Pé na Estrada

Teatro Mágico completa 10 anos

 

 

 

Grupo realizou shows comemorativos em São Paulo (15 e 16/11), Rio (22/11), Salvador (24/11) e Porto Alegre (7/12) e Belo Horizonte (21/12)

Bruna Galvão

 

O Teatro Mágico completa dez anos de existência em 2013. Para celebrar a data, realizou shows em diversos locais do Brasil 15 e 16/11 em São Paulo (HSBC Brasil), 22/11 no Rio de Janeiro (Vivo Rio), 24/11 em Salvador (Concha Acústica), 7/12 em Porto Alegre (Opinião) e 21/12 em Belo Horizonte (Chevrolet Hall).

O grupo musical é um dos mais inusitados do país e mescla música com o teatro, literatura e circo. O nome Teatro Mágico foi pinçado do livro “O Lobo da Estepe”, do escritor alemão Hermann Hesse (1877- 1962). Na história, o teatro mágico, é “só para raros”, e não pertence à realidade, porém, é constituído de fragmentos de personalidades reais.

 

 

“Seguindo esse raciocínio, aquele que sobe no palco do Teatro Mágico [de Osasco] é uma pessoa que busca tirar as suas amarras e ser ali um personagem mais radical na vestimenta, na pintura, na expressão, no som, no movimento, trazendo uma metáfora para cada objeto ali exposto”, diz a bailarina Andrea Barbour que também dedica-se a números aéreos.

Para compor a magia necessária no quesito “fuga da realidade”, a trupe se inspira em outros grandes artistas, que também inovam em seus feitos. Alguns deles são: Charles Chaplin (palhaço e ator), Alexander Popov (palhaço) e Eugenio Recuenco (fotógrafo). Os grupos La Minima (Brasil), Les Passagers (França) e DV8 Fisical Theatre (Austrália) são outras fontes de inspiração para o Teatro Mágico.

 

 

Fundado pelo músico Fernando Anitelli na cidade paulista de Osasco, o grupo passou por algumas alterações de integrantes ao longo de sua carreira e hoje é formado por Fernando Anitelli (voz, violão e guitarra), Daniel Santiago (guitarra), Galldino (violino), Guilherme Ribeiro (teclado e acordeon), Serginho Carvalho (baixo), Rafael dos Santos (bateria) e pelos artistas performáticos Andrea Barbour, Nathalia Dias, Nayara Dias, Katia Tortorella e Mateus Bonassa.

 

 

Veja mais detalhes de como o circo se faz presente no grupo na entrevista com Andrea Barbour:

 

PANIS & CIRCUS- O nome do grupo é baseado na história do livro “O Lobo da Estepe”, de Herman Hesse. No teatro mágico da obra há uma fragmentação do “eu” em seus diversos “eus”. Como o circo pode ajudar as pessoas a se autoconhecerem?

ANDREA BARBOUR- O circo pode ajudar as pessoas a se autoconhecerem de maneira que estimula o indivíduo a realizar um aprofundamento em si mesmo. Na busca de se criar variados outros personagens é preciso se desfazer do seu próprio personagem, se desfazer das suas amarras, dos seus estigmas, dos seus esteriótipos, daquele seu movimento óbvio.

Esse exercício de se desfazer é primordial na criação circense. Quando se investiga um clown, um trapezista ou alguém que vai apresentar ali o impossível, é necessário se desfazer dessa figura tradicional, desse senso comum, desse lugar de conforto que estamos acostumados a habitar. O palhaço, por exemplo, só consegue se tornar um palhaço quando consegue rir do próprio ridículo, rir de si mesmo. O circo, portanto, colabora no ato de se autoconhecer quando através dele nos tornamos capazes de enxergar também o ridículo em nós mesmos.

 

 

 

PANIS & CIRCUS – O circo vem se transformando dentro do grupo? Como isso se dá? Quais elementos circenses não podem faltar e por quê?

ANDREA BARBOUR – A mutação é natural ao longo dos anos: ela se origina do próprio amadurecimento do grupo em querer buscar, cada vez mais, novas perspectivas e formas para se trabalhar.

A transformação do circo se deu a partir do momento em que outras linguagens começaram a ocupar o espaço cênico das apresentações. A própria estética da trupe se modificou no sentido de focar menos na qualidade só do clown e trazer um questionamento mais teatral nos personagens. A idéia de somar a dança, a perfomance e as artes plásticas junto ao circo trouxe ao universo visível uma infinidade de novas portas abertas à imaginação.

O que não faltam nos shows do Teatro Mágico são seres que voam e trazem na singularidade do gesto de ocupar o ar a proximidade e o encantamento do público.

 

 

 

PANIS & CIRCUS – Quais são as referências circenses do grupo?

ANDREA BARBOUR – O Teatro Mágico busca inspiração em inúmeras referências visuais, teatrais e musicais, mas a que deu início a toda composição cênica do projeto foi principalmente a Commedia Dell’ Arte e seus desdobramentos. As muitas cores e as variadas faces traziam para o espetáculo uma diversidade de vivências capazes de atrair públicos de todos os tipos. A irreverência de Charles Chaplin contribuiu e muito para construção dos personagens sempre politizados que decidimos colocar em cena. O palhaço russo Popov, o americano Avener e o próprio La Minina sempre foram grandes referências palhacísticas.

Hoje essa essência ainda permeia suavemente algumas criações, porém outras novas e distintas concepções artísticas visuais foram agregando os estudos, por exemplo, o conceito imagético contemporâneo do fotógrafo Eugenio Recuenco está bastante próximo das composições que buscamos atualmente. Um estilo de imagem que remete ao tom cinematográfico, possui drama, mistério e exotismo em alta qualidade cênica.

Para além das referências em dança e artes plásticas os grupos que possuem o circo contemporâneo como pilar também nos interessam como fonte pesquisa. A tensão e a força do grupo catalão “La Fura Dels Baus”, a sutileza e o vigor dos americanos do grupo “Momix”, a sensibilidade voadora da cia Francesa “Les Passagers” nos ensinam como tratar o espaço circense de maneira interativa e com referências da dança. Entre outras, cias como “Les 7 doigts de la main”, “Fuerza Bruta”, “Compañía Retouramont”, “Chouinard Compagnie” e a incrível australiana “DV8 Fisical Theatre” trazem o teatro físico em uma unidade com a forma circense de maneira bem consistente. Mas a fonte de inspiração é inesgotável, o segredo é estar aberto e entregue verdadeiramente ao que se investiga.

 

 

PANIS & CIRCUS – Vocês estão sempre em ‘transição’ no Teatro Mágico?

ANDREA BARBOUR – O artista possui naturalmente a inquietação de se aprimorar, pesquisar, estudar, estar em constante transição. Sempre dizemos que “a nossa constância é a nossa mutação”. Essa querência nos faz olhar para os acontecimentos e relações com mais gana, curiosidade e tempero. A arte é cada vez mais plural, o Teatro Mágico é na sua origem plural e sempre incentivou a participação e colaboração.

A reinvenção é necessária por uma questão de sobrevivência e resistência do projeto. Ela ocorre no momento em que nos alimentamos e nos apropriamos de certas referências, interpretando-as dentro do nosso contexto e de nossas inquirições. O resultado dessa combinação é despejado em cena visualmente, musicalmente e textualmente.

A reinvenção estética, musical e performática acontece no grupo de tempos em tempos, porque entre uma e outra existe também o momento de desenvolvimento e amadurecimento da própria ideia. O projeto tem consciência de que é necessário estar em constante diálogo com os debates da sociedade, acompanhar o que acontece socialmente a sua volta e sempre permanecer atualizando as criações dentro desta conversa. Vida e arte não se separam.

 

 

PANIS & CIRCUS- Comente um pouco sobre os artistas de circo do Teatro Mágico.

ANDREA BARBOUR – Por ser uma companhia artística, muitos profissionais talentosos já somaram com ao espetáculo ao longo de sua trajetória. São sempre pessoas muito bem dispostas, guerreiras e maleáveis. É preciso saber se adaptar com facilidade às distintas situações, e ao mesmo tempo, manter a firmeza em cada composição. Todo show é um desafio, o estado de criação precisa ser constante: a mutação é a própria constância. Normalmente, são artistas bastante plurais, capazes de permear por diferentes áreas das artes e do próprio conhecimento em geral. Acomodados, jamais!

 

 

PANIS & CIRCUS – Como será o show de aniversário dos 10 anos do Teatro Mágico?

ANDREA BARBOUR – O show de aniversário será um grande cerimonial de homenagem a toda estrada já percorrida. Trazer a tona grandes momentos, resgatar sensações e vibrações antigas sem abandonar o que construímos até agora. As aparições performáticas foram elaboradas especialmente para contar essa história.

Teremos quatro bailarinas aéreas ‘performando’ simultaneamente. Decidimos juntar as forças criativas para dar o peso e vigor que essa caminhada merece.

Agora, só assistindo para descobrir o que tudo isso poderá despertar em você!!! Portanto, compareça e prove-se!

 

Fotos – Show de lançamento do DVD Recombinando Atos, no Credicard Hall, em SP / 2013 por Rodrigo Berton.

 

Postagem: Alyne Albuquerque

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3 Responses to "Teatro Mágico completa 10 anos"

  1. Ester Oliveira disse:

    Já estou com meu ingresso comprado para o dia 15 em Sp. Não estou me aguentando de tanta ansiedade, minhas expectativas para esse show são enormes e tenho certeza que O Teatro Mágico, mais uma vez vai me surpreender!

  2. Julia Borges disse:

    Pela leitura…fiquei mais e mais ansiosa!! Sei que será tudo muito lindo!!!

  3. Andressa disse:

    Paro, Paro, Paro Andrea é a maior olho junto que eu conheço.
    Paga pau de fila fã e agora que dar de estrela.
    para falar de criação de TM tem que ser com quem fundou o TM
    A estrutura da sua entrevista estava linda eu adorei mas você poderia ter falado com quem entendi realmente da base do TM

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