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Os atores circenses Maíra Campos e Daniel Pedro são “Vizinhos”, em espetáculo a céu aberto, no Circo no Beco, na Vila Madalena

 

Cena da cabeça do bode de Vizinhos / Carlos Gueller

 

Mônica Rodrigues da Costa*

Há uma praça na Vila Madalena, em São Paulo (SP), cercada com tela de arame e plantas que se vê desde quase o início da rua Belmiro Braga. Ali garrafas coloridas voam no ar, lançadas por jovens jogando malabares. Tal paisagem propicia um intervalo na lenta fila dos automóveis. No chamado Beco do Aprendiz, no programa Circo no Beco, apresentou-se a dupla de atores Maíra Campos e Daniel Pedro no espetáculo “Vizinhos” em 27/5/2019.

Na praça do Beco, o palco tinha vários aparelhos de picadeiro para contar a história de “Vizinhos” (em cartaz desde 2015). Uma aramista e um acrobata encenam o dia a dia de um casal sem palavras. O diálogo que ocorre dá-se por olhares, acenos, exibições de equilíbrio, ginástica artística e acrobacias.

 

Equilíbrio na mesa de Vizinhos / Carlos Gueller

 

Uma casa a céu aberto se mistura aos carros do engarrafamento. O espaço é retangular e o ambiente, o de um lar com todos os cômodos e objetos, sala, poltrona, mesa, quarto, cama, prato e talher.

Em arranjos inusitados, todas as coisas ali funcionam para a gestalt do teatro: a comunicação de uma experiência com boas e bad trips. As cenas de amor são os números a dois, com perfeita integração na ginástica dos circenses. Os pés de Daniel Pedro são o suporte de Maíra para girar no ar, plantar bananeira, dar uma volta sobre si mesma. Então Maíra anda pela sala, observa Daniel Pedro fazendo algo, dobra um conjunto de roupa em cima da cama, arruma outra coisa.

A representação contém paradoxos, desafios a vencer, enfrentamentos, que se instilam como no macarrão da refeição engolido seco, na briga do casal ou em um salto transformador na báscula carregando para isso uma pesada mala, de chegada ou despedida.

 

Acrobacia em cima da mesa que desliza no espetáculo / Carlos Gueller

 

Os companheiros moram na mesma casa e realizam ações um em frente ao outro e um ao lado do outro. O elenco cumpre a sequência narrativa do cotidiano satirizado, ou mágico, e chama a atenção dos espectadores para seus aspectos emocionais. O óbvio e o erro postos em cheque como no circo, atrações desafiantes ao extremo, o equilíbrio paradoxal de dois seres antagônicos, mas que desejam se completar.

Cena a cena os vemos diante de nós lidando com raiva, ternura, amor, libido, contemplação, surpresa. A peça tem um final cheio de plumas, aberto e misterioso; o público completa a trama conforme sua imaginação.

Os atores se valem dos aparelhos do circo e da ginástica em dupla como ferramentas de narrar. A apresentação dos números não é a finalidade maior, embora tudo o que eles fazem no palco passe pelo filtro do circo, da diretora Lu Lopes, a palhaça Rubra.

Por exemplo, a personagem de Maíra Campos se torna pensativa e emotiva e traduz isso na caminhada no arame tenso.

No espetáculo há intervalos de mar à vista, bonança. A bailarina abstrai o que vive e sobe no arame. Pula, salta, gira, se pendura, fica de ponta-cabeça nos rearranjos das emoções em uma residência comum.

 

Personagem parece pássaro preso por um fio / Carlos Gueller

 

Dança como ninguém olhando para o ponto fixo do equilíbrio. O jogo de corpo no arame ladeado de plantas durante a caminhada no fio instável. Maíra brinca com a folhagem enquanto usa a aba de aramista para se equilibrar.

Entre as ações que a personagem realiza estão almoçar, escrever (provavelmente listas de mercado e consertos), dançar com um cabide de roupas e, como uma coelha fértil, avançar em sensualidade para o parceiro. A aramista exibe perfeita agilidade, veste-se e se despe no fio, troca de roupa, faz espacate de ponta-cabeça no arame tenso.

O personagem de Daniel Pedro é um mundo à parte. Concentra-se, por exemplo, em mostrar a proeza do equilíbrio, a partir de uma poltrona mágica, projetando o corpo no ar e fazendo-o girar e descer ao solo em cambalhota de salto mortal. 

Esse personagem habita todos os lugares da casa e recebe visitas de duas figuras vindas de outras galáxias – a literatura e o teatro grego antigo. O ginasta se assusta quando Maíra volta em uma das cenas com máscara de coelha, símbolo da multiplicação.

Maíra também veste para dançar a recriação de uma máscara de bode, usada em geral no teatro para simbolizar a oferenda do bode em sacrifício às celebrações a Dionísio. Tragédia em grego, pela etimologia, seria “canção ao bode”.

No final há uma surpreendente fala porque é a metáfora do clímax, sobre o amor em tempos fluidos, e que fala da relação aberta de Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986).

Tecidos gigantes esticados limitam os outros lados do palco ao ar livre. Os espectadores ficam em uma pequena arquibancada de cimento em frente ao palco de “Vizinhos”. Na noite de 27/5 eram perto de 100 pessoas. O espetáculo faz o público suspirar e temer, torcer e aplaudir. 

 

Ficha técnica

Direção: Lu Lopes. Elenco: Daniel Pedro e Maíra Campos. Cenografia: Flavia Mielnik. Figurino: Maíra Campos. Iluminação e som: Paulo Souza. Trilha sonora: Daniel Pedro, Maíra Campos e Lu Lopes. Produção: Marina Felipe Ferreira.

 

*Mônica Rodrigues da Costa é crítica de teatro do Guia da Folha de S. Paulo, professora doutora e poeta.

 

 

Veja abaixo ensaio fotográfico de Carlos Gueller, especial para Panis & Circus 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                

 

 

Circo contemporâneo

“Vizinhos” é contemporâneo porque trabalha com os recursos que respondem às propostas no teatro circo, que em parte se volta para a atração de risco e equilíbrio e em outra segue o fio narrativo do cotidiano de um casal. 

No circo teatro a narrativa sai do picadeiro de lona e arquibancada e percorre o caminho do teatro e da performance.

Além de “Vizinhos” (2015), a Cia. Artinerant’s fez “Balbúrdia” (2017) e vai estrear o espetáculo “Cachimônia”, também com direção de Lu Lopes, e oficinas com o ator, diretor e palhaço argentino Tato Villanueva.

Maíra Campos define a montagem como “um delírio onírico para completar uma trilogia com os dois anteriores”. A Cia. Artinerant’s foi criada em 2013 por Daniel Pedro e Maíra Campos, que trabalham juntos desde 2003 no Circo Zanni.

 

Coletivo de circo

O espetáculo “Vizinhos” (2014) recebeu apoio do Proac e foi apresentado em 27/5/2019 como evento do coletivo Circo no Beco, na praça do Beco, em Vila Madalena, capital paulista (rua Belmiro Braga, 31).

Conforme Lúcio Maia, integrante do coletivo, faz 16 anos que a minipraça recebe eventos culturais. Maia conta que há vários coletivos na praça e que toda segunda e sábado tem evento de circo no Beco do Aprendiz, seu outro nome, porque antes dos eventos culturais a praça acolhia o Projeto Aprendiz, dedicado a crianças e adolescentes em situação de rua.

Agora é uma espécie de resistência cultural não comercial. Em 15/6 a praça vai comemorar o Dia Internacional de Malabares com evento interligado entre vários países.

 

 

Clique nos títulos abaixo para ler mais sobre os espetáculos da Cia. Artinerant’s:

“Vizinhos” e “Balbúrdia” – aplausos ao público.

 

“Vizinhos”: Imagens surreais e impactantes.

 

Com acrobacia e afeto

 

Comentário de Beth Néspoli

 

 

Foto de Capa – Maíra Campos e Daniel Pedro em Vizinhos, no Circo no Beco / Carlos Gueller

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