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Rosa Pequena fala da Vida do Circo de uma criança

Erica Stoppel e a boneca Rosa Pequena / Foto Carlos Gueller 

Mônica Rodrigues da Costa*

“Rosa Pequena, Vida de Circo” conta com teatro de bonecos e de sombras a história de Rosa, menina que mora em um trailer e passa a vida em viagem com os pais pelo interior do Brasil e pelas periferias das capitais, onde em geral há espaço para as famílias de circenses armarem seus picadeiros de lona.

A família de Rosa ganha a vida exibindo habilidades físicas no picadeiro. Enquanto isso a garota cresce.

A garota tem um sonho: voar no trapézio. Como não há diálogos, sabemos disso porque vemos a personagem se ejetar nos ares, cair e repetir a ação de novo e de novo até aprender.

Os personagens do circo são apresentados em números realizados pelos bonecos e em forma de teatro de sombras. Entram em cena o ilusionista, a bailarina, a equilibrista de bambolês. Rosa tem uma boneca grande, de vestir, e outra em miniatura, forma em que exibe o número de equilíbrio no arame.

A boneca Rosa ensaia voos no trapézio / Foto Carlos Gueller

O cenário é duplicado, um pequeno, outro grande, ao mesmo tempo semelhantes e opostos. Na cenografia há um pequeno picadeiro que serve de fundo às ações e funciona como tela para a parte encenada com luz e sombras.

O jogo especular provoca polissemia de significados e reforça a fantasia e o sonho, como o outro lado do espelho onde viveu a personagem Alice, de Lewis Carroll.

Rosa tem uma galinha chamada Judith e brinca de ilusionismo com ela. Os mesmos bonecos, que já são o duplo do ator no espetáculo, aparecem nas duas realidades espaço-temporais, a mesma história é contada nos dois reinos (acima) da imaginação.

Boneca Rosa Pequena e suas manipuladoras / Foto Carlos Gueller 

As manipuladoras são Mariana Brum e Erica Stoppel e Luara Bolandini, dupla que concebeu o espetáculo a partir da idealização geral de Erica, trapezista e equilibrista do Circo Zanni, de cuja lona é artista sócia.

Bruno Rudolf, da premiada Cia. Solas de Vento, dirigiu a montagem, que não tem diálogos ou qualquer tipo de expressão verbal, toda a comunicação se dá pelo modo como as atrizes manipulam sombras, bonecos e objetos. Movimento e cenário ajudam a completar a narrativa.

Tudo na peça evoca o circo histórico, desde a gangorra das brincadeiras de Rosa até o gênero de espetáculo. Qual é a razão de, por exemplo, o bicho de estimação de Rosa ser uma galinha em vez de um gato?

Rosa e seu bicho de estimação: uma galinha / Foto Carlos Gueller

Provavelmente porque a trupe familiar e agregados artistas apresentam algumas atrações com galinhas, como podiam ser vistas nas lonas pequenas e nos circos conhecidos como pano de roda no interior do Brasil ainda nos anos 90.

Ou então a galinha pode pertencer ao ambiente privado da trupe, que em geral levava essa ave poedeira em trailers que transportavam os animais, a serem exibidos, em suas caravanas.

A boneca da protagonista é vestida por Erica e quase do tamanho da atriz. A circense interpreta a garota Rosa, que aprende a voar, alcançando seu sonho, e participa de um final surpreendente.

Erica e Dani com Rosa Pequena e o circo feito para ela / Foto Asa Campos 

A iluminação deixa à vista os manipuladores, que por isso em muitas cenas se confundem com os personagens que interpretam. As atrizes vestem o mesmo modelo e de cor de vestidos, sendo que a camada externa da roupa é feita em tecido claro e transparente, o que evoca a substância volátil do universo onírico.

O espetáculo flui e, como não tem palavras, parece que as peripécias deslizam na memória que cada espectador tem do circo da infância.

Rosa vê de seu trailer a sombra do equilibrista no circo / Foto Asa Campos

Ficha técnica

Concepção geral: Erica Stoppel. Direção: Bruno Rudolf. Criação e interpretação: Erica Stoppel e Luara Bolandini. Intérprete convidada: Mariana Brum. Co criação de dramaturgia e assessoria em linguagem de animação e teatro de sombras: Luiz Andre Cherubini. Direção de arte: Dani Garcia. Criação de trilha sonora: Rodrigo Zanettini e Vinicius Politano. Trilha sonora: Felipe Chacon (clarinete e clarone), Gabriel Eleutério (violino), Gabriel Parreira (cello), Maia Rocha Lujan (voz), Marcelo Lujan (trompete), Renato Farias (trombone), Rodrigo Zanettini (piano), Simone Julian (flautas), Vinicius Politano (violão). Composição da canção: Felipe Chacon e Erica Stoppel. Gravação, mixagem e master: João Candau. Estúdio: Colméia. Desenho de luz: Domingos Quintiliano. Colaboração na criação de dramaturgia: Vera Abbud e Nereu Afonso. Orientação para criação de bonecos: Luiz André Cherubini. Escultura e confecção da Rosa: Mandy. Miniatura da Rosa: Augusto Junqueira. Concepção de cenário e estruturas: Erica Stoppel e Paulo Sérgio Salzano. Adereços: Jay Oliveira e Dodô Giovanetti. Operação de som: Martim Gueller. Operação de luz: Afonso Costa e Ian Bessa. Montagem de luz: Robson Bessa. Produção geral: Lu Gualda/ Palco de Papel. Espetáculo da nova Companhia das Rosas, fundada por Erica Stoppel.

A sonhadora Rosa Pequena em seu trailer / Foto Asa Campos

Serviço

Esse domingo 15/12, às 14h, no Teatro do Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana) é o último dia para ver Rosa Pequena, Vida de Circo, em 2019. O espetáculo volta a ficar em cartaz o ano que vem. 

Classificação: Livre. Duração: 45 minutos. Ingressos:

Ingressos: R$17,00 (inteira), R$8,50 (meia), R$5,00 (credencial plena) e gratuitos para crianças até 12 anos. Capacidade: 291 lugares.

Legenda foto de capa – Rosa Pequena e seu trailer / Foto Carlos Gueller 

*Mônica Rodrigues da Costa é crítica de teatro do “Guia da Folha de S. Paulo” e deste site, professora doutora e poeta.

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