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Uma trinca de saltimbancos

Domingos no ar e os Betos/ Foto Divulgação

 

Domingos Montagner, ator global e palhaço (Circo Zanni e La Mínima) comenta os 30 anos do grupo Pia Fraus.  

O grupo Pia Fraus comemora 30 anos e o ator global e palhaço Domingos Montagner fala de sua experiência na companhia  na qual ingressou em 1989 e permaneceu lá durante 11 anos. Com 30 peças no repertório e passagem por 21 países, a companhia nasceu da união de Beto Andreetta, ex-aluno do Vento Forte, e do artista plástico Beto Lima. Uniu-se a eles, Domingos — que acabou por mudar o nome do grupo, antes era “Beto & Beto e Cia” e passou a ser Pia Fraus – em latim, que significa ‘uma mentira contada com boas intenções’. A trupe ficou conhecida, sobretudo, pelo uso de bonecos gigantes em produções infantis como “Bichos do Brasil”. Também foram marcantes as parcerias com os “Parlapatões” e “Acrobático Fratelli”. Em 2005, morre Beto Lima. As informações são do Guia Divirta-se do Estadão.

Abaixo o depoimento de Domingos Montagner

“Conheci Beto & Beto em 1988 ou 89. Memórias do século passado, às vezes são difíceis de ter precisão. Da década de 80 então…

Fui procurar uma oficina de Teatro de Bonecos que eles estavam ministrando. Era na antiga Oficina Três Rios que virou Oswald de Andrade. O espaço nesta época ‘fervia’, oferecia diversos cursos ótimos e a classe artística era ávida por obter e trocar conhecimentos. Sim, a classe artística já foi assim.

Este ambiente era a cara dos Betos: festivo, movimentado, criativo, um tanto desorganizado e muito, muito produtivo.

Logo depois da oficina, eles me convidaram a fazer parte do grupo. Eu adorei e fui. Decidimos que o nome da companhia devia mudar e eu sugeri PIA FRAUS, do latim, ‘uma mentira com boas intenções’, era a nossa cara…
E foram 11 anos juntos, oito espetáculos, centenas de bonecos e muita, muita estrada.

Beto Lima desenhava os bonecos. Suas formas eram inconfundíveis, era escultor do barro e dele vinham Bichos Froxos, tias rodriguianas, mariposas, Henriettes, solitários poetas a procura de suas cabeças ou até mesmo santas e santos inundados de dramaticidade barroca.

Muitas vezes os bonecos vinham antes dos espetáculos. Procurávamos ou criávamos histórias, que pudessem acolher aquelas criaturas. Elas poderiam vir de Mary Shelley, Lorca ou do Jequitinhonha, inspiração recorrente do bonequeiro de Paraopebas.

A escancarada ‘mineirice’ se manifestava também, de maneira quase incontrolável, na paixão pela chamada ‘culinária perversa’. Eram históricos seus jantares quando voltava de seus encontros com Dona Rosa, mãe adorada e idolatrada. Montava banquetes com linguiças, buchinho cheio, torresmos, tutus e muita cachaça. Era a celebração dionisíaca que abastecia o espírito da companhia.

Beto Lima era a celebração do amor pela vida. Tinha uma capacidade de comunicação inigualável. Viajamos para muitos países, da Colômbia a Suécia, passando por Espanha, Escócia ou França e nunca vi alguém com uma capacidade como a dele de falar qualquer língua, em português.
Ensinei Beto a pilotar moto, seu primeiro veículo. E numa época de vacas bem magrinhas, com pouco dinheiro pro frete, íamos para as apresentações, com malas de bonecos e figurinos amarrados nas nossas intrépidas XL 250. Uma performance.

Durante estes 11 anos, a PIA FRAUS éramos nós três. Uma trinca de saltimbancos, apresentando-se em teatros, ruas, bares, boates, escolas ou até mesmo igrejas.
E tenho certeza que foi nesse meio tempo, jogando conversa fora num quarto triplo no interior de Minas, entre um prêmio em Edimburgo e um projeto na periferia de Diadema, que eu aprendi a ser artista.
E com Beto Lima, eu entendi o que é a alegria de amar o que se faz.
Parabéns PIA FRAUS, continuamos juntos.”

 

 

 

 

 

Postagem: Alyne Albuquerque

 

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