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20 Mil Léguas Submarinas com pegada circense

Atores caracterizados em 20 Mil Léguas Submarinas/Foto Mariana Chama

Mônica Rodrigues da Costa*

“20 Mil Léguas Submarinas” é a nova expedição de Júlio Verne (1828-1905) em adaptação coletiva da companhia Solas de Vento, que há 14 anos apresenta seus números aéreos, cômicos e circenses para o público paulista e em festivais — em 2017 foram para a China levar uma de suas montagens.

A peça completa a trilogia de versões de obras do autor adaptadas pela companhia, “A Volta ao Mundo em 80 dias” (2011), com direção de Carla Candiotto, e “Viagem ao Centro da Terra” (2015), dirigida por Eric Nowinski. A trilogia está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) na capital paulista até 11 de abril de 2021 (veja abaixo).

Desta vez a aventura começa correndo perigo. Os personagens estão em pleno naufrágio, tentando evitar o pior. Isso porque o Professor Aronnax convenceu seu discípulo fiel e assistente, Conseil, a empreender nova viagem, agora de vinte mil léguas e no submarino do Capitão Nemo num périplo diverso. Nemo é cientista, construiu a embarcação, uma espécie de navio futurístico, que chamou de Nautilus, e chefia essa segunda expedição.

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Bruno Rudolf, André Schulle e Ricardo Rodrigues em cena

Os espectadores se sentem como se estivessem dentro de um navio, contaram Ricardo, que faz o Professor Aronnax, e Bruno Rudolf, de 44 anos, que tem o papel de Ned Land. O ator André Schulle é o assistente do professor e Bobby Baq e Marcelo Gilber fazem parte da tripulação.

O ator Ricardo Rodrigues, de 45 anos, comenta: “Como é o Professor Aronnax? Tem uma admiração muito grande pelo capitão Nemo e por toda a riqueza tecnológica e respeito aos ecossistemas”.  

Bruno Rudolf contou que se preparar para interpretar seu personagem foi demorado e difícil, mas conseguiu inventar até a forma de andar do arpoador Ned. Todos querem combater um monstro que alvoroça a cidade porque ataca embarcações lá pelos anos de 1869.

O gaúcho Alvaro Assad, de 52 anos, assina a direção. Ele descreve a cena inicial de “20 Mil Léguas Submarinas”: “O Ricardo, o Bruno, o André e o Bob surgem dali de dentro das coxias e interagem. Suas figuras são muito fortes de comicidade e de estética”.

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Trio de atores parece bonecos em quadrinhos animados/Foto Mariana Chama

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O grupo trabalha com o teatro físico e o de formas animadas. A peça não tem palavras e a companhia acrescenta na mistura de linguagens que adotam a pantomima criada pelo artista Assad, que conta que o elenco parece bonecos, “está irreconhecível e brinca com histórias em quadrinhos em cena”.

Alvaro continua a descrever e informa que o visagista (Cleber Oliveira) “transformou a expressão facial deles [atores] trabalhando com próteses, maquiagem e cabelo, ao mesmo tempo os deixou num lugar aberto à possibilidade facial. Estão em equilíbrio com aqueles utensílios que voam no palco literalmente, e isso é uma característica deles [cia. Solas de Vento]”.

O romance de Verne tem ação e vários desafios ocorrem com os cientistas e a tripulação. A expedição é recheada de tecnologia, efeitos visuais, sonoros e circenses e explora captações e projeções de vídeo ao vivo no fundo do palco.

Bruno Rudolf diz que há “imagens internas do submarino e algumas externas, com peixes, escafandros”. Tudo o que se encontra no imaginário do mundo debaixo d’água está lá presente “em forma de desenhos e em três dimensões, que são manipulados e projetados ao vivo”.

Comentando a construção da peça, Bruno contou que em sua técnica de narrar há um personagem do circo “muito presente no trabalho, que é o trapezista. Ele faz o seu trapézio como o malabarista monta suas claves e a gente traz isso no histórico do Solas de Vento”.

