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“La Mínima”: 15 anos de palco e picadeiro

O parlapatão Hugo Possolo apresenta autores que acompanharam a trajetória de Domingos Montagner e Fernando Sampaio e o lançamento do livro “La Mínima” em cena 

 

Mário Viana, Fernando Sampaio, Hugo Possolo, Paulo Rogério, Domingos Montagner e o cartunista Laerte

 

O parlapatão Hugo Possolo apresentou, com graça, os autores que participaram da história da companhia La Mínima, dos palhaços Domingos Montagner e Fernando Sampaio, no Sesc Pompeia, na noite de 21/02, em São Paulo. São eles: o dramaturgo Mário Viana, o diretor de teatro e roteirista Paulo Rogério Lopes e o cartunista Laerte, que veste roupas femininas desde 2009 e adotou o nome Sônia.

Na mesma noite, Domingos e Fernando autografaram o livro “La Mínima em Cena”, que registra o repertório da companhia da dupla de 1997 a 2012. Eles dizem no prefácio que desejam que o livro demonstre a alegria dos dois e o orgulho por serem “reconhecidos como artistas circenses brasileiros”.

O cartunista Laerte durante a sessão de autógrafos do livro “La Mínima em Cena” / Foto Asa Campos

 

Hugo Possolo disse que teve inveja de vários espetáculos do “La Mínima”. Domingos rebateu afirmando que ele é um grande amigo e grande palhaço. 

A parceria do “La Mínima” com o cartunista Laerte aconteceu em “Luna Parke”, “Piratas do Tietê – o Filme” e “A Noite dos Palhaços Mudos”.

Mário Viana, Hugo Possolo, Paulo Rogério, e o cartunista Laerte durante o bate-papo

 

Em seu depoimento, Laerte afirma: “Tem horas em que o trabalho foge das mãos da gente em montagens de circo teatro e é surpreendente como adquire força própria”.

O começo do  “Luna Parke”, segundo o cartunista, pode ter surgido porque ele desenhava a história de Suriá: “A personagem tinha a ver com a minha filha, Laila, que fazia escola de circo. Não sei direito o que eu fiz no ‘Luna Parke’. Mas fui ver o espetáculo, e ficou lindo”.

“Luna Parke” é descrito no livro “La Mínima em Cena”, de 2002, como um parque de diversões ambulante que apresenta “aos visitantes um acervo com as mais fantásticas atrações: Monga, a mulher-gorila, Johnny, o homem-bala, e muitas outras surpresas, todas patrocinadas pelo poderoso ‘Elixir Luna Parke’, a vida num instante”. 

Reprodução de cena do “Luna Parker”, que ilustrava o evento no Sesc Pompéia / Foto Asa Campos

 

 

Após “Luna Parke”, é a vez de os “Piratas do Tietê”

Depois da experiência com o espetáculo “Luna Parke”, Laerte afirmou que foi trabalhar com a dupla do grupo La Mínima em “Piratas do Tietê”, no ano seguinte (2003), e então pensou: “Vou me  vingar. É a minha praia, o meu navio, eu desenho tudo. Achei que iria controlar o processo dos piratas”.  

O cartunista declarou: “Quando você faz quadrinhos, no mais das vezes, é uma experiência solitária. Bola a história, os roteiros, escala os personagens, constrói o cenário e, às vezes, vende a revista também. Comecei a fazer uns textos absurdos para os ‘Piratas’. Sugeriram o Paulo [Rogério, autor e diretor de teatro] para roteirizar e eu disse: ‘bora ver’. Aí comecei a estranhar o jeito que ele mexia no texto, que era a linguagem de teatro, e não batia com a minha visão da HQ [história em quadrinhos]. Não era mais um trabalho solitário, feito na calada da noite. Tinha o Fernando, o Domingos, o Paulo, os músicos, a iluminação, e a história foi ficando de pé. O resultado é de uma riqueza especial. Emocionante mesmo. Mas é distinto do que eu havia feito. Ponto”.  

A opinião de Domingos Montagner difere da visão de Laerte. Domingos disse que “Piratas do Tietê”, do Laerte, “tinha a cara do La Mínima. O desafio era colocar em cena a perfeição gráfica”. Segundo Domingos, eles foram fiéis ao texto a ponto de percorrer o rio Tietê e ele ter ficado doente por causa da poluição.

 

 

A sinopse dos “Piratas do Tietê – O Filme” (2003) está à página 68 do livro “La Mínima em Cena”. Confira: “Após uma cinematográfica fuga da Masmorra de Detenção, os terríveis ‘Piratas do Tietê’ estão de volta, espalhando pânico, medo e muita risada. Para proteger a metrópole dessa terrível ‘enchente do mal’, o destemido caça-piratas Silver Joe é recontratado pelo poder público. Porém, ao usar sua própria filha como isca para desentocar os facínoras, o justiceiro rompe as comportas do passado, fazendo a Marginal transbordar de paixão, fúria, vingança e surpreendentes revelações, tendo como pano de fundo a atrapalhada produção de um ‘filme pirata’ movido a ganância, cobiça e uma garrafa de rum”.

