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Última sexta-feira para ver Vizinhos no Youtube, às 20h: acrobacia com afeto na corda bamba do dia a dia.

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Prepare a pipoca! Essa sexta, 30 de junho, é o último dia para ver o  espetáculo Vizinhos, pelo Youtube, às 20 horas. Essa transmissão faz parte da programação da 1ª Mostra de Repertório da Artinerant´s, companhia  criada pelos artistas Maíra Campos e Nié Pedro, sócios fundadores do Circo Zanni.

Para assistir é só entrar no Youtube da Artinerant´s http://www.youtube.com/channel/UCyg_cfCbDO0eFDdehmitMtg

Vizinhos, o primeiro espetáculo da trilogia, brinca com o conceito de feminino e masculino com toques de humor e surrealismo. É o caso de um sofá que engole o acrobata e um varal que vira um fio para o caminhar e o trocar de roupa da equilibrista em metáfora do dia a dia.

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Palco iluminado com a dupla da Artinerant´s

Por Dario Palhares*

Impossível assistir a “Vizinhos”, o primeiro dos três vídeos da Mostra de Repertório da Cia. Artinerant’s, sem lembrar de “Chão de Estrelas” (1937), embora o clássico do cancioneiro nacional não integre a trilha do espetáculo, apresentado originalmente em 2014. Protagonizada por Maíra Campos e Daniel Pedro, o Nié, a produção, filmada em março e lançada em 9 de julho, é uma versão com final feliz da seresta de Sílvio Caldas (1908-1988) e Orestes Barbosa (1893-1966), que exalta em tom melancólico, após o fim de um relacionamento, “nossas roupas comuns dependuradas, na corda qual bandeiras agitadas.”

Logo na abertura, a personagem de Nié ganha a companhia de uma “invasora” em seu cantinho, que poderia muito bem ser “um barracão no morro do Salgueiro”. De maleta em punho, a musa trata logo de marcar presença: pendura os seus trapos, mostra a sua faceta artística, retirando máscaras da valise, e inicia uma interação gradativa com o dono do pedaço. A dupla deixa de lado reservas e desconfianças e acaba dividindo uma porção de macarrão, em meio a acrobacias.

A comunhão do prato é o ponto de partida para uma série de performances conjuntas. Um dos pontos altos ocorre durante uma arrumação da bagunça doméstica, com um bailado que tem como ilustre coadjuvante uma mesa equipada com rodízios. Outro é a sequência final, que mostra o enfrentamento e a reconciliação da dupla após a audição de um relato radiofônico sobre o lado sombrio do casal formado por Jean Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986).

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Os solos também são destaques de “Vizinhos”. No caso de Nié, o grande momento é o hilário episódio em que ele tem de lidar com um livro “grudento” e uma poltrona “devoradora”, que atrapalham o seu ritual de leitura. Seus apuros trazem à memória a cena de abertura de “Luzes da Cidade” (1931), na qual o Carlitos, de Charles Chaplin (1889-1977), acaba fisgado por uma espada empunhada por uma estátua, durante a inauguração de um monumento público.

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Maíra, por sua vez, consegue se livrar de um cabide ao qual estava pendurada e sobe ao arame, no terceiro bloco do espetáculo. Durante nove minutos, ela caminha, pula, se estende e muda três vezes de figurino sobre a corda bamba. Remetendo novamente à obra de Caldas e Barbosa, a artista comanda “um estranho [e belo] festival”, uma “festa dos nossos trapos coloridos”.

Dirigido por Lu Lopes, “Vizinhos”, que foi contemplado com recursos do Programa de Ação Cultural (Proac) do governo paulista, por meio da Lei de Incentivo Aldir Blanc, bebe diretamente na fonte das artes circenses, berço da formação profissional de Maíra e Nié. O bom humor do espetáculo é reforçado pela trilha sonora, que apresenta, entre outras composições, “Piel Canela”, a cargo de Eydie Gormé (1928-2013) e Trio Los Panchos, “He Venido”, com Los Zafiros, “Você não Vale Nada”, em interpretação de Tiê, e uma versão instrumental, à la Dixieland, de “Summertime” (George Gershwin – DuBoseHeyward). Para os próximos projetos da Artinerant’s, fica aqui a sugestão de “Chão de Estrelas” – de preferência na voz do grande Nélson Gonçalves (1919-1998) –, que promete tornar ainda mais radiante o “palco iluminado” de Maíra e Nié.

*Dario Palhares é jornalista e artista plástico com peças em papel traçado e colado – uma delas é sobre uma lona de circo.

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