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Movimento Negro: protagonismo em cena

Integrantes de “Prot(agô)nistas” no FIC em São Paulo / Cassandra Mello

 

Mônica Rodrigues da Costa*

O circo pega fogo na noite de 7 de abril no espetáculo “Prot (agô) nistas: O Movimento Negro no Picadeiro”, do Festival Internacional do Circo 2019 na capital paulista. A principal performance, que conquista o público e o faz delirar, é a dança coletiva “gumboots”, com palmas, batidas em botas e o suingue que só os nossos avós africanos souberam inventar.

As batidas por vezes parecem pontos de candomblé (religião afro-brasileira) que nos aproximam das divindades. Não à toa o diretor do espetáculo, Ricardo Rodrigues, destaca em seu título o termo “agô”, que significa pedir licença para entrar em determinado espaço e ocupá-lo com o domínio da cena.

 

Dança coletiva ao som palmas e batidas em botas

 

Pretos de diferentes etnias, escravizados na África do Sul, inventaram a dança gumboots. Eles batiam palmas e nas botas de trabalho como forma de se comunicar entre si, no século 19,  já que não falavam a mesma língua.

Por meio das artes e técnicas do picadeiro, os circenses do show devolvem em forma de alegria e ritmo a dor que viveram nos navios negreiros e ainda sofrem nos porões de sociedades que discriminam pela cor da pele.

 

Ricardo Rodrigues (camisa estampada), diretor do espetáculo e elenco

 

No espetáculo, o diretor, Ricardo Rodrigues (Cias. Solas de Vento e Circo Mínimo), põe em relevo a dança gumboots, que ocupa o lugar do palhaço entre um número e outro. As esquetes se sucedem à atração-mor, acompanhadas de vivas e fortes aplausos do público de todas as cores.

Outro elemento forte é a música, tocada e cantada por homens e mulheres da banda ao vivo. As letras falam da beleza negra, dos cabelos lindos pixaim, encaracolados, e mais um desfile de características das gentes de pele negra. Entre as canções estão “Dos Róla”, de Dica L.Marx; “Neguinha Sim”, de Renato Gama; “Nascimento”, de Melvin Santana, e “Linda e Preta”, de Jarbas Bitencourt.

 

Elementos fortes do espetáculo: música e dança

 

O espetáculo mostra um aparelho de circo inventado: um triplé de bambus para equilibrismo no qual uma acrobata faz belas evoluções de ginástica e arte. 

 

Equilíbrio no tripé de bambu

 

Depois da ginasta, vem ao palco o palhaço tímido, que está triste e procura um amor. Usa aplicativo de encontros para ver se “dá match”. Nada. Gargalhadas.

Então ele faz uma simpatia, como todo bom brasileiro, e surge uma bailarina. Os dois se apaixonam. Ela dança no tablado e suspensa no alto, com movimentos que dão visibilidade ao figurino, detalhado com brilhos e penas de pássaro. O palhaço canta em diversos ritmos “Se essa Rua Fosse Minha”, provocando o maravilhamento das pessoas.

 

Palhaço faz surgir a bailarina com saia de penas

 

Na sequência entram belas dançarinas que também são ginastas e exibem suas habilidades aéreas e no solo. Mostram suas façanhas no tecido e nas paradas de mão.

 

Releitura do número clássico de perna de pau

 

Muitos números são releituras criativas das atrações clássicas, como a dança na perna de pau e o quadro do palhaço de luvas. Ele executa no piano composições como “Pour Elise”, de Beethoven, que virou cômica porque o caminhão de gás dela se apropriou. Enquanto a música flui, joga videogame e toca piano com os pés para delírio do público.

 

Números de malabares e tecido no Centro Esportivo Tietê

 

Com números com uma mala mágica, de samba no tecido, break (dança de rua afro-americano), hip hop, capoeira, cantos de lamento e ritmos pop, “Prot (agô) nistas”… realiza uma pertinente celebração com o que herdamos de melhor dos nossos antepassados negros: as artes da música, do canto e da dança, agora somadas ao circo popular. Você precisava estar lá para ovacionar essa galera maravilhosa.

 


Ritmo de Prot(agô)nistas entusiasma

 

Os autores dos números são: Fafá Coelho, no tecido; Guilherme Awazu, na perna de pau; Maíza Menezes, na corda indiana e malabares; Robert Gomez e Renato Ribeiro, na palhaçaria; Tânia Oliveira, nas paradas de mão; Tatilene Oliveira, no tecido, e Veronica Oliveira, como a bailarina.

 

Leitura do Movimento Negro no Picadeiro

 

 

Ficha técnica

“Prot (agô) nistas”. Direção: Ricardo Rodrigues. Elenco: Fafá Coelho, Guilherme Awazu, Maíza Menezes, Renato Ribeiro, Robert Gomez, Tania Oliveira, Tatilene Santos, Veronica Santos. Músicos: Dica L. Marx, Eric Oliveira, Lilian Teles, Mariana Per, Melvin Santhana, Renato Ribeiro, Vinicius Ramos. Dança Gumboots: Danilo Nonato, Diego Henrique, Pamela Cristina, Rafael Oliveira, Silvana de Jesus e Washington Gabriel. 

 

Curadoria, patrocínio e apoio

O Festival Internacional do Circo 2019 (FIC), que ocorreu no Centro Esportivo Tietê, teve curadorias de Hugo Possolo e Fernando Sampaio, entre outros circenses admiráveis, com patrocínio e apoio da Prefeitura de São Paulo e Centro de Memória do Circo. Possolo é o atual diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo e integrante do grupo Parlapatões. Sampaio é palhaço-ator da Cia. LaMínima. A ideia de fazer o FIC foi da circense Bel Toledo, diretora do Centro Cultural da Lapa.

 

 

FOTOS: CASSANDRA MELLO

 

 

*Jornalista frila, crítica de teatro no Guia Folha (Folha de S.Paulo) e comentarista de circo.

 

 

Foto de Capa – Cena de Prot(agô)nistas no Festival de Circo em São Paulo

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