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Altissonante no Tendal da Lapa

 

Lu Menin em Altissonante! No Sesc Pompeia/Asa Campos

 

Mônica Rodrigues da Costa*

 

“Altissonante!”, de Lu Menin, ou Luciana Menin, traz uma síntese do trabalho de uma artista madura, que tem domínio de sua técnica de acrobacia aérea e contorcionismo, corda marinha e trapézio, corda em balanço e coreografia. O espetáculo fica em cartaz no Sesc Pompeia até 7/4/2019, na capital paulista.

Concebido por Lu Menin e Lu Lopes, a premiada Palhaça Rubra, e dirigido por esta e a aramista Maíra Campos, “Altissonante!” constrói com singularidade minienredos para o universo fragmentário do picadeiro mediante o entrelaçamento de atrações da lona, desenvolvidos a partir de composições populares, MPB, tango, salsa, e outros ritmos. O espectador identifica os números clássicos, mas revisitados sob a perspectiva da invenção.

 

Envolta em tulê, personagem fala da mulher / Asa Campos

 

Todos os elementos apresentados são unidades significativas no espetáculo, formulam um discurso em alto e bom som, que é um solo dessa circense, também mímica, dançarina  e atriz de teatro clássico. A cenografia celebra o espaço sagrado de Lu Menin, ambiente no qual ela desenvolve o que sabe fazer de melhor.

É um quadrado de metal multifuncional, de três lados e o quarto aberto para a plateia, onde estão dispostos os objetos de que a artista necessita para realizar incríveis façanhas.

Uma peça de ex-voto para consagrar a arte. Uma escadinha no centro e uma cadeira aparelho, criada por Menin para contorcionismo e acrobacias. Uma corda marinha no alto, um casaquinho pendurado — que Lu veste em vários momentos –, um ramalhete de flores e arabescos de simetria especular, barroca, que se multiplicam nesse ambiente que se fecha paulatinamente para se transformar em um só aparelho de circo, em quase trapézio, em suporte para paradas de mão, giros, saltos e cambalhotas.

 

Gramática visual inventiva de Lu Menin / Asa Campos

 

A gramática visual das cenas demonstra a forma peculiar de picadeiro inventada pelas artistas xarás e a diretora-assistente, Maíra Campos, aprendida por assimilação desse fazer popular revisitado, por meio da experimentação e sob influência de artistas visionários como Desmond Jones, com quem Lu Menin estudou, e a poesia ímpar e escalafobética da Palhaça Rubra, personagem da diretora Lu Lopes.

 

Ironia cômica marca o espetáculo / Asa Campos

 

A interpretação dos números é carregada de ironia cômica. A cena inicial é surpreendente. A personagem de Lu é uma cantora que conversa com a plateia nos intervalos entre uma canção e outra. Em outros momentos a música funciona como apoio aos quadros apresentados, em que a artista explora a dramaturgia das canções e o teatro físico misturados.

 

Músicas são um show à parte no solo de Lu Menin / Asa Campos

 

As músicas são um show à parte porque todas têm a ver com cultura popular e circo. Entre as composições estão “No Corro, No Grito, No Empujo”, do grupo mexicano Mr. Illich Triciclo Circus Band, que mescla polka, tango, manouche, waltz, balkan, oaxaqueña, paso doble, conforme informa a Wikipédia.

“Sonhos”, de Peninha, é interpretada por Lu Menin de modo cômico,  que contrasta com o estilo dor de cotovelo (sem ressentimento) da nossa MPB.

“No me Dejes”, da banda Los Cocineros (Córdoba, Argentina), tem ritmos latinos e nostalgia kitsch.

 “Exu Parade”, do Otto, de batida vibrante, mescla de samba, rock e pop, e “Hawaii War Chant”, de Bob Willy, de 1946, completa a atmosfera de cabaré presente no espetáculo. Vale a pena conferir.

 

Mundo feminino prepara-se para alcançar voo / Asa Campos

 

 

Quem é a protagonista

Lu Menin é professora de aéreos e sócia do único circo de lona de vanguarda no Brasil, o Circo Zanni, ao lado de Maíra e outros sete parceiros, e integra o Circo Amarillo, liderado pelos multiartistas excêntricos Pablo Nordio e Marcelo Lujan (igualmente sócios do Zanni). Lu já foi premiada em peças paulistanas como “Jucazécaju”, com direção da atriz e palhaça Carla Candiotto, e participou da Cia. Linhas Aéreas e do Circo Mínimo, entre outros grupos.

 

Lu Menin, Lu Lopes, diretora e Maíra Campos, assistente de direção / Asa Campos

 

 

Ficha técnica

Concepção: Lu Menin e Lu Lopes. Direção artística: Lu Lopes. Assistente de direção: Maíra Campos. Direção técnica: Pablo Nordio. Cenografia: Lu Menin, Lu Lopes e Dôdô Giovanetti. Figurino: Lu Menin e Lu Lopes. Coreografia: Marina Abib e Letícia Doretto. Treinador técnico: Paulo Maeda. Trilha sonora: Lu Menin e Lu Lopes. Edição de áudio: Arturo Cussen. Programação visual: Luciana Lima. Produção: Márcia Nunes.

Serviço

“Altissonante!”. Em cartaz em 6/4 e 7/4/2019, sábado, às 21h, e domingo, às 18h. Duração: 40 minutos. Classificação: 12 anos. No teatro do Sesc Pompeia, à rua Clélia, 93, Pompeia. Ingressos: Inteira R$ 30,00; meia R$ 15,00 e comerciários: R$ 9,00.

*Jornalista frila, crítica de teatro no Guia Folha (Folha de S.Paulo) e comentarista de circo.

 

Público aplaude de pé Altissonante! / Asa Campos

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