Arte em Movimento

“Retumbantes” constrói circo sonoro

Retumbantes: quatro seres em busca de seu lugar no mundo/Foto Tiago Lima

Mônica Rodrigues da Costa*

O circense “Retumbantes”, homônimo ao nome da companhia, exemplifica a fusão possível de circo, música, poesia, artes plásticas e dança. O espetáculo encerrou em 4/9/2021 o Festival Internacional Sesc de Circo. Versa sobre quatro seres que procuram seu lugar no mundo. Evocando o nonsense a la Lewis Carroll (1832-1898) do País das Maravilhas e as artes de vanguarda, o trabalho musical toma à frente nesta performance multiartística. Sua live ao vivo foi apresentada do Sesc Santo André (SP).

Agora “Retumbantes” está disponível no site do festival do Sesc.

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Irmãs siamesas e a sanfona / Foto Tiago Lima

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Os atores cantam, dançam, fazem jogos de facas e malabarismo, equilíbrio de bolas, monociclo e números de mágica. Giram sem parar, o que dá a entender que cumprem a metáfora de procurar por algo precioso. Como define Livia Nestrovski, cantora e atriz no espetáculo, interpretam seres ressoantes, retumbantes.

Todos os números que o elenco apresenta estão atrelados à sua capacidade de mudar de funções os objetos e seres do mundo, transformando personagens em instrumentos musicais ou em figurinos deixando expostas as poéticas das linguagens da arte. Também exploram excentricidade e ironia, humor e lirismo.

Os instrumentos são reais e inventados e com o elenco compõem uma sinfonia que inclui duas vozes femininas. Os personagens constroem imagens originais, com alusões, evocações e hibridismo multirreferencial, de atrações do picadeiro e composições musicais, entre outros.

A música erudita, a popular e a poesia ultrapassam a barreira das formas estéticas fixas e o elenco entoa no palco tendo apenas a luz como cenografia. Alguns efeitos visuais nascem do chão, como para lembrar o círculo do picadeiro, por onde se movimentam um homem que perdeu a cabeça (Tomás Oliveira), um Homematopeia beat-boxer malabarista, faquir e atirador de facas (Rafé) e duas irmãs siamesas – Lívia Mattos, que também concebeu e dirigiu “Retumbantes”, e a cantora e atriz Livia Nestrovski.

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Espetáculo une circo e música / Foto Tiago Lima

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O enredo evoca a peça “Seis Personagens à Procura de Autor”, do dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936), que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1934. Trata-se de procedimentos similares de humorismos, como existir um homem que sem cabeça ou um homem-som. As siamesas ora se fundem em uma só figura, ora se desdobram, por exemplo, como as partes de um monociclo.

A principal ferramenta delas é a voz. Suas vozes são límpidas e afinadas. Executam canções com letras que mais parecem poemas pelo que destoam do lugar-comum e composições em que somente cantarolam melodias sem palavras como se estivessem em uma apresentação de ópera ou em um alegro. Livia diz nas letras de canções que canta para não chorar, momento em que o espetáculo enfatiza a melancolia lírica.

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Cena de Retumbantes / Foto Tiago Lima

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As atrizes se vestem iguais com uma indumentária que combina o visual do bobo da corte, do bufão e do arlequim das artes medievais. Livia Nestrovski é autora de composições da peça, em parceria com o também o musicista Arthur Nestrovski, pai dela na vida real.

Há obras instrumentais e canções autorais da trupe e composições de Hermeto Pascoal e Capiba, entre outras. São executadas com voz, instrumentos tradicionais, como a sanfona, e excêntricos, caso do serrote, do piano de taças de vidro e do contrabanjo (espécie de contrabaixo).

Os compositores se referem a obras como as do álbum “Sarabanda”, de Livia Nestrovski e Arthur, que faz alusão à obra “Sarabande”, de Johann Sebastian Bach (1685-1750). O show ainda traz versões de Arthur para canções de amor eruditas.

Arthur é diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e diretor artístico do Festival de Inverno de Campos do Jordão.

O canto das irmãs siamesas ocorre durante dos 53 minutos do espetáculo, acompanhadas de músicos com figurinos misturados que parecem que andam sozinhos e executam instrumentos excêntricos como o piano de taças com água.

O Homematopeia faz malabarismo com bolas e troca de chapéus. Toca também com o próprio corpo com os tapas sonoros de beat-box.

Nesse circo sonoro, há características do surrealismo e ao mesmo tempo de metalinguagem. O show se organiza em forma de poética, metafórica e de justaposições.

As letras das canções de Lívia e Arthur Nestrovski são compostas de imagens inéditas no cancioneiro popular, que se misturam com canções de amor históricas e exploram  a música experimental.

No final do espetáculo os atores fazem um número de sapateado na plateia vazia e nos conduzem pelos bastidores do teatro até o jardim do Sesc Santo André.

FICHA TÉCNICA
Direção artística, direção musical e elenco: Lívia Mattos
Elenco: Livia Nestrovski, Rafé e Tomás Oliveira
Iluminação: Marisa Bentivegna
Assistente técnico: Thiago Zanota
Consultoria mágica: Ricardo Malerbi
Produção: Sanfonástica Produções

Recomendação etária: 12 anos

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