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“O Mistério Bufo” satiriza desesperança

 

Elenco de "O Mistério Bufo"/Foto Divulgação

Kitsch e deboche prevalecem na visão desencantada pós-dilúvio e revolução

As cortinas de plástico cinza prateado como nos circos de lona se alternam com tecidos dourado e vermelho. Circula o palco ribalta com dobraduras de papelão,  pequenas esculturas de onde sai a luz. A iluminação das cenas também vem de cima e inclui o clássico foco redondo do teatro de revista.

Nessa moldura, sucedem-se os acontecimentos em “O Mistério Bufo”, montagem da cia. Academia de Palhaços para texto de Maiakóvski de 1918, reescrito/remontado em 1921.

O enredo mostra o dilúvio. Cinco atores se revezam na apresentação de 32 tipos humanos localizados no solo seco que ainda não foi inundado, em um dos polos. Une-os a construção de uma arca para que se salvem. Para isso, reproduzem a luta de classes e a mesquinhez prevalece.

“O Mistério Bufo” tem sequência de quadros lineares, interrompida com comentários satíricos. A trilha cria ambientes sonoros para os personagens, ajuda a narrar. Há ritmos de marchinha circense, música popular e fragmentos de música erudita.

Do lado esquerdo do palco, o pianista dedilha canções e composições do início ao fim da peça, de uma hora e meia de duração, exceto por um trecho orquestrado em playback.

As letras reforçam características das figuras, que entram e saem, como em musicais que fazem sucesso no Brasil desde a opereta-bufa do século 19, com Jacques Offenbach.

Contrariando o mito, na opereta “Orphée aux Enfers” (1858), por um golpe sujo, Orfeu olha para trás e perde Eurídice, conta Décio de Almeida Prado no livro “História Concisa do Teatro Brasileiro”.

“O Mistério Bufo” ressalta os estereótipos pela perspectiva do circo, com ingredientes de exagero, em piadas como essa pegadinha do Orfeu.

A peça alterna momentos cômicos com poucas cenas sérias – o discurso sobre a Terra Prometida e um poema recitado sobre a desesperança, recortada em notícias de jornal.

O chinês de fantasia, o alemão nazista, o judeu avaro, o africano selvagem e faminto, o norte-americano frívolo, o bom revolucionário são caricaturas que ressaltam aspectos negativos atribuídos a suas culturas. 

No centro do palco desce e sobe uma tela. Em uma das cenas exibidas, o presidente Obama (EUA) discursa sobre o futuro da humanidade no espaço.

Tudo é objeto de sarcasmo, nenhum tipo se destaca entre os outros, tal é a rapidez com que se apresentam, no ritmo da geração nascida sob o signo do excesso de informação, da fragmentação da identidade e ausência de ideologia.

As tintas de “O Mistério Bufo”, dirigido por Fernando Neves, pintam o grotesco expressionista nos quadros de mistérios, que se originam na Idade Média, e em figurinos de cancã.

Rendas negras com as plumas e a purpurina da revista e do circo, em que papeizinhos prateados explodem imitando a apoteose kitsch e barroca.

A poética específica do palhaço aparece em objetos de cena, na água borrifada para simular o frio polar; na interpretação da canção hit  “Summertime”; na brincadeira de mau gosto de roleta-russa feita pelo ditador alemão.

“O Mistério Bufo” brinca com a sexualidade da comédia baixa, presente em episódios burlescos históricos no Brasil, como “La vie Parisienne” (1866), com texto de Meilhac e Halévy e música de Offenbach, conforme Prado.

Dá o que pensar a exploração do palavreado juvenil, com exageros sem sentido gramatical, apenas para acompanhar o repertório de sua própria geração, como a frase de uma garota ao não ter conseguido ingresso para o show do cantor preferido no Ibirapuera: “Mas que puta falta de sacanagem!”.

Ficha técnica

Texto: Vladimir Maiakóvski. Tradução: Laíza Dantas. Direção: Fernando Neves. Elenco: Academia de Palhaços, com Breno Tavares, Bruno Spitaletti, Laíza Dantas, Paula Hemsi e Rodrigo Oliveiras. Músico: Marcelo Bonvicino (piano). Assistente de direção: Kátia Daher. Cenografia, visagismo e figurinos: Leopoldo Pacheco e Carol Badra. Direção das vozes: Vânia Pajares. Direção musical: Fernando Esteves. Inserções de vídeo e coordenação visual: Carlos Roncoleta. Produção: Carolina Vidotti.

Serviço

O espetáculo tem previsão de temporada na Galeria Olido, no centro de São Paulo, no final de agosto.

(Mônica Rodrigues da Costa)

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