Ambos concordam que os cenários, que são feitos pelos atores, “funcionam como o aparelho do trapezista [por exemplo]. A gente usa o objeto de forma acrobática e cômica, sem precisar de nariz vermelho, e não se prepara para dar um salto como no circo tradicional], a gente se desloca com um rolamento e dá o salto, que está dentro do roteiro da peça e dentro da dramaturgia.”

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O que atraiu o Solas de Vento para adaptar a história “foram as imagens potentes que Júlio Verne cria nos livros dele, podem ser traduzidas pela linguagem do circo que eu e Bruno desenvolvemos”.

São como quadros históricos. “As imagens dizem respeito à tecnologia dos meios de transportes, das últimas novidades da ciência e invenção de máquinas”, diz Bruno. Em “Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, “os personagens viajam de carro, de barco, tem muita ação, eles pulam de um trem. A gente mistura, sim, e isso é uma característica do circo”.

Ricardo Rodrigues explica os figurinos: “Eles ilustram ou apresentam o que são as três figuras: um professor, um assistente e um arpoador, além do elemento que cada um traz, que acentua isso, o figurino ressalta os personagens.

Ricardo também comenta a personalidade dos personagens. “O assistente tem uma coisa jovial, ele é muito grande, ressalta a curiosidade, o figurino dele, em linhas retas, o deixa maior ainda. O arpoador, Ned Land, tem uma roupa mais despojada, de caiçara, digamos, um coletinho, uma calça mais frouxa, amarrada, a movimentação dele é mais ágil, mais dinâmica, o tecido tem mais movimento, o figurino é mais transado”.

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Ator e dançarino, Bruno diz que para o Solas de Vento o circo é esse “lugar de encontro entre artistas de picadeiro, artistas de rua, malabaristas. Pessoas que antigamente trabalhavam com cavalos, músicos, e essa variedade de artistas se encontra no picadeiro para criar um espetáculo que é único na companhia.”

Por tudo dito até agora é possível afirmar que a cia. Solas de Vento faz um teatro de invenção. “Sim, eu me identifiquei com essa expressão que você usou, [o conceito é da crítica literária] de teatro de invenção; é, a gente tem uma criatividade e linguagem que são muito específicas das histórias que conta, essa peculiaridade é o teatro de invenção.”

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O que fez o dramaturgo em “20 Mil Léguas Submarinas”

O dramaturgo de “20 Mil Léguas Submarinas”, Bobby Baq, de 26 anos, conta como foi o processo da criação da adaptação do espetáculo: “Eu meio que fui ajustando as marteladas que todo mundo dá, foi supercolectivo, todo mundo trabalhando junto, é uma trama. Teve uma dinâmica muito intensa com Alvaro, que também assina a dramaturgia”. Boby contou que o maior desafio foi “montar a ação no espaço pequeno de um submarino com o qual você só desloca a máquina para ver a paisagem”.

A linguagem gestual do Solas de Vento

No teatro, diz Ricardo Rodrigues sobre o grupo Solas de Vento: “O gesto, o movimento, a ortografia que a gente instala no palco, ela é texto muitas vezes, tem toda essa composição de artes, essas são as ferramentas que a gente tem, de vida, nestes anos de trajetória e que gosta de colocar em cena para contar as histórias. Para eu seguir com a história qual é a melhor ferramenta? E vem um movimento acrobático ou da comicidade ou uma passagem pelo circense, mas com algum virtuosismo, a serviço mesmo da narrativa para que se ressalte. O palco do CCBB tem uma caixa ótima, a gente conseguiu colocar um elemento aéreo”.

Bruno Rudolf diz que para cada espetáculo a cia. Solas de Vento chama um diretor. No caso de “20 Mil Léguas Submarinas” é o Alvaro Assad. “O fato de a gente sempre ter um diretor diferente para cada espetáculo impulsiona a criatividade, pois ele chega com outras experiências, técnicas, que vão se juntando com tudo que a gente traz de bagagem pra criar uma dinâmica.”

Como o ator veste o personagem

Ricardo Rodrigues relata o trabalho da montagem: “Quando Alvaro chegou para o primeiro encontro na sala de ensaio, a gente já tinha uma gênese dos personagens, um esqueleto de ações, mas ele já vem certeiro, falando como vê cada um de nós em qual personagem. Ele oferece o personagem, a gente aceita e aí esse personagem entra na minha personalidade, e é uma riqueza, uma esquizofrenia e luta.”