 

Cena de “Piratas do Tietê – O Filme” / Foto Lili Coan

 

quadrinho de Laerte, à página 70 do livro “La Mínima em cena”

 

 

O cartunista Laerte comenta “A Noite dos Palhaços Mudos”

“No caso dos ‘Palhaços Mudos’, foi um ‘repeteco’ dos ‘Piratas’”, conta Laerte. “A partir de um ponto o projeto começou a andar sozinho e ficou uma beleza.” O cartunista desenhou uma cena para os palhaços que envolve uma perseguição de carros. “Eu não tinha ideia de como iriam transpor o desenho para o palco.” A solução veio com carrinhos de brinquedo – uma perseguição que se transformou numa brincadeira de meninos. “Quando vi o espetáculo quase cai da cadeira de tanto dar risadas.”

 

Domingos e Fernando em cena de “A Noite dos Palhaços Mudos” / Foto Asa Campos reprodução de foto que ilustrava o evento do Sesc Pompéia

 

 

Fonte de inspiração

Laerte disse que a ideia do espetáculo “A noite dos Palhaços Mudos” veio de uma história em quadrinhos, de uma ópera e de um filme de Fellini. “Se não viram o filme ‘O Palhaço’, do diretor italiano, não percam.”

Leia aqui sobre a entrevista que Fellini deu a correspondente Ivy Fernandes, nos anos 70, e foi tema de reportagem do Panis e Circus.

 

Seres noturnos da cidade

O livro “La Mínima em Cena” descreve, à página 134, que os Palhaços Mudos são seres que habitam a cidade e dedicam-se a praticar palhaçadas: “Existe uma seita, no entanto, que os considera uma ameaça alarmante e os persegue, na tentativa de extingui-los. Numa noite de caça aos dois Palhaços, apenas um é capturado e, na tentativa de matá-lo, conseguem apenas arrancar o seu nariz. O pobre mutilado escapa e, não conseguindo suportar a vergonha, se desespera. Surge então o segundo Palhaço Mudo, que entende o que aconteceu e arrasta-o para um ousado resgate nasal”.

“A Noite dos Palhaços Mudos” estreou em 2008 no Espaço Parlapatões. Domingos Montagner e Fernando Sampaio dividiram o Prêmio Shell de Melhor Ator nesse mesmo ano.

Para Laerte a história dos palhaços tristes “é simples e contesta a falta de flexibilidade daqueles que não entendem a relatividade das culturas, algo que ainda é comum nos dias de hoje”.  

 

“À La Carte”, “Aprendiz de Maestro” e “Athletis”  com Paulo Rogério Lopes

Em seu depoimento, o dramaturgo e diretor de teatro Paulo Rogério Lopes afirmou que iniciou o contato com Fernando Sampaio na Nau de Ícaros. Com Domingos Montagner foi na cia. Pia Fraus. “Eu não conhecia o trabalho mais ‘palhaceiro’ dos dois. Não tinha visto ainda o número das bailarinas.”

Depois, continua Paulo Rogério, Fernando o chamou para mais um trabalho em conjunto com a dupla. “Acabou saindo o roteiro de ‘À La Carte’, de 2001. Eles foram para a Itália para serem dirigidos pelo italiano Leris Colombaioni. Na volta deles ao Brasil, eu fui ver um ensaio de ‘À La Carte’ e caí de costas, era sensacional. Mas me perguntei: o que eu fiz ali?”

Encantador o trabalho, comprova a reportagem do Panis & Circus. Leia aqui.

Paulo Rogério prossegue em seu depoimento informal, entremeado de risadas: “Outro dia, o Fê me ligou e disse que queria um novo projeto para os dois e que falasse de esportes. Na largada, o roteiro e as ideias iniciais tiveram que tomar um rumo diferente, pois o Domingos não poderia participar do projeto, que passaria a ser um solo do Fê. O que houve então foi uma radical modificação do conceito do espetáculo: transformar o Fernando no Barão de Coubertin, que contaria, como se estivesse em uma palestra, ‘tudo’ sobre a história dos esportes, desde o começo, antes mesmo de o homem ser homem, até o advento das Olimpíadas”.

Surgia então “Athletis”, espetáculo que foi reapresentado no final de semana, dos dias 23/02 e 24/02, no Sesc Pompeia, com lotação esgotada. Em resumo, como diria o Barão, completa Paulo Rogério: “O importante não é vencer. Nem só competir. O importante é se divertir”.

Leia aqui o comentário sobre “Athletis” no Panis & Circus.

 

Fernando Sampaio em "Athletis"/Foto Carlos Gueller/Divulgação

 

 

“O Médico e os Monstros” com Mário Viana

O dramaturgo Mário Viana afirma que, um dia, o Domingos ligou para ele e disse que “apareceu um médico e um monstro, um projeto do Sesi para adolescentes. Aí me vi diante de dois desafios: escrever para adolescentes e para dois palhaços”.  

