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Acrobacia na composição da Canção do Medo

 

 

Mônica Rodrigues da Costa*

O espetáculo franco-belga “Strach, a Fear of Song” (“Strach, uma Canção do Medo”) representa a arte do picadeiro e trata de traumas advindos de tragédias. Ao ver “Strach, participamos do sonho acordada de uma acrobata e vemos as imagens nele presentes.

O espetáculo ocorreu em 19/6 fora do palco, no plano da plateia, na sala de espetáculos II do Sesc Belenzinho, cercado pelas pessoas e pelo conjunto musical em um dos lados, no festival CIRCOS, do Sesc (leia abaixo).

A ameaça e o risco predominam em “Strach, a Fear of Song”, que usa coreografia, canto lírico e técnicas do circo com quedas e saltos perigosos para compor a narrativa do medo, com pouquíssimas palavras.

A protagonista é quem mais cai e se lança ao ar nas ginásticas de solo e se equilibra no corpo dos atores. Em algumas cenas canta enquanto atua. Há vários momentos de expectativa diante dos números aéreos que provocam suspense.

 

 

Nas cenas iniciais a atriz fica de pé sobre as mãos do portô (aquele que ajuda no número do volante) ao lado de um ginasta e segura um travesseiro. Eles deitam-na, saem e voltam assoviando, vestem máscaras de lobo e procuram acordá-la, é um tormento, e ela cede.

Carregam-na às costas perto do público com rosnados, grunhidos. A cantora se cala. O ambiente do espetáculo é de penumbra. Lobos atacam e o sonho vira pesadelo em plena realidade da encenação.

O lirismo nostálgico da cantora soprano se opunha aos dentes em posição agressiva das máscaras dos atores quando se enfrentam.

 

Pesadelo infantil ancorado no temor do lobo / Asa Campos

 

Lutas. Saltos, solavancos e quedas. Um a joga para o outro. Assovios e xilofone suaves. A luta paulatinamente muda para a apresentação da ginástica acrobática e o enredo fica solto, fragmentário. Os cães ferozes dos campos de extermínio. Os corpos se amontoam, depois se largam e a protagonista gargalha. Acordou?

 

Ator carrega foice que simboliza a morte / Laure Villain

 

O canto lírico da soprano retorna, acompanhado do teclado. Um ator entra com uma ferramenta, meio que ataca a plateia, testemunha e participante, no limite do palco.

 Entra ainda um ator com a foice e fica de pé no alto sobre o ombro do colega, e ouvimos gargalhadas da atriz. Todos olham muito para o alto. Ela fala consigo mesma coisas e situações que assustam, faz umas poucas perguntas ao público, se entende o que ela fala.

A voz lírica quase se transforma em sacra, atinge os céus. São frases cantadas da ópera. Os números se sucedem. Revelam a violência mas são leves nessa coreografia do embate. Cambalhotas. Parada de mão em cima do ombro do portô, ela protegida e segura pelas mãos do antagonista.

Há evoluções da ginástica de dois, então de três. Eles vão e vêm como pêndulos ao som do teclado e instrumentos de percussão.

Chega a vez da execução de “Dance Me to The End of Love”, arrebatadora. A cantora se ampara nos atores e nos espectadores, sempre no limite entre aquele que vê e o autor da ação, e canta a canção de forma antológica, circulando no espaço cênico, que é o palco no centro.

A composição é de Leonard Cohen, do álbum “Various Positions” (1984).

 

Cantora se ampara nos artistas…

 

E na plateia / Fotos Asa Campos

 

Em magras palavras a atriz do trio fala que tem sonhos e pesadelos. A ginasta bailarina se lembra dos receios infantis, brinca com luzinhas que acendem e apagam como se fossem mágicas feitas por rápidos truques de ilusionismo, as mesmas luzes que os pais deixam no quarto dos filhos pequenos quando eles temem o escuro.

O ritmo do sentimento é revelado nas cenas de risco. Ela diz e vive coisas angustiantes, mas paradoxalmente voa como num sonho bom.

Atira-se do alto e os acrobatas a aparam, fazendo o papel dos clássicos portôs do picadeiro, e a amparam após saltos mortais e posições insólitas, de lado, encolhida, na cacunda, entre outras.

Os desafios físicos crescem, assim como o canto toma conta do ambiente. É da outra personagem feminina, a cantora soprano Julie Calbete, que também participa das atrações de equilíbrio.

 

Exercício de equilíbrio diante do trauma / Asa Campos

 

Em uma cena de metalinguagem um ator carrega o pianista até o piano. Risos. Esses ginastas fazem pirâmides humanas, mastros chineses com os corpos em posição de totem, três atletas um em cima do outro, de cabeça para baixo e em muitos exercícios de altura.

O risco se mistura com os sustos das cenas do pesadelo. A atriz escorrega, desce e sobe nos outros e plana no ar, exata. O jogo de aparar os volantes e amparar a ansiedade do confronto destaca a relação entre os artistas de números aéreos da lona, que têm no portô o ponto central de confiança para o número dar certo.

