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Reflexão sobre desigualdade de gênero

 

 

Fernanda Araújo especial para o Panis & Circus 

O espetáculo Das Cinzas Coração conta a rotina de Aurora, uma dona de casa em 1920: o marido sai para trabalhar e ela cuida dos afazeres domésticos; ele reclama de tudo e ela até pensa em se defender, mas não consegue. A trama, dirigida e protagonizada por Jéferson Rachewsky e Valquíria Cardoso, foi apresentada entre os dias 19 e 21 de junho, no Sesc Ipiranga, e integrou a programação de CIRCOS – Festival Internacional Sesc de Circo 2019 

Com o intuito de refletir sobre a desigualdade de gênero, a montagem recorre ao charme do cinema mudo, com ênfase nos recursos da palhaçaria. “Desde que criei a companhia Quimera, pulsava muito forte o desejo de utilizar a linguagem do palhaço e suas formas anárquica e lúdica de ver o mundo para abordar com humor crítico questões urgentes de nosso tempo. E o projeto Das Cinzas Coração começou com a proposta de dar o protagonismo à figura da palhaça, dar voz a ela (mesmo sem utilizar de falas) e aos seus sonhos e suas dores. Decidimos falar da mulher que é colocada, desde sempre, num papel de submissão forçada. Queríamos virar o jogo. Na encenação. Na história. No todo”, disse Jéferson Rachewsky, da Quimera Criações Artísticas, que se juntou a Valquíria Cardoso ao grupo Teatro Ateliê nesta empreitada.

 

Jéferson Rachewsky no espetáculo Das Cinzas, Coração / Divulgação

 

Jéferson Rachewsky e Valquíria Cardoso se conheceram no “Música de Cena”, show em que Arthur de Faria (músico do espetáculo) reuniu atrizes e atores/musicistas de vários espetáculos para os quais ele havia composto a trilha.

Um pianista (Arthur de Faria, que executa a trilha sonora ao vivo) surge ao fundo o teatro e segue até o lado esquerdo do palco, local onde põe-se a tocar. Na sequência, a tela que cobre o palco recebe uma projeção introdutória, com contagem regressiva, créditos, ficha técnica e agradecimento a Buster Keaton (célebre astro do cinema mudo).

 

O pianista executa a trilha sonora ao vivo / Foto Adriana Marchior

 

“Quando comecei a fazer teatro (muito antes de ouvir falar na palavra “Clown”) o que eu queria mesmo era fazer filmes de comédia muda, tendo como maior inspiração o fantástico e genial cineasta Buster Keaton. E este velho sonho acabou se concretizando nos palcos, graças à união, ao talento e a pesquisa pessoal de toda a equipe envolvida, em especial a Valquíria Cardoso que, além de protagonizar o espetáculo, realizou a direção de arte pensando em cada detalhe visual para que o público tenha a nostálgica ilusão de que está, de fato, assistindo a um filme em preto e branco”, completou Rachewsky. “E o sentido de, em pleno século 21, nosso espetáculo usar a linguagem do cinema de 100 anos atrás para contar uma história de opressão feminina passada em 1920 se reforça porque estas cenas seguem (re)encenadas na vida real, em todo canto, todas classes sociais e orientações religiosas ou políticas”. 

 

Peça começa com casal domingo / Divulgação

 

A narração tem início com o casal dormindo na cama, cobertos por um lençol. Sem palavras, apenas com gestões e ações, os atores simulam a tradicional noite de sono.  Ela muito fofa e delicada ao lado do marido. O marido, fedendo a suor, solta o peso da perna sobre o franzino corpo da amada e mostra o bafo de quem não mantem nenhuma preocupação bucal. Ele acorda, sorri empolgado e aponta para a parte de baixo de seu corpo, como se estivesse convocando-a para o ato sexual, sem preliminares. Ela faz cara de desapontada, como se desejasse um carinho, talvez, e desliza sob o lençol que se agita.

A cama transforma-se em cozinha, anunciando o raiar de um novo dia. A moça prepara panquecas e faz pequenos malabarismos com a frigideira. Fica tão feliz com a própria performance que esquece o quitute no fogo. O marido chega e começa a reclamar do prato, como se ela tivesse cometido uma infração gravíssima. 

