Pé na Estrada

Secretário anuncia novo edital do circo

André Sturm, no Café dos Artistas, no Centro de Memória do Circo/Foto BT

 

Da Redação

O secretário municipal de Cultura de São Paulo, André Sturm, anunciou o novo Edital de Criação Circense, no Centro de Memória do Circo, na quinta-feira, dia 28 de abril.

O edital estará disponível para a categoria a partir de quarta-feira, dia 3 de maio. Entre os presentes ao anúncio informal estavam José Wilson Leite, do Circo Spadoni, Mario Junior, do Circo Fantástico, Lu Gualda e Ronaldo Valente, produtores circenses, Verônica Tamaoki, do Centro de Memória do Circo, e Bel Toledo, diretora do Conselho Brasileiro de Entidades Culturais (CBES).

A verba de R$ 2 milhões destinada ao novo edital do circo faz parte de um volume total de recursos da ordem de R$ 4 milhões, incluída na Lei de Fomento ao Circo, aprovada no final do governo municipal do petista Fernando Haddad (2013-2016). Os outros R$ 2 milhões seguem congelados pela prefeitura.

Em 21 de fevereiro, o secretário fez a primeira reunião com os circenses no Centro Cultural de São Paulo em que o descongelamento das verbas da cultura foi um dos principais pontos. (Leia mais abaixo).

Os coletivos culturais da cidade de São Paulo e os funcionários dos equipamentos e articuladores culturais se juntaram e formaram a Frente Única da Cultura, que busca junto à Secretaria da Cultura o descongelamento integral das verbas.

Em entrevista ao Panis & Circus, Bel Toledo, diretora do CBES, afirma que o secretário André Sturm tem um histórico de apoio ao circo. Fazem parte das medidas de apoio ao setor o endosso à proposta de criação do Festival de Circo em Limeira e a inclusão da categoria circo no Prêmio Governador do Estado – à época em que era coordenador de Fomento e Difusão na Secretaria de Cultura Estadual (2007 a 2011), e a promoção, agora, do novo edital do Circo.

Em 2016, na gestão anterior da Secretaria Municipal da Cultura, o circo foi tratado “a pouco pão e quase nada de água”, afirma Bel. “Não tivemos ações importantes como a 9ª Palhaçaria Paulista, a 3ª edição da Gala do Circo no Theatro Municipal e perdemos o palco do circo na Virada Cultural.”

Ela também não poupa críticas à atuação de Stepan Nercessian (PPS) frente a Funarte: “ele não é aberto ou afeito ao diálogo”.

A seguir, os principais pontos da entrevista com Bel Toledo.

André Sturm e Bel Toledo no Centro de Memória do Circo/Foto BT

 

Panis & Circus: Como surgiu o novo edital para o circo e quem é o responsável por ele?

Bel Toledo: O André Sturm, secretário municipal de Cultura de São Paulo, chamou representantes do circo para apresentar uma proposta de um novo edital. Entre essas pessoas que foram convocadas estavam os circenses Alessandro Azevedo, César Guimarães, Martin Sabatino, Maria Carolina Costa, José Wilson Leite e eu. Ele tinha restrições à forma como as leis de fomento foram manejadas em gestões anteriores. Daí surgiu a ideia do edital que foi apresentado no dia 28.

Panis & Circus: A verba de R$ 2 milhões do edital não estava vinculada à Lei do Fomento apresentada no fim da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT)?

Bel Toledo: Durante o ano passado nos articulamos num movimento pela categoria Circo e o ex-prefeito Fernando Haddad, no final de sua gestão, aprovou a Lei de Fomento ao Circo com o valor de R$ 4 milhões. Dos R$ 4 milhões, R$ 2 milhões foram liberados agora. Outros R$ 2 milhões fazem parte do montante de verbas que estão congeladas pela Prefeitura. Nós temos um bom relacionamento com Sturm. Quando ele era coordenador do Departamento de Fomento e Difusão (secretaria estadual de Cultura – de 2007 a 2011), eu apresentei a ele uma proposta de fazer um festival de circo. Ele acatou a proposta e realizamos um festival de circo em Limeira, que agora está indo para a sua 10ª edição e é feito com a Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA). Ele incluiu também a categoria circo no Prêmio Governador do Estado, entre outras ações. Agora, o novo edital.

Panis & Circus: Como serão feitos os repasses para os artistas circenses?