O contexto dessa canção e o título do espetáculo, “Strach, a Fear of Song”, além da ascendência polaca do criador da música, ressaltam a abordagem política do grupo realizador deste espetáculo.

 

Trio faz posição de totem / Asa Campos

 

O temor infantil e o pânico diante do assassinato traumático no Holocausto reconfiguram as significações do espetáculo circense, são falsas as gargalhadas ouvidas na peça.

Dos épicos lançamentos da personagem no ar até a delicadeza que nos impõe a canção de amor, que fala do último encontro de um casal de amantes e descobre-se então que é a última canção de amor quando se está prestes a ser assassinado por inimigos sem humanidade e ética ao som de um violino em chamas.

Cohen afirmou em entrevistas que “Dance Me to The End of Love” refere-se a campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, que apresentavam música com pequenas orquestras enquanto os judeus eram assassinados (1941-1945). Leonard Cohen foi vencedor do Prêmio Príncipe das Astúrias (2011) e escreveu o livro de poemas “Flowers for Hitler” (1964).

 

Acrobacia diante da tragédia / Laure Villain

 

O espetáculo encena o canto e a dança do medo porque evoca momentos terrificantes da história a começar pela palavra polonesa do seu título, “Strach”, situada no âmbito semântico do susto e da ameaça de humanos contra seus semelhantes. O efeito da tragédia se derrama sobre nós no corpo pisado dos atores.

O pavor se irradia dos versos que falam de testemunha e abrigo. A perseguição aos judeus, sobretudo na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Não há como não pensar também no terror da destruição da Terra pelo esgotamento dos recursos vitais planetários.

Em algumas passagens do espetáculo o elenco convida pessoas do público a dançar e a experimentar exercícios de equilíbrio, a viver o que viveu. Depois se pinta de vermelho, como índios ou feridos, e tingem o público.

 

Rosto pintado de vermelho como índio ou ferido / Asa Campos

 

Muito do jogo das mãos nas acrobacias aponta para o alto. Nessas passagens os atores não expressam súplica, mas também não representam serenidade.

“Strach” explora o insólito — no circo o insólito é arte — quando evoca a desconfiança e a traição humanas. A pesquisadora de circo Alice Viveiros de Castro escreve no site Circonteúdo que o picadeiro “nasce como espaço onde tudo pode ser exibido desde que seja capaz de surpreender, emocionar ou impactar o público. Teatro, música, dança, cenários retumbantes, figurinos maravilhosos, todos os meios eram válidos para encantar a audiência”.

 

Lembrança que somos uma comunidade / Asa Campos

 

Nenhum lugar é melhor para mostrar como vivem as pessoas do que o circo, que tudo absorve e mistura. O diretor e autor da concepção de “Strach”, Patrick Masset, tem uma resposta à epidemia de pânicos do tempo presente com posicionamento político contra o capitalismo que para ele gera competição e crueldade entre os seres.

O programa do 5º CIRCOS destaca declaração de Massert de que somos uma coletividade e nos convida a fazer diferença: “O capitalismo nos coloca na competição por um mundo que só dá voz aos ricos. Antes tínhamos medo da morte, agora temos medo da vida. Não é normal”.

Pela primeira vez na América do Sul, “Strach, a Fear of Song” é uma montagem do grupo Théâtre d’un Jour e foi considerado o melhor espetáculo de circo no Prêmio da Crítica em Bruxelas, em 2018.

 

Cena de Strach, a fear song / Asa Campos

 

 

Ficha técnica

Direção e concepção: Patrick Masset. Elenco: Airelle Caen, Alice Noël, Denis Dulon e Guillaume Sendron. Cantora: Julie Calbete. Produção: T1J. Produção no Brasil: Circus Produções. Diretor de produção: Guto Ruocco. Produção executiva: Paulo Aliende.

 

Em São Paulo no festival CIRCOS, do Sesc

“Strach, a Fear of Song” (“Strach, a Canção do Medo”) foi apresentada em 18 e 19/6 na Sala de Espetáculos II no Sesc Belenzinho na quinta edição de Circos – Festival Internacional Sesc de Circo. Duração 65 min. Recomendação etária: 12 anos. O festival ocorreu em várias unidades do Sesc na capital paulista e Guarulhos de 13 a 23/6/2019.

O evento promove espaço de compartilhamento e discussão sobre artes circenses entre o público e artistas brasileiros, franceses, espanhóis, são companhias de 19 países que apresentaram peças de teatro, encenações, intervenções, filmes e atividades formativas.

O 5º CIRCOS trouxe nove espetáculos brasileiros e 11 internacionais, da Alemanha, Argentina, Austrália, Bélgica, Chile, Equador, Finlândia, Reino Unido, Itália, Marrocos, México, Peru, Portugal, Quênia, Rússia e Suécia.

 

Clique aqui para ver a canção, de Leonard Cohen, “Dance me to The End of Love”

 

Clique aqui para ver “Strach” filmado

 

 

*Mônica Rodrigues da Costa é crítica de teatro do “Guia da Folha de S. Paulo” e deste site, professora doutora e poeta.

 

FOTO DE CAPA – Artista, travesseiro e o medo de homens com máscara de lobo / Asa Campos

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