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Peter Szondi explica crise do drama moderno

 

 

Hedevig Altenburg, avó de Ibsen, que tem o mesmo nome da personagem Hedvig, do dramaturgo, na peça “O Pato Selvagem”

 
 

 

“Teoria do Drama Moderno” trata de 11 dramaturgos e um encenador

O livro “Teoria do Drama Moderno – 1880-1950”, do húngaro Peter Szondi (1929-1971), foi lançado pela Cosac Naify (SP) em 2011, em segunda edição, com tradução de Raquel Imanishi Rodrigues.

Szondi tem ainda traduzidos no Brasil “Ensaio sobre o Trágico” (Jorge Zahar, 2004) e “Teoria do Drama Burguês – século XVIII” (Cosac Naify, 2004).

“Em Teoria do Drama Moderno”, Szondi seleciona peças-chaves de 11 dramaturgos e um encenador e explica o que é a crise do drama moderno.

É notável de fato, como consta na orelha do livro, a clareza com que o autor explica como a passagem do tempo histórico modifica a forma dramática, constituída a partir do modelo de Platão e Aristóteles.

O livro destina-se a quem deseja ler os signos do teatro, a história deles e como se modificam seus parâmetros no atravessar dos séculos.

A apresentação, igualmente esclarecedora, de José Antônio Pasta Júnior, sintetiza e demonstra a trajetória do conceito de drama, desde Aristóteles e Platão até o período entre 1885 e 1950, que abrange as peças de teatro escolhidas por Szondi para comentar nessa obra.

Ao contrário do que pode se pensar, Antônio Pasta Jr. chama a atenção para a perspectiva não histórica adotada por Szondi. Consta também na orelha do livro que a história para Szondi é um tipo especial de relógio para marcar as análises dos conceitos de drama e dramaturgia: “A história aqui não é sucessão cronológica das obras, nem contexto externo à forma dramática, mas sobretudo dialética em que sociedade e forma dramática interagem”.

Pasta Jr. destaca que Szondi compara o conceito de drama adotado pelos autores das obras que estuda com o conceito de drama moderno, burguês, que teve sua origem no Renascimento.

Desse modo, Szondi revela as rupturas com o modelo de drama dialogado, em que não existe passado, apenas uma sucessão de presentes apresentados no palco diante do espectador.

O estudioso analisa aspectos das obras dos dramaturgos escolhidos e os compara com as noções clássica e moderna do gênero drama, bem como com tragédias gregas, apontando as diferenças entre construções da literatura teatral.

José Antônio Pasta Jr. afirma que Bertolt Brecht Bert (1898-1956), como divisor de águas ao inventar o procedimento e o conceito de distanciamento, oferece o problema central da reflexão de Szondi e faz o pesquisador partir para o exame do passado em busca de responder às principais questões do livro: onde algo se rompeu e provocou a crise do drama, transformando-o? Como isso se deu?

Para usufruir desse livro, é preciso conhecer a forma constitutiva do teatro, que se distingue da literatura, mas compartilha com ela a categoria de três gêneros clássicos da expressão verbal – a épica, a lírica e a dramática.

De onde Szondi parte? Da filosofia da história formulada por Walter Benjamin (1892-1940); de Adorno (1903-1969); de A teoria do romance, de Georg Lukács (1885-1971), da concepção de teatro de Goethe (1749-1832) e Schiller (1759-1805); da filosofia, especialmente, de Kant (1724-1804) e Hegel (1770-1831).

Para demonstrar que o gênero drama entra em crise, Szondi coloca o conceito em relação dialética, ou em oposição dinâmica, diante da história e da teoria consagrada do drama. Examina as noções de forma e conteúdo, que se tornam dinâmicas e mutáveis face à história. Por essa razão o modelo de drama muda e o gênero entra em crise.

“A dialética forma-conteúdo passa a ser vista como dialética entre enunciados de conteúdo e enunciados formais. Com isso, porém, já está dada a possibilidade de ambos entrarem em contradição.”

Para Szondi, a crise do drama é expressa por autores como Ibsen, Tchekhov, Strindberg, Maeterlinck, Hauptmann.

Depois, ele explica no livro que há uma transição em que ocorrem tentativas de salvação, com o drama naturalista, a peça de conversação e, na sequência, tentativas de resolução da crise do drama. Estuda obras de Brecht, Bruckner, O’Neill, Wilder, Arthur Miller, entre outros, e o encenador Piscator.

O que é a crise do drama, que caracteriza o teatro moderno? Em síntese é a intromissão dos gêneros lírico e épico no modelo do drama, que tem no diálogo e na representação do tempo presente as características fundamentais.

Na “Introdução”, Szondi afirma que essa intrusão não é nova e Aristóteles já orientava que os dramaturgos de sua época a evitassem e obedecessem à lei da forma dramática, que “desconhece a história e a dialética entre forma e conteúdo”. A obra dramática, vista de modo dinâmico (e dialético), “ganha realidade quando se une a uma matéria escolhida em sua função”.

Nesse ponto, Szondi examina as obras para exemplificar a interpenetração de gêneros, que faz com que o drama abandone o modelo fixado.