Bel Toledo: Os repasses do dinheiro devem ocorrer em três etapas e ser compartilhados, grosso modo, da seguinte forma: R$ 25 mil para artistas que serão contemplados, R$ 100 mil para 11 grupos e R$ 150 mil para 5 circos itinerantes. Somando serão R$ 2 milhões a serem distribuídos por meio da seleção do edital.

Panis & Circus: Existe a perspectiva de se conseguir no segundo semestre a liberação dos outros R$ 2 milhões?

Bel Toledo: Existe a possibilidade e o que ficou acordado é que, no segundo semestre, voltaremos a conversar com ele sobre os R$ 2 milhões faltantes.

Panis & Circus: O edital vai focar também a pesquisa ou está restrito a circulação de espetáculos?

Bel Toledo: O edital não será apenas um de circulação de espetáculos com apresentações gratuitas para a população. Ele vai contar também com verbas destinadas à pesquisa, desenvolvimento dos artistas e de projetos. Ou seja, voltado à qualificação.

Panis & Circus: Por que qualificação é considerada uma palavra mágica no edital do Circo?

Bel Toledo: O fato é que existem pesquisas e desenvolvimento na área circense na Europa e nos Estados Unidos. Aqui, os circos itinerantes enfrentam uma série de dificuldades. No caso dos grupos, eles não têm locais de ensaio ou fábricas de equipamentos. Temos de procurar o marceneiro da esquina, desenvolver tudo de maneira informal. Faltam escolas bacanas. Os saberes acabam sendo passados de maneira muito informal, entre nós mesmos. É preciso desenvolver as potencialidades e possibilidades para a qualificação circense. Por tudo isso, essa é a nossa palavra mágica.

Panis & Circus: Com relação aos outros editais do Circo, qual a situação atual?

Bel Toledo: O Carequinha (Fundação Nacional de Artes – Funarte) não foi realizado em 2016 e está sem previsão para 2017. O atual presidente da Funarte, Stepan Nercessian (PPS), que assumiu a função no lugar de Humberto Ferreira Braga, exonerado em dezembro, não é aberto ou afeito ao diálogo.

O Proac permanece igual. Nós conseguimos que ele não sofresse redução. Fizemos uma movimentação política bem expressiva e, com isso, não houve cortes na verba.

Panis & Circus: Existem outras ações relevantes sendo desenvolvidas?

Bel Toledo: O Tendal da Lapa vai abrir um edital para os grupos ensaiarem e haverá lugar para, principalmente, os aéreos, que hoje encontram dificuldade de achar lugares para ensaios. A previsão é de que este edital seja aberto até o final desse mês, mas ele não contempla verbas. Somente o espaço de ensaio mesmo. Será como uma residência artística. Existe também um terreno na Zona Norte que vai ser avaliado – por causa de contaminações – e, se for liberado, dentro de um mês, deve ficar sob a administração da Associação dos Amigos do Centro de Memória. Ele poderá ser usado para apresentações de circos itinerantes. O Centro Cultural Tiradentes, que tem um espaço bem grande, também será liberado para que os circos que fazem periferia, circos de médio porte, possam utilizá-lo.

Panis & Circus: Por que você diz que a categoria Circo foi tratada a pouco pão e quase nada de água na gestão anterior da Secretaria Municipal da Cultura?

Bel Toledo: Na gestão anterior, mais especificamente na de Maria do Rosário Ramalho, nós não tivemos avanços. E é importante frisar algo que ocorreu: fomos contemplados com a emenda do Tiririca e, no momento, em que faltava apenas finalizar o processo com a documentação, o prazo foi perdido. A documentação não foi entregue pela secretaria, sendo que o dinheiro (R$ 1 milhão) já estava depositado na conta da Caixa Econômica. Isso foi um crime! No ano passado não tivemos ações importantes como a 9ª Palhaçaria Paulista, a 3ª edição da Gala do Circo no Theatro Municipal e perdemos o palco do circo na Virada Cultural. Sofremos muito com o descaso daquela gestão.

André Sturm, secretário, debate com os circenses no Centro Cultural Vergueiro/Foto Asa Campos

 

Programação circense em bibliotecas, anfiteatros, centros culturais e casas da cultura

“Nós queremos que as 52 bibliotecas, 10 anfiteatros, 12 centros culturais e 18 casas de cultura, tenham uma programação continuada, semanal, e que englobe as diversas linguagens artísticas e o circo, certamente, deve estar presente nessa programação”, afirmou o secretário municipal de Cultura, André Sturm, durante encontro com circenses tradicionais e contemporâneos, em 21 de fevereiro, no Centro Cultural Vergueiro. O encontro foi realizado para que fosse debatido a redução das verbas para a cultura e para que a secretaria pudesse conhecer mais de perto universo circense.

