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Novembro – Zanni monta lona no Parque do Povo e homenageia o mestre Domingos Montagner

 

Suor e lágrimas na montagem do Zanni

 

Cafi Otta no Parque do Povo durante montagem do Zanni / Foto Georgia Branco

 

Cafi Otta, especial para Panis & Circus 

“O local escolhido para a curtíssima temporada de quatro espetáculos foi o Parque do Povo, um lugar marcante para o desenvolvimento do circo em São Paulo, e certamente, no Brasil. Ali, próximo ao lugar onde a lona do Zanni foi montada, funcionou durante anos o Circo Escola Picadeiro – uma escola de circo que ficava sob a lona de Zé Wilson Moura Leite, um dos nomes mais importantes do circo brasileiro, talvez, uma das primeiras famílias a abrir seu baú de conhecimentos para aqueles que não vinham de famílias tradicionais circenses. 

Lá se formaram inúmeros artistas que depois espalharam ainda mais estes saberes milenares, inclusive Fernando Sampaio e Domingos Montagner, o Duma, que mais tarde iriam criar o Circo Zanni com mais sete sócios.

 

Equipe se prepara para erguer um dos mastros / Foto Georgia Branco

 

Além do local, muito especial é também o momento vivido pela família Zanni. É a primeira vez que a lona é montada depois do trágico acidente que comoveu o país. Inclusive o nome desta temporada faz menção ao bordão usado por Duma em todas as apresentações do circo: “o espetáculo não para, tem sequência”. 

Dessa vez a temporada não conta com nenhum patrocínio, está tudo sendo feito através da ajuda dos amigos e parceiros, e com uma campanha de financiamento coletivo, onde quem apoia o projeto ganha recompensas. Dependendo do valor aportado os prêmios são os ingressos para assistir as apresentações. Esta é mais uma característica que faz dessa temporada um marco na trajetória do Zanni.

 

Um dia pra ficar na minha memória

Mastros prontos para subir / Foto Geogia Branco

 

No dia 1 de dezembro de 2016 acordei cedo para não perder meu treino semanal na academia. Vida de artista/atleta não é mole não. Depois de 48 flexões de braço, mais de 100 abdominais e intermináveis exercícios para as pernas – maratonas de monociclo podem ser especialmente penosas para as pernas –, enfim, depois de muito sofrimento prazeroso na academia, peguei a bicicleta e fui para o Parque do Povo. Cheguei a imaginar que não me deixariam participar tão ativamente da montagem, já que eles tem anos de montagens nas costas. Engano meu! 

Quando cheguei quase não tive tempo de cumprimentar todos meus queridos amigos, logo me entregaram uma marreta – motivo de gozação generalizada, porque me deram o que chamam de marreta de brinquedo, um pouco menor do que as outras usadas pelos trogloditas da montagem. Assim começou minha primeira experiência na subida de um circo.

Cúpula recebe últimos detalhes antes de subir / Georgia Branco

 

Entre marretas, estacas, moitões, mastaréis, catracas, mastros, cavaletes, cúpula, lona, panos de roda e afins, o que pude presenciar foi um verdadeiro ballet durante a montagem. 

Subir uma lona de circo dá muito trabalho! E a cada minuto aparecia mais uma amigo pra ajudar, e a cada amigo o trabalho se tornava menos pesado, e mais divertido. Tudo o que o corpo reclamava, a alma agradecia.

 

Georgia Branco registra tudo em cima do caminhão do Zanni

 

Depois de uma pausa para o almoço o trabalho seguiu tarde adentro. O clima foi extremamente generoso com a equipe. Não choveu, apesar do céu nublado, e o sol não apareceu para castigar a todos. O mormaço que se sentia de vez em quando fez algumas vítimas, inclusive eu. Estou com o rosto ardendo depois de passar o dia sem protetor solar.

Me marcou muito também o tom ritualístico impresso por Pablo Nórdio, do Zanni, na montagem. Enquanto os quatro mastros do circo eram erguidos, num dos momentos mais perigosos da montagem, afinal são estruturas enormes e muito pesadas, Pablo se colocava entre os dois mastros da frente, exatamente embaixo da estrutura, para ver o alinhamento dos mastros de trás, e quando fazia isso fincava com força os dois pés no chão. Com os braços ao lado do corpo comandava a tensão dos cabos, com movimentos sutis e com alguns olhares fulminantes para quem quer que fizesse mais força que o necessário. Uma verdadeira dança com uma estrutura de toneladas nas mãos.

 

Lona dança durante a montagem / Foto Georgia Branco

 

Conto rapidamente um pedaço dessa história que não pude testemunhar ao vivo, mas que imagino como se tivesse visto. Me contaram que no dia anterior a montagem, o próprio Zé Wilson foi levar as carretas do Circo Zanni com todo o material. Quando ele entrou no parque, que por tanto tempo foi sua casa, ele disse: “agora fiquei emocionado, criei meus filhos aqui dentro”.

Por essas e outras que só tenho que agradecer a família Zanni por me deixar entrar um pouco em seu universo, por me emprestarem a marreta de brinquedo pra que eu sentisse na pele o gostinho de montar um circo – mesmo que só tenha provado um pouquinho desse gosto. Obrigado por me deixarem estar por perto num momento tão especial de sua história. Já estou ansioso para ver os espetáculos, e para a desmontagem, que imagino que deve dar muito trabalho também!

Termino de escrever este texto às 9 horas da manhã de um sábado lindo. Espero meu filho acordar para pegarmos as bicicletas e irmos até o parque ver o circo montado. Gostaria que outras pessoas pudessem fazer isso com seus filhos, sempre. Gostaria que São Paulo voltasse a ter uma escola funcionando sob uma lona, no Parque do Povo. É possível, é preciso, é merecido.”

 

Veja abaixo mais fotos da montagem do Zanni do álbum de Georgia Branco 

Caminhão do Zanni chega a Praça do Povo, à frente Wagner Lopes, o Wagnão, da equipe técnica

 

Marcelo Lujan, do Zanni, inicia montagem dos mastros

 

Pablo Nordio, do Zanni, verifica o mastro na montagem da lona

 

Felipe Matsumoto e os cabos de aços para erguer a lona

 

Mastros começam a ser levantados no Parque do Povo

 

Mastros de pé no parque

 

Montanha colabora com Daniel Pedro e Fernando Sampaio , do Zanni, ao esticar a corda

 

Daniel Pedro e Pablo Nordio, do Zanni, embaixo da lona azul

 

Deco Sabatino, dos Irmãos Sabatino, ajuda a erguer a lona

 

Paulo Araújo, o Paulão, iluminador do Zanni, na montagem

 

Guto Vasconcelos ajuda os integrantes do Zanni a levantar a lona

 

Lona começa a subir

 

Parte da lona já suspensa no Parque do Povo

 

Cúpula levantada

Integrantes do Zanni, amigos e equipe técnica após a montagem da lona do circo no Parque do Povo

 

 

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Espetáculo de Variedades celebra circo de Montagner

 

Denise Fraga apresenta Espetáculo de Variedades do Zanni no Parque do Povo / Foto Asa Campos

 

Lu Menin, especial para Panis & Circus

A curta temporada do Circo Zanni no Parque do Povo, em São Paulo, foi marcada por fortes emoções, lindas celebrações, momento inesquecíveis. De 8 a 11 de dezembro, período em que o circo ficou no parque, o público era surpreendido antes mesmo de entrar na lona, local do espetáculo, com o Can Can Petit Volant, apresentado por André e Martin Sabatino, Cláudio Costa, Marcos Porto e Gianfranco di Sanzo. Vestidos como dançarinas eles provocavam o público em um trapézio e antecipavam as emoções que aguardavam os espectadores.

 

Can Can Petit Volant, dos Irmãos Sabatino, Marcos Porto e Gianfranco di Sanzo / Foto Paulo Barbuto

 

No segundo e último dia foi apresentado o Espetáculo de Variedades, que contou com a mestre especial de cerimônias, Denise Fraga. A atriz tem uma linda parceria com o Zanni, iniciada em 2005, quando gravou embaixo da nossa lona, seu programa de televisão, Retrato Falado.

 

Denise Fraga e Fernando Sampaio no picadeiro / Foto Georgia Branco

 

Após 11 anos, Denise voltou ao nosso picadeiro como mestre de cerimônias. Sua dedicação e respeito à arte circense são bonitos de se ver. Antes do início das noites de variedades, Denise podia ser vista fora da lona, pelos cantos, com os braços abertos ensaiando o texto que falaria para o público. Puro retrato de sua generosidade tão grande quanto seu talento.

 

Denise Fraga ensaia seu texto fora da lona do Zanni / Foto Asa Campos

 

No início do espetáculo, ela reviveu a clássica abertura criada para o nosso grupo por Domingos Montagner. Ele sempre pedia à plateia para fazer “cara de Circo Zanni, mãos de Circo Zanni”!

Centopeia vermelha

A seguir, a centopeia vermelha, formada pelas atrizes circenses vestidas com saias, foi acompanhada por liras, abriu o Espetáculo de Variedades.

 

Dani Rocha-Rosa / Foto Georgia Branco

 

EricaStoppel / Foto Georgia Branco

 

Maíra Campos / Foto Georgia Branco

 

Lu Menin / Foto Georgia Branco

 

Em seguida, foi a vez da poltrona acrobática que engole Nié (o artista Daniel Pedro).

 

Daniel Pedro e sua poltrona acrobática/Foto Georgia Branco

 

De um pulo para outro, o público se deparou com Monga, a mulher Gorila, papel de Fernando Sampaio, que contou ainda com o domador da besta-fera, “mais besta do que fera”, Filipe Bregantim. Na sexta-feira, foi a vez de Duba Becker apresentar seus chapéus voadores. Foi de tirar o chapéu – irrestível trocadilho.

 

Duba Becker o equilíbrio dos chapéus / Foto Asa Campos

 

Também foi a hora e a vez do Quick Change, feito por mim, Dani Rocha-Rosa e Bel Mucci. Nesse quadro, é feita a troca de roupa na frente do público entre o levantar e abaixar de um cone, como num passe de mágica. Foi também a noite em que Deco Sabatino usou seu trapézio para voar como passarinho no picadeiro.

 

Bel Mucci, Dani Rocha-Rosa e Lu Menin no Quick Change / Foto Asa Campos

 

A equilibrista Maíra Campos, andando por um fio, e o balé acrobático de Marina Bombachini e Carlos Cosmai, da Cia. da Mala, também estiveram presentes para encantamento do público.

 

Equilíbrio no fio de Maíra Campos / Foto Asa Campos

 

Maíra Campos na saída de seu número no arame / Foto Asa Campos

 

Marina Bombachini e Carlos Cosmai / Foto Georgia Branco

 

No domingo, o picadeiro recebeu os bonecos com cabeças gigantes e a Cia. Soma Dança, formada por Maria Eugênia Nobrega e Marina Abib.

 

Bonecos vivos com grandes cabeças conquistam crianças / Foto Georgia Branco

 

Branca de Neve e os 3 Anões, são três mesmo e não sete, com a participação de ‘voluntários’, não tão voluntários assim da plateia, arrancaram risadas do público. Deco Sabatino, Martin Sabatino e Gianfranco di Sanzo – os três aviadores do Vaiqueuvoo – a trupe da báscula, conduziram seu avião pelo picadeiro do Zanni.

 

Fernando Paz, o caçador, e Fernando Sampaio, a Branca de Neve / Foto Asa Campos

 

Nessas duas noites, também pode ser visto o bailado na corda indiana feito por nove meninas. Cinco atrizes do Zanni – Bel Mucci, Erica Stoppel, Maíra Campos, Luciana Lima e eu, Lu Menin, e quatro convidadas, Cassia Theobaldo, Dani Rocha, Dri Telg e Nat Presser.

 

Lu Lima no número da corda indiana / Foto Paulo Barbuto

 

Participantes do bailado da corda indiana / Foto Asa Campos

 

Foram noites deliciosas. Abrimos o picadeiro para queridos parceiros que fazem parte da história do circo paulistano. A lona do Zanni, no Parque do Povo, tem seu signos e significados históricos e emocionais. Foi ali que esteve instalado por anos o Circo Escola Picadeiro, escola circense em que Domingos (Montagner) e Fernando (Sampaio), entre outros artistas, aprenderam a arte de seduzir plateias. A temporada também teve toda uma simbologia. Aproveitamos para homenagear nosso amado e eterno mestre Montagner e celebrar o circo, a família e os encontros! Celebrar a arte como transformação, como capacidade de mudar energias e movimentar ondas e vibrações.

 

 

Denise Fraga encerrou as noites com um texto maravilhoso que Domingos ganhou de presente do ator Luís Gustavo – que se apaixonou pela história do palhaço que ganhou as telas da televisão. Seguem alguns trechos: 

“Eu não me desequilibro nunca. Eu brinco todas as noites com o desequilíbrio porque eu sou de circo. Eu brinco, eu sou palhaço. Eu brinco, eu danço, eu ondulo, eu brinco com as crianças. Eu quebro meu coração em direção ao risco porque eu sou de circo. Minha vida começou aqui nesse picadeiro e aqui ela não vai terminar nunca, porque ela é maior do que eu. Ela só não é maior do que o meu circo.” 

Fernando Sampaio com os toques nas garrafas e Marcelo Lujan com os sinos – tanto as garrafas quanto os sinos eram tocados por Domingos Montagner no Zanni – compuseram uma música carregada de poesia e saudade. E o vídeo com todo o elenco do espetáculo cantando “Tristeza, por favor, vá embora” finalizou a sensível homenagem ao mestre do picadeiro.  

“O espetáculo não para nunca. Tem sequência”. Domingos Montagner

 

 

Fernando Sampaio e a música tirada das garrafas / Foto Asa Campos

 

Marcelo Lujan, o maestro da banda do Zanni, e o som dos sinos / Foto Asa Campos

 

 

Postagem – Alyne Albuquerque

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