Viana acrescenta que, à época, precisou ir a Curitiba (PR) a trabalho. Lá, percorreu sebos a procura de versões do livro “O Médico e o Monstro”, de Stevenson. O escocês Robert Louis Stevenson escreveu o romance “The Strange Case of Dr.Jeckyll and Mr. Hyde” em 1886, um clássico de suspense.

Mário Viana afirma que em seu processo de criação se “alimenta de várias referências do autor que está sendo adaptado”: “Não era tarefa fácil fazer um médico e um monstro para  dois palhaços que admiro”, admite Mário. “Teve uma hora que eu disse: ‘um vai virar o outro. O Domingos vai virar o Fernando e o Fernando vai virar o Domingos’. Essa troca abriu espaço para o improviso”. E deu muito certo.

 “O Médico e os Monstros” – o espetáculo adaptado por Mário Viana foi dirigido por Fernando Neves e estreou em 18 de agosto de 2008 no Teatro Sesi, em São Paulo.     

 

 

Em “O Médico e os Monstros”, segundo a sinopse do livro “La Mínima em Cena”, à página 120, “o respeitado médico Henry Jeckyll procura a fórmula que isola o mal da alma. No entanto, ele provoca o surgimento de Edward Hyde, um ser repulsivo, que não hesita em praticar as piores maldades do mundo”.

Elenco da peça “O Médico e os Monstros” / Foto Carlos Gueller

 

O escritor e professor Mario Bolognesi, pesquisador do circo, definiu o trabalho dos dois palhaços Domingos e Fernando: “La Mínima é o máximo”.

 

“Circo Zanni, história de uma longa estrada”

Fernando e Domingos destacam no livro “La Mínima em Cena”, à página 87, a criação do Circo Zanni.

“O verão de 2003-2004 foi o momento inaugural da concretização de um sonho: na Praça Pôr do Sol, em Boissucanga, no litoral norte, estreou o Circo Zanni, um grupo de artistas oriundos de diversas gerações de escolas de circo, seguidores de seus mestres e de sua arte.” 

Em 20 de novembro, o Circo Zanni fez a temporada inaugural com lona própria na cidade de São Paulo. 

“Desde então, o Circo Zanni cumpre com seu compromisso de não ser mais um projeto eventual e sim um estilo de vida, uma forma peculiar de ver e fazer arte, realizando sessões para um público encantado, mas também por ver que o circo continua vivo e seguindo seu caminho.”

 

“Circo Zanni” no Festival Mundial de Circo / Foto André Fossati

 

Bel Mucci, Lu Menin, Maíra Campos e Domingos Montagnerm - Cena de “A Feia”, no Circo Zanni / Foto Carlos Gueller

 

 

Zé Wilson, da Escola Picadeiro: carinho pelos palhaços Agenor e Padoca

Entre os presentes no evento do Sesc Pompeia estava José Wilson Leite, do Circo Escola Picadeiro, onde o grupo La Mínima começou. Diz ele no livro da dupla de palhaços: “Em mais de 25 anos ensinei minha arte circense e com ela conheci muita gente. Com minha lona armada na avenida Cidade Jardim, criei com orgulho os meus filhos, os de sangue e os de profissão. E os de profissão foram muitos. Todos eles têm um significado muito importante, mas por dois em especial possuo um carinho muito forte: Domingos e Fernando, ou Agenor e Padoca, ou simplesmente La Mínima”.

José Wilson, do Circo Escola Picadeiro, durante evento do Sesc Pompéia / Foto Asa Campos

 

 

Curadora da exposição “Hoje Tem Espetáculo!” foi prestigiar La Mínima

Verônica Tamaoki, do Centro de Memória do Circo, disse que não poderia deixar de parabenizar “esses dois palhaços fantásticos”. Ela ganhou o prêmio Governador do Estado em 4/02/2013 pela curadoria da exposição permanente “Hoje Tem Espetáculo!”, que conta a história do circo brasileiro. 

 

Verônica Tamaoki, do Centro de Memória do Circo / Foto Asa Campos

 

Lu Lima, produtora do La Mínima, atriz convidada do Circo Zanni, mulher de Domingos Montagner e mãe de Leo, Antonio e Dante, foi uma das coordenadoras do evento. Erica Stoppel, do Circo Zanni, Tomás Stoppel Sampaio, seu filho e de Fernando Sampaio, também marcaram presença.


Lu Lima, produtora do “La Mínima” e mulher de Domingos Montagner / Foto Asa Campos

 

Lu Lima com Leo, à esquerda, Antonio do seu lado, seu filhos, e Tomás Stoppel Sampaio / foto Arquivo La Mínima

 

Fernando e seu filho Tomas / Foto Asa Campos

 

Erica Stoppel, do Circo Zanni, mulher de Fernando e mãe de Tomas no evento do Sesc Pompéia / Foto Asa Campos

 

Fernando maquia Tomás e Erica olha os dois / Foto Bastidores do Circo Zanni

 

 

Lá Mínima em cena

Editora: Sesi-SP

Preço: R$ 35,00

 

 

 

 

 

Texto: Bell Bacampos

 

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