Sobre a companhia Etc. e Tal, do diretor Alvaro Assad

“Somos uma companhia de repertório que tem 28 anos. O Etc. e Tal, carioca, tem 11 espetáculos em repertório para adultos e para crianças. Eu sou meio carioca e meio paulista porque desde 2010 o grupo tem feito as produções e estreias em São Paulo”, disse Alvaro.

As últimas três produções do Etc. e Tal foram “O Maior Menor Espetáculo da Terra” (2014), “que é o nosso circo de pulgas. A gente fez um câmbio, fiz ‘A Noite dos Palhaços Mudo’ (2008), depois fiz a direção de ‘Mistero Buffo’ (2012) e Domingos Montagner (1962-2016) foi fazer o cenário do circo de pulgas, que é como se fosse um Circo Zanni em miniatura”. Posteriormente a Etc. e Tal fez o “João e o Alfaiate” (2019) e no ano passado “Branca de Neve?” (2006), no Sesc Pompeia, em janeiro de 2020. Assad também trabalhou com os Parlapatões.

Ficha técnica

Adaptação livre do romance de Júlio Verne. Idealização: Cia. Solas de Vento. Direção: Alvaro Assad. Elenco: André Schulle, Bruno Rudolf e Ricardo Rodrigues, com participações de Bobby Baq e Marcel Gilber. Dramaturgia: Bobby Baq e Alvaro Assad em colaboração com o elenco.  Música original: André Vac. Direção de Arte e Figurinos: Renato Bolelli e Vivianne Kiritani. Visagismo: Cleber de Oliveira. Cenografia: Cia. Solas de Vento e Alvaro Assad. Cenotecnia: Cesar Augusto e Jeremias da Silva. Adereços: Chico Matheus. Costureira: Judite Lima. Desenho de Luz: Marcel Gilber. Design de Vídeo: Rodrigo Gontijo. Operações Técnicas: Luana Alves. Arte Gráfica: Sato do Brasil. Fotos: Mariana Chama. Vídeos: Cassandra Mello. Produção: Natalia Salles. Assistente de Produção: Anna Belinello. Gestão: Doble Cultura e Social. Realização: CCBB SP e Cia Solas de Vento.

Telefone antes de ir pois as normas de higiene estão sendo seguidas e o teatro é pequeno. 

Horários

“Viagens Extraordinárias – a Trilogia: 2O.OOO Léguas Submarinas”, “Viagem ao Centro da Terra” e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” 

Endereço: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo – Rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico, Triângulo SP. Aberto todos os dias, das 9h às 21h, exceto às terças. Acesso ao calçadão pela estação São Bento do Metrô. Te.: (11) 4298-1270. Ingressos: R$ 30,00.

Até 11/04/2021 NO CCBB. Sábados, às 11h e às 15h; domingos, às 15h.

Horários de cada espetáculo

Viagens Extraordinárias – a Trilogia: “2O.OOO Léguas Submarinas”, “Viagem ao Centro da Terra” e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” 

“2O.OOO Léguas Submarinas” – 27/02, às 11h. 06/03, às 15h. 07/03, às 11h e 15h. 13/03, às 15h. 14/03, às 11h e 15h. 20/03, às 15h. 21/03, às 11h e 15h. 27/03, às 15h. 28/03, às 11h e 15h. 03/04, às 15h. 04/40, às 15h; 10/04, às 15h. 11/03, às 11h e 15h.

“Viagem ao Centro da Terra” – 20/03, às 11h.27/03, às 11h. 03/04 e 10/04, às 11h.

“A Volta ao Mundo em 80 Dias” – 27/02, às 11h. 06/03, às 11h. 13/03, às 11h.

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Links para textos sobre a cia. Solas de Vento no Panis & Circus

“Solas de Vento: 10 anos de voos”

“Viagem ao Centro da Terra”

“A Volta ao Mundo em 80 dias”

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*Jornalista especializada em infância e crítica do teatro infantil

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Legenda foto de Capa – Trio em cena dentro do submarino/Foto Mariana Chama

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