Picadeiro

Confira curta temporada de Vitória-Régia

 

Cena de Vitória Regia: Kiko Caldas é a Lua / Foto Paulo Barbuto

 

O espetáculo Vitória Regia, da Cia K, volta a se apresentar em São Paulo, em curta temporada, de 24/8 a 9/8, no Teatro Arthur Azevedo, na Móoca, região leste da capital.

O espetáculo, baseado em lenda tupi-guarani, conta a história de Naiá, uma índia que se apaixona por Jaci, a Lua. Amor impossível que faz com que Naiá se transforme e mergulhe em águas profundas.

Vitória-Régia mistura circo, música, multimídia e teatro físico.

Leia abaixo o comentário da artista circense Erