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O Macbeth dos palhaços da Cia. Vagalum Tum Tum

 

 

Montagem dirigida às crianças apresenta o lado engraçado da maldade e da desolação

Mônica Rodrigues da Costa

São tantas informações lidas e experimentadas na arte sobre as peças de William Shakespeare (1564-1616), desde teatro até filmes como o “Macbeth” de Orson Welles (1948) e o de Akira Kurosawa (“Throne of Blood”, de 1957), óperas e outras composições célebres, criadas por musicistas eruditos e seculares. Há ainda livros para crianças, animações da cultura de massa, sites de arte híbrida na web, poemas, romances, novelas, contos, que é preciso coragem para adaptar uma obra dramatúrgica do bardo inglês no teatro para crianças.

A Cia. Vagalum Tum Tum, de artistas palhaços, toma para si a tarefa de decodificar as tragédias paradigmáticas de Shakespeare para o público infantil: “Othelito” (“Othelo – O Mouro de Veneza”), “O Bobo do Rei” (“Rei Lear”), “O Príncipe da Dinamarca” (“Hamlet”) e agora, em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, “Bruxas da Escócia” (“Macbeth”).

A montagem atual transforma um valente guerreiro, fiel ao rei Duncan, casado com a distinta Lady Macbeth, em uma palhaçada de fazer rir e chorar adultos e crianças.

 

Os bravos guerreiros/ Foto Asa Campos

 

Propõe uma reflexão sobre a razão pela qual o inconsciente humano prega peças como se fosse o destino e deixa aflorar os desejos mais incontroláveis, superando tabus, desobedecendo aos modelos arquetípicos do ideal de humanidade.

Mordido pelo veneno da avidez e da usura, o protagonista, demasiadamente humano, mistura o bem e o mal, o sublime e o torpe, apressa-se em tornar real sua ambição de sucesso, riqueza e glória, movido por um lance clássico do acaso: ao regressar de uma batalha vitoriosa para a Escócia, Macbeth ouve a profecia de três bruxas, que lhe contam sobre o futuro – ele será rei. Só deixará de sê-lo a menos que a floresta caminhe até o palácio.

Da própria estrada onde se encontra, Macbeth escreve uma carta à mulher e relata o presságio premonitório. Ela sofre a mesma emoção do marido quando lê as adivinhações das feiticeiras.

 

A rainha e o rei com seus pirulitos/Foto Asa Campos

 

O rei Duncan condecora o seu melhor soldado e o visita de inesperado. O casal Macbeth trama e executa o assassinato. O novo governante se torna um déspota culpado, atormentado por fantasmas, perde o sono, nunca mais dorme e passa a ter terríveis alucinações. Como um serial killer, mata qualquer pessoa que ameace lhe subtrair o trono.

Lady Macbeth mantém as aparências no início, mas sucumbe ao toque, passa a limpar as mãos sujas de sangue, em gesto obsessivo, até o ponto de se suicidar.

O marido dela, cego às metáforas, surpreende-se quando a floresta chega a seu castelo e a profecia se realiza por completo. Foi rei e deixou de ser rei.

 

Os bravos guerreiros do rei /Foto Asa Campos

 

Angelo Brandini, palhaço dos doutores da Alegria desde 1994 e diretor da Vagalum Tum Tum, é o autor da dramaturgia e dirige a adaptação “Bruxas da Escócia”. A comédia apresenta a crueldade como um fato inverossímil, por isso o público se diverte. Ainda que fique uma sombra de dúvida nas sensações que provocam risadas nervosas na plateia.

A máquina mortífera do rei déspota, que proíbe o teatro à população e tira o pirulito das crianças, é uma catapulta que lança os mortos na tragédia para o espaço e os transforma em anjinhos angelicais que voam com asinhas para o céu, carregados pelos próprios atores que os interpretavam. Funciona como um truque de mágica, mais um número circense.

No ritmo do picadeiro, que entoa em coro “arroz, feijão, salada e macarrão”, as piadas se sucedem.

 

O forte pum faz fumaça no trono/ Foto Asa Campos

 

A esperta Lady Macbeth pensa enquanto tira das mãos a graxa da engenhoca assassina e o bobo do Macbeth ouve seus conselhos e parte para a ação. Macbeth (Tereza Gontijo) e Lady Macbeth (Christiane Galvan) representam com perfeição a dupla de palhaços do picadeiro.

As bruxas perambulam no palco, meio maltrapilhas, meio monstruosas em suas vestes cênicas. Assustam sem meter medo de verdade.

Os palhaços da corte (ou seja, os soldados) se dão encontrões, tapas e cutucadas de espadas de plástico ou de algum material inofensivo. Rolam no chão sem espirrar sangue.

 

As bruxas em cena/Foto Asa Campos

 

São divertidas e irônicas as atrapalhações de palhaços. O elenco sabe como contar uma história, bem encadeada, acerta nos signos da cultura erudita e da popular. Faz os sentimentos contraditórios conviverem.

O mal vira bem, e o bem, cruel. Os magníficos atores conquistam o público de imediato. Fingem até que é dor o riso que deveras sentem.

“Essa é a função do palhaço, sua forma de dizer o que não se pode dizer”, explica Brandini em entrevista após a estreia na capital paulista, em 19/7/14.

Teresa Gontijo explicou que, para fazer rir, “é preciso tirar um pouco do peso moral da história e se divertir mais com o vilão”.

 

Ficha técnica

Texto e direção: Angelo Brandini. Elenco: Anderson Spada, Christiane Galvan, Erickson Almeida, Layla Ruiz, Teresa Gontijo e Val Pires.Direção musical: Fernando Escrich. Figurinos: Christiane Galvan. Cenário: Bira Nogueira. Preparação corporal: Vivien Buckup.Iluminação: Wagner Freire. Assistente de produção: Melina Marchetti. Produção geral: Cia. Vagalum Tum Tum.

Serviço

“Bruxas da Escócia”: em cartaz no teatro do Sesc Pompeia até 28/9. Sábados e domingos, às 12h. Duração: 60 minutos.Recomendação: A partir dos sete anos. 300 lugares. Preço médio: de R$ 1,60 a R$ 8,00. Endereço: rua Clélia, 93, zona oeste de São Paulo. Tel.: 3871-7700.

 

*Mônica Rodrigues da Costa é jornalista, poeta e editora do selo Publifolhinha, da Publifolha.

 

 

 

Postagem – Alyne Albuquerque

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