Szondi escreveu: “O ponto de partida terminológico se restringe, assim, ao conceito de drama. Como conceito histórico, ele dá conta de um fenômeno da história literária: o drama que surge na Inglaterra elisabetana ganha corpo sobretudo na França seiscentista e se mantém vivo no classicismo alemão. Uma vez que ele evidencia o que se sedimenta na forma dramática como enunciado sobre a existência humana, ele legitima um fenômeno da história literária como documento da história da humanidade. Cabe ao conceito descobrir nas exigências técnicas do drama o reflexo de exigências existenciais; a totalidade por ele projetada não é de natureza sistemática, antes, histórico-filosófica. A história, proscrita, se encerrou nos abismos que separam as formas poéticas e só a reflexão sobre ela pode alçar pontes capazes de transpô-los”.

Em outras palavras, isso quer dizer que cada autor interfere no modelo a seu modo e de acordo com sua época, fazendo o conceito de drama constantemente ser colocado em cheque.

Para Szondi, dramaturgia é tudo o que é escrito para o palco e drama se torna uma “determinada forma de literatura teatral”. Exclui os dramas sacros da Idade Média, as peças históricas de Shakespeare e a tragédia grega.

O autor ainda examina as relações do drama com o contexto, o tempo, o espaço, o espectador, a forma do palco que o comporta, o argumento, a situação, a construção dos personagens. Drama é diálogo e ação.

Quando entra em crise, significa que mudou algo em seu eterno presente. Szondi toma como exemplos, na primeira parte do livro, mudanças ocorridas no conceito a partir de obras de cinco dramaturgos: Ibsen, Tchekhov, Strindberg, Maeterlinck e Hauptmann.

 

Alan Rickman, Lindsay Duncan e Fiona Shaw na peça de Ibsen “John Gabriel Borkman na Academia de Música do Brooklin (BAM/ Foto de Richard Termine, do site http://twi-ny.com/blog/tag/brooklyn-academy-of-music/page/2/)

 

Ruptura com a noção de drama, por Ibsen

Em Henrik Ibsen (1828-1906), a crise histórica do drama revela-se na peça “John Gabriel Borkman” (1896), por exemplo, segundo Peter Szondi.

 

Livro tem tradução para o português, pela Editora 34

  “João Gabriel Borkman” em português (Editora 34), em http://www.editora34.com.br/areas.asp

 

O enredo enquadra uma noite de inverno na residência dos Rentheim. O ex-diretor de banco Borkman, após oito anos de prisão por roubo na instituição, vive há quase uma década com a mulher, Gunhild, sem se falarem. Ele fica no salão de gala e a mulher, na sala de estar do andar inferior.

O casal recebe a visita da irmã de Gunhild, Ella Rentheim, que aluga a propriedade a eles. Os três conversam, e o espectador passa a conhecer o passado dos personagens.

Szondi descreve a trama de um passado que assombra o trio, movido pelo trauma de amor triangular: Borkman amava Ellen, mas o dono do banco onde trabalhava, o advogado Hinkel, gostava também de Ellen. Para crescer na profissão, Borkman deixa o caminho livre para Hinkel e Ellen e se casa com Gunhild, a irmã dela.

Os dois têm um filho, que é motivo de disputa entre as duas, mas ele as abandonou para ficar com a mulher amada.

Em sua análise, Szondi interpreta que o presente é pretexto para evocação do passado e conclui que a situação “denega-se ao presente dramático, pois só algo temporal e não o próprio tempo pode se presentificar no sentido da atualização dramática. No drama isso apenas pode ser objeto de um relato; sua representação direta só é passível de ser feita numa forma artística que, como mostrou Lúkacs, o acolhe na série de seus princípios constitutivos: o romance”.

Essa situação da peça de Ibsen foge ao âmbito do drama, gênero em que fatos passados não têm capacidade de provocar mudanças, mas, no caso dessa peça, são eles que movem as ações [ou inações] dos personagens.

Escreveu Szondi sobre a peça “John Gabriel Borkman”: “A verdade mora na interioridade. Nela repousam os motivos das decisões tomadas, nela se esconde seu efeito traumático, que sobrevive a toda mudança externa. É também nesse sentido tópico [de espaço e de situação, ou assunto], e não só temporal, que a temática de Ibsen se furta ao tipo de presente exigido pelo drama. Se é certo que ela nasce inteiramente da relação inter-humana, ela só se sente em casa, como seu reflexo, no mais íntimo de seres isolados e estranhos uns aos outros. Isso significa que sequer é possível sua direta representação dramática”.

O livro “Teoria do Drama Moderno” traz análises ricas e oferece ferramentas para a compreensão do teatro com que todos nós nos divertimos e aprendemos.

(Mônica Rodrigues da Costa)

 

Link para a editora Cosac Naify:

http://editora.cosacnaify.com.br/Loja/PaginaLivro/11548/Teoria-do-drama-moderno-[1880-1950].aspx

 

Links para cenas da peça “John Gabriel Borkman” em filmes

http://www.youtube.com/watch?v=CyDeWlUw-90

 

http://www.youtube.com/watch?v=ppV0GvFiOYw

 

 

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