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“Nóis Otário[s]”: abusos políticos em forma de farsa

 

Elenco da peça/Foto Divulgação

 

Cidadãos e políticos são todos otários

“Nóis Otário[s] – Uma Subcomédia de Autoengano” é uma peça agradável, apesar do tema “angustiante”, como bem disse Hugo Possolo, autor do texto e o diretor, em entrevista sobre a montagem. Agradável porque não cansa e dispensa o estilo panfletário. Angustiante porque o bom cidadão não aguenta mais a roubalheira dos políticos que recebem seu voto, tanto faz o partido. Subcomédia porque o espectador não ri o tempo inteiro.

Somos todos otários e prolongamos o autoengano: jornalistas, artistas de qualquer classe e todos os brasileiros que se calam diante do empresariado que compra o Estado; diante do Estado que cuida dos interesses do empresariado; diante da excessiva cobrança de impostos à classe média; diante do desemprego e falta de oportunidades para a classe de baixa renda. Este parágrafo merece um “etc.”.

Ainda sobre o tema, vale dizer que a sensação do espectador que não trapaceia e paga corretamente impostos e juros escorchantes é a de uma gargalhada nervosa, especialmente de si mesmo porque não existem saídas. A globalização só faz piorar a corrupção alastrada como “a” erva daninha da contemporaneidade. Quem fala paga com marginalidade e isolamento. Essa é a principal mensagem do espetáculo, daí o trocadilho com os livros de autoajuda.

O enredo mostra que um cidadão, empresário, quer fazer crescer seu mininegócio, como no modelo que o planeta adota. Ninguém foge do modelo econômico escolhido como o padrão de vida de todos, ensinam os economistas.

O escracho típico do grupo Parlapatões, o exagero e a caricatura são os motores do jogo cênico nessa história entre o absurdo e o vulgar em que o que se imagina de errado acontece. O empresário inventou de comercializar coleiras para crianças até certa altura, como nos parques de diversão.

O empresário Luiz Carlos (Alexandre Bamba) é amigo do policial federal corrupto Guto (Fabek Capreri), que investiga um crime de corrupção que envolve o senador Laudemar do Espírito Santo (Raul Barretto) e seu assessor Sidney (Rodrigo Mangal), amigo do empresário. No meio da corrente, há Macedinho (Hélio Pottes), líder de ONG que representa os direitos dos anões.

Eles se encontram, revelam segredos uns dos outros e acabam envolvidos numa CPI.

Hugo Possolo concebeu a peça para veicular ideias de modo histórico no aspecto formal. O modelo de comédia de “Nóis Otário[s]” atrai pelas referências ao teatro político, na categoria do drama moderno – teoria de Peter Szondi -, que comenta o presente histórico deixando-o visível e risível.

Modelo reforçado pelo quadro a quadro e pela cena dentro da cena, ao vivo e em telas, como mistérios e farsas medievais ou drama de estações.

A peça usa procedimentos do teatro épico, didático e do distanciamento brechtiano. Provoca no espectador a consciência de que, como cidadão, durante o espetáculo, ele se vê no espelho.

Diálogos chamam a atenção nesse sentido. Por exemplo, a conversa por MSN/Skype entre Luiz Carlos e a mulher, Lúcia, que incita o marido a aceitar dinheiro sujo. 

“Nós Otário[s]” interrompe o curso dialógico e apresenta os personagens em sua dimensão utópica, desde a infância até o presente. Cenas dentro de carros misturam atores e filmagens e ressaltam a inserção da narrativa no drama cômico.

Vinhetas visuais e sonoras interrompem a ação de modo poético, metonímico, e também para comentá-la em vídeo com latidos de cachorro bravo e fragmentos irônicos de música popular, como “Nome aos Bois”, dos Titãs, sobre personalidades ditatoriais.

Fragmentos de noticiário entrecortam diálogos – não sobra uma emissora sem demolição. Paródica, a peça imita o real visto pela TV e no computador.

Números de palhaços atravessam cenas sequenciadas atrás de telas transparentes. Piadas circenses, mas politicamente incorretas.

Atuação do elenco: Raul Barretto, de paletó e gravata, incorpora a pose dos senadores nacionais, sem sotaque nordestino, mas com pinta de coronel e peruca bufa, num corpo longilíneo, que contradiz os tipos sociais exibidos na televisão.

Alexandre Bamba faz um sanguíneo Luiz Carlos, com as veias do pescoço dilatadas pela interpretação nervosa. Imita a postura retórica brasileira.

Hélio Pottes é um palhaço e tanto. É o motivo do riso. Ele ri de si mesmo irritado e ri de quem dele ri. Emerge um fato supostamente histórico de que anões não podem ser enterrados devido a lei dos anos 40 do século passado. Mais risos. É o absurdo do circo assombrando o disparate que é a realidade.

 

 

 

Livro “Nóis Otários”

Da editora Giostri, o livro “Nóis Otários – Uma Subcomédia de Autoengano” é o registro da peça tal como Hugo Possolo a concebeu, com as didascálias (instruções) nos pontos exatos em que o diretor marca as passagens opinativas na montagem atual.

Com a obra, registra-se um estilo de teatro transformador, engajado, que configura a palhaçada bufa dos Parlapatões.

Link: http://www.giostrieditora.com.br/detalhes/nois-otario.html

 

 

Hélio Pottes, Alexandre Bamba e Raul Barretto/Esta e a foto da capa: Christian Lesage/Divulgação

 

 

Assista à peça até 26 de agosto

A peça “Nóis Otário[s]” está em cartaz no Espaço Parlapatões, aos sábados, às 21h00, e aos domingos, às 20h00.

Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158. Preço: R$ 40,00 e R$ 20,00. Recomendada para quem tem mais de 12 anos.

Link: http://www.parlapatoes.com.br/

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