 

Ela entrega solicita o jornal que o marido pede / Divulgação

 

Ele pede o jornal, mas não permite que ela leia. Pede o charuto e reclama que ela não o acendeu. Ela faz uma massagem no ombro dele e ele solta a fumaça na cara dela. Ele joga as cinzas no chão e ela limpa. A raiva da mulher cresce em consonância com o ritmo intenso da música e o piscar frenético da luz, até que ela se vinga, toma o charuto nas mãos queimando desesperadamente… porém, suas pupilas dilatam, seu corpo treme e ela se dá conta de que a rebeldia só ocorrera na sua mente. 

De volta à vida de esposa, ela prepara carinhosamente o almoço. Escolhe os melhores ingredientes e mexe a panela com a certeza de quem cozinha um prato muito especial. Até que o marido chega e ela oferece um provinha na colher de pau. Ele reclama que falta sabor e ordena que ela coloque mais tempero, e mais tempero, e mais tempero. Até que o som e a iluminação se intensificam e ela, muito irada, soca a cabeça dele dentro da panela por diversas vezes… porém, suas pupilas dilatam, seu corpo treme e ela se dá conta de que a rebeldia só ocorrera na sua mente.

A esposa sonha com a felicidade, dança enquanto varre a casa, mas está sempre preocupada com a chegada do marido, o que ele pode pensar, o que ele poderá fazer. Deprimida, ela se ajoelha no chão, reza e pede um conselho. Atendendo a pedidos, surge um anjo, de roupa branca e asas. O espírito, como a mesma cara do marido (o próprio, claro!) sugere que ela pode até se separar, mas será pior para ela. E aproveita a descida na Terra para mostrar, que apesar da faxina, ela se esqueceu de uma sujeirinha no chão. Foi o ponto que ela precisava para colocar o anjo para correr.

 

Aurora sonha ao lado da companhia da vassoura / Divulgação

 

Na hora de lavar a roupa, ela percebe que o marido deixou a ceroula muito suja e se recusa a lavar, jogando a peça para o canto da bancada. Tira o vestido para colocar no tanque, ficando apenas com antigas roupas de baixo, mas se expõe ao julgamento da vizinha. Revoltada, ela bate um bolo com vigor e adiciona um rato à massa. Começa ali o glorioso processo de libertação rumo ao desfecho.

Na sessão acompanhada pela equipe do Panis & Circus, no fim de tarde do feriado, uma garotinha da segunda fileira não parou de gargalhar e torcer pelo final feliz de Aurora, comprando o sucesso da produção também entre a molecada. E Jéferson Rachewsky sabe que se trata de uma faixa etária muito sincera. “Crianças são mais abertas para gostar de um espetáculo e embarcar contigo em uma jornada imaginativa, e também mais abertas para desgostar e perder o interesse em uma encenação. E essa pureza de sentimentos está muito presente no trabalho da palhaçaria, no qual a máscara que se leva no nariz é a que menos esconde o rosto e a que mais revela a alma, com toda as dores, alegrias e complexidades do ser humano”. 

O artista ressalta o papel do palhaço na capacidade de ver o mundo com outros olhos e de brincar intensamente com a realidade, sem ter medo do ridículo. Assim, conquista uma conexão. “Quando crio um espetáculo sempre desejo conseguir agradar a todas as idades, e despertar um pouquinho da criança adormecida que habita o coração dos adultos”. De fato, Das Cinzas Coração retrata um velho tema de forma provocativa e bem-humorada, e encanta a ‘molecada’ dos séculos 20 e 21. 

 

 

Das Cinzas Coração

Classificação: 12 anos
Duração: 40 minutos

Ficha Técnica
Direção: Jéferson Rachewsky
Elenco e dramaturgia: Jéferson Rachewsky e Valquíria Cardoso
Trilha sonora: Arthur de Faria
Concepção visual e figurinos: Valquíria Cardoso
Cenografia: Alex Limberger e Valquíria Cardoso
Adereços: Diego Steffani e Valquíria Cardoso
Criação de luz: Osvaldo Perrenou
Operação de luz: Daniel Fetter
Fotografia: Adriana Marchior
Arte gráfica: Jéferson Rachewsky

 

Legenda Foto de Capa – Aurora leva jornal para o marido que ele lê e ela não / Adriana Marchiori

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