Pé na Estrada

Pagliacci e Rei da Vela: requinte artístico do palhaço

 

Boneco de Piolin, criado pelo artista Ricardo Costa / Foto Asa Campos

 

Luciana Gandelini, especial para Panis & Circus

Dois espetáculos são bem representativos da atual cena circense: Pagliaci, do Grupo La Mínima, uma adaptação de Luís Abreu para a ópera de Leoncavallo e o Rei da Vela, de Oswald de Andrade, do Grupo Parlapatões, Patifes e Paspalhões. A análise é de Verônica Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo, ao Panis & Circus.   

Pagliacci virou filme, em cartaz no Cine Belas Artes, e relata a montagem da peça teatral e a trajetória da cia. La Mínima, criado por Domingos Montagner e Fernando Sampaio, que completa 20 anos de estrada.

A montagem do Rei da Vela, de Hugo Possolo, dos Parlapatões, em cartaz até 6/5 no Sesc Santana, reforça a referência feita a Piolin por Oswald de Andrade, autor da peça teatral— o palhaço foi modelo de atuação para os modernistas. 

“É muito significativo que dois grupos, cujos integrantes são oriundos de uma escola de circo, no caso a Escola Picadeiro, e cuja atuação é calcada na atuação do palhaço, tenham chegado a um requinte artístico e técnico para produzir obras tão sofisticadas como Pagliacci e Rei da Vela”, acrescenta Verônica Tamaoki, durante Cortejo que reuniu artistas circenses e de teatro para comemorar Piolin e o Dia do Circo.

 

Fernando Sampaio, de chapéu vermelho, no Cortejo do Dia do Circo/Asa Campos

 

“Um dos méritos do Cortejo foi o de afirmar a presença do circo no Largo Paissandu e o de exaltar a memória do palhaço Piolin, resgatando não só a memória do artista, mas a nossa história, que ainda é bastante desconhecida. O Cortejo também foi um espetáculo de intervenção urbana. Essa ação pode muito bem ser incorporada ao calendário da cidade”, afirma Verônica Tamaoki. 

 

Verônica Tamaoki, na Galeria Olido, sede do Centro de Memória do Circo/ Foto Asa Campos

 

 

Festivais internacionais mostram a força do circo

Em sua programação da data histórica, 27 de março, o Centro de Memória do Circo, reuniu especialistas e artistas para avaliar a importância dos eventos circenses para a população da cidade. Três festivais internacionais mostram a força e o apelo dessa arte junto à população paulistana. São eles: o Festival Internacional Sesc de Circo, o Festival Internacional de Circo (FIC) e o 1st Cirque International Festival of Brazil Contest.

Como parte da programação criada pela equipe do Centro de Memória – Roberta Castro, Paula Torrecilha, Paola Forlani Orfei e Camila Montefusco -, após os debates, os participantes iniciaram um Cortejo que, de forma poética, homenageou um dos nomes mais importantes do circo no Brasil, o do palhaço Piolin (1897-1973), representado por um boneco de 5 metros de altura, criado pelo artista plástico Ricardo Costa

 

Aquecimento coletivo na Galeria Olido / Foto Asa Campos

 

O aquecimento coletivo começou na sede do Centro de Memória do Circo, na Galeria Olido, e ganhou as ruas e o Largo Paissandu, local que no século passado abrigava as manifestações circenses, onde Piolin costumeiramente se apresentava e onde foi descoberto pelo movimento modernista. A responsável pela direção cênica do evento, que contou também com malabaristas e acrobatas, entre outros, foi a atriz e coreógrafa Helena Figueira.

 

Artistas sem fronteira

Manifesto da Palhaçaria no Cortejo / Foto Asa Campos

 

Artistas que ‘beberam’ na fonte circense, como o modernista Oswald de Andrade, interpretado por Marcelo Drummond, Mário de Andrade, por Guilherme Calzavara, Menotti Dell Pichia, interpretado por Carolina Castanho, Tarsila do Amaral e Lina Bo Bardi foram homenageados durante o Cortejo.

 

Mário de Andrade (Guilherme Calzavara); ao fundo retrato de Piolin/ Foto Asa Campos

 

Membros do Teatro Oficina cantaram músicas indígenas de Heitor Villa-Lobos, sob a regência de Felipe Botelho. Foram incluídos no espetáculo de rua, entre outros, textos da década de 20, de Mário e Oswald de Andrade, de Menotti Dell Pichia, e o Manifesto Palhaçaria Geral, de Hugo Possolo, escrito em 2004.

 

Fernando Paz lembra o Piolin dos modernistas / Foto Asa Campos

 

De acordo com Verônica, não foi a primeira manifestação a juntar artistas de teatro e circo. “A junção do circo com o teatro já havia sido feita em 2015, quando fomos ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) buscar os figurinos que Piolin havia deixado em 1972”, explicou. Clique aqui para ler a reportagem do Panis & Circus: Piolin volta para o Centro.

 

Modernistas homenageiam a palhaçaria de Piolin / Foto Asa Campos

 

A velha guarda do circo foi representada por Amercy Marrocos, Tania Fabri, Bruno Edson, Rokan e Rany, Tabajara Pimenta e Marília Pereira, entre outros. As mulheres também marcaram presença. Palhaças, acrobatas, equilibristas, musicistas, como Andrea Macera, Luciana Viacava, Mafê Vieira, Julia Barnabé, Gabi Sigaud Winter, entre outras.

 

Bruno Edson, equilibrista, e da ‘velha’ guarda / Foto Asa Campos

 

O entusiasmo das pessoas que acompanharam o Cortejo pode ser exemplificado nas palavras da dona de casa Eleonora da Silva, de 63 anos: “Eu amo palhaço. O circo é mágico. O Piolin foi aqui do Paissandu, sabia? No meio de tanta coisa ruim, veja só que maravilha o que esses artistas criaram na rua. Os palhaços são imortais”, disse ao Panis.

Helena Santos, recepcionista de uma empresa próxima do Paissandu também aproveitou para assistir o Cortejo. “Quando você vê artistas se apresentando na rua, a sua rotina muda, né? Melhora o nosso dia. Cortejo lindo, me faz lembrar de quando eu era criança e ia ao circo”.

 

Placa sobre Piolin no Largo Paissandu / Foto Asa Campos

 

Sapatos da palhaça na festa para Piolin / Foto Asa Campos

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