afluência e participação do público.

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Festival de Mirabilia, o maior da Itália, está mantido

Fabrizio Gavosto: esperança de um setembro melhor/Divulgação

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A Itália, a exemplo da França, também vem adotando medidas de flexibilização. Em 15 de junho, o ministro da Cultura, Dario Franceschini, anunciou a volta de cinemas, teatros, museus, entre outros, com a exigência do uso de máscaras e de um número limitado de espectadores.

Diante de um cenário promissor, o diretor-artístico do Festival de Mirabilia, o maior festival de artes circenses da Itália, Fabrizio Gavosto, passou a trabalhar na organização do evento para setembro. “Temos esperança de que em setembro a situação esteja melhor. Tenho mantido contatos diários com artistas provenientes de 20 países como Finlândia, Israel, Brasil, China. Está quase tudo pronto”, afirma.

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Cartaz do Festival de Mirabilia 2020

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Gavosto teve de reformular totalmente o evento deste ano. A 14.ª edição do festival terá como tema Satellite of life. As apresentações começam na cidade de Busca, na região do Piemonte, no norte da Itália, na última semana de agosto, seguem para Cuneo, com exibições de 1.º a 6 de setembro e terminam no dia 12 de setembro, com um show inteiramente dedicado a crianças. O diretor-artístico diz que várias companhias francesas já estão confirmadas, como o excelente grupo Rasposo.

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Orison, da cia. francesa Rasposo, confirmada para o Festival de Mirabilia

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 Sobre os efeitos da pandemia no mundo das artes, Gavosto declara: “Toda a Europa espera salvar o que for possível no mundo dos espetáculos. A Itália está na mesma situação de toda a Europa, à espera que o governo acabe com o distanciamento e o público volte a frequentar os festivais e o mundo do circo. Trata-se de um período de hibernação total e uma perda colossal.”

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Primeiro-ministro escocês lamenta cancelamento do Fringe

Fringe – o maior festival de arte de rua do mundo – é cancelado / Divulgação

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O Fringe, o mais longevo dos festivais de arte circense da Europa não será realizado neste ano. Por causa da pandemia do coronavírus, o evento de 73 anos – foi criado em 1947 – estava previsto para o período de 6 a 30 de agosto.

O cancelamento do maior festival de artes do mundo, realizado tradicionalmente na cidade de Edimburgo, na Escócia, foi lamentado pelo primeiro-ministro escocês, Nicola Sturgeon. “Este cancelamento foi muito doloroso para todo o país, mas não houve outra solução.”

O espírito do Fringe é dar uma chance a todos, percorrer novos caminhos, misturar artes e artistas de vários gêneros de espetáculo. Assim, os atores de teatro estudantil entram em contacto com artistas de circo contemporâneo, de televisão e do palco, comediantes holandeses trocam ideias com músicos poloneses, novatos se alinham a profissionais. O espírito do Fringe está na certeza de encontrar um público disposto a dar espaço e atenção a todos os artistas com a mesma intensidade e entusiasmo.

Em carta aberta aos colaboradores, artistas e ao público, a diretora do Fringe, Shona Mc Carthy, escreveu: “O meu pensamento está com milhares de artistas, escritores, produtores, revisores, assistentes locais e pessoal de bastidores, cujas carreiras foram suspensas. Saibam que faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para reorganizar o Fringe 2021. Nós esperamos encontrar todos vocês em  Edinburgh o ano que vem.”

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Empresários e artistas buscam saídas

O mundo do espetáculo sangra por causa do efeito da pandemia sobre os setores do entretenimento e da cultura. Empresários franceses enviaram nesta semana uma carta ao presidente francês Emmanuel Macron dizendo não ser possível manter a distância entre os espectadores. Disseram que as perdas do setor na França chegam a 2 milhões  de euros. Afirmam que a única solução para o renascimento do mundo dos espetáculos está em acabar  definitivamente  com a distância entre a plateia.

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Phillippe Le Gal, da associação Territoires de Cirque/Divulgação

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Philippe Le Gal, presidente da associação Territoires de Cirque, que representa 50 estruturas, e organiza a Noite do Circo, divulgou carta em que afirma: “O circo é mais vulnerável do que o teatro ou a dança, o ecossistema do circo contemporâneo, baseado no trabalho coletivo, no roaming, nas seqüências de ensaios que são bem mais longos e cansativos, nas artes múltiplas (pelo menos seis meses), devido à utilização de inúmeros acessórios, é duramente atingido pela situação atual.

No espaço de apenas três meses, o congelamento geral das atividades provocado pela Covid-19 abriu um abismo econômico que as empresas circenses, atualmente em número de 800, correm o risco de deslizar para ele rapidamente. O efeito dominó dos cancelamentos em série de todos espetáculos terá conseqüências terríveis para a sobrevivência de muitas companhias artísticas, especialmente para  as jovens empresas.”

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Festival de Primavera, na Normandia foi cancelado

Cartaz do Spring Festival

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 “É a apocalíptico!”, afirma Yveline Rapeau, produtora do 
 Cirque-Théâtre d’Elbeuf  e  diretora do Festival de Primavera Spring), cuja 4ª edição estava  prevista para 5 de março a 5 de abril, em 60 locais na região da Normandia, norte da França. 

“A primavera e parecia trazer o entusiasmo contagiante para a arte circense mas, de repente, acabou. Dos 60 espetáculos que eu tinha agendado, 40 foram cancelados. Apenas 4 ou 5 puderam ser  adiados. Passo o meu tempo a  procurar soluções e a  responder os pedidos de ajuda das empresas. Tornei-me “o hospital para projetos do circo doentes”. Mas todos estão ajudando.  A locomotiva está ligada aos 13 centros circenses nacionais que cobrem todo o território francês e vamos sair dessa”, conclui Yveline Rapeau.

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Legenda foto de capa: Montagem feita para o Festival de Mirabilia / FM

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