Verônica Tamaoki (Centro de Memória do Circo) e Gabrielle Araújo (Secretaria da Cultura)/Foto AC

 

Segundo o secretário, o Tendal da Lapa “vai ser um espaço para que os artistas possam treinar, possam exercitar e possam experimentar – enfim, um espaço para os profissionais do circo. Depois, a gente vai criar uma escola de circo para quem queira aprender o circo”.

Ator-acrobata Rodrigo Matheus, do Circo Diverso/Foto Asa Campos

 

O ator-acrobata, Rodrigo Matheus, afirmou no encontro a importância do descongelamento de verbas para a cultura, a pesquisa para a renovação da linguagem circense e espaços para os artistas treinarem com equipamentos de segurança. E viu com bons olhos a notícia sobre o Tendal da Lapa. Afirmou fazer parte do movimento Circo Diverso, recém-criado, e que “é preciso notar que o circo abarcou todas as linguagens dentro das suas lonas e ocupou todos os espaços para levar os seus espetáculos, e é fundamental entender isso hoje também. Diversidade sempre fez parte da história do circo e tem que se manter em todas as ações do poder público”.

José Wilson, do Circo Spadoni/Foto Asa Campos

 

José Wilson, representante do circo tradicional, criticou o excesso de papelada exigido na montagem de um circo itinerante. Diretor do Circo Escola Picadeiro e do Circo Spadoni, ele afirma que “para a gente entrar num terreno, nós precisamos de 30 dias e nada menos que 39 documentos”. E se a praça é ruim para ir para outro local vai ser exigido novamente um monte de papéis e taxas de pagamento. “Então gostaríamos muito, nós já tivemos algumas boas conversas, à época, que o senhor estava à frente da secretaria (de Fomento e Difusão Cultural do Estado de 2007 a 2011) que pudesse intervir para melhorar essa questão da documentação e dos terrenos disponíveis para a montagem dos circos”.

Martin Sabino, dos Irmãos Sabatino, e Circo Diverso/Foto Asa Campos

 

Para Martin Sabatino, dos Irmãos Sabatino, e integrante do Circo Diverso, é importante desenvolver um plano setorial para o circo. E defende que “as propostas consigam agregar prestígio intelectual ao nosso segmento artístico” fundamental para o desenvolvimento de trabalhos de interesse e excelência.

Hugo Possolo, dos Parlapatões/Foto Asa Campos

 

Hugo Possolo, dos Parlapatões, por sua vez, lembrou que no Largo Paissandu esteve instalado o Circo de Piolim – eleito pelos modernistas como símbolo de brasilidade. Hoje, o local abriga o Centro de Memória do Circo – que traz uma das exposições mais visitadas da cidade e seu acervo é reconhecido pela Unesco. O artista reclamou do congelamento da verba do fomento do circo “que já era restrita, ou seja, R$ 4 milhões diante de R$ 8 milhões, R$ 12 milhões e R$ 18 milhões do teatro” e da marginalização sofrida pelo circo que faz com não se consiga voz de interlocução – o que pode vir a ser contornado em encontros no Centro de Memória do Circo.

Após a fala de cada circense era dita a frase: “E o que nós queremos? E a resposta do público presente era sempre única e em alto e bom som: “Descongele a cultura já”.

Sturm garantiu que “nós estamos indo atrás de todos os recursos. Estamos mapeando todas as emendas aprovadas por deputados para ativá-las o mais rápido possível”.  

E o novo edital do Circo que entra em vigor em 3 de maio parece seguir nessa direção.

Circenses no Centro Cultural Vergueiro/Foto Asa Campos

 

 

 

One Response to "Secretário anuncia novo edital do circo"

  1. Fernanda Vilela disse:

    É muito importante deixar claro que este novo edital NÃO É A LEI DO FOMENTO. A classe circense e seus representantes continuam lutando e exigindo diálogo e eficiência na execução da Lei Municipal de Fomento ao Circo, que foi elaborada e aprovada em 2016 através de massivo e consistente diálogo da categoria com o poder público.
    (Para os interessados, é a LEI Nº 16.598 DE 21 DE DEZEMBRO DE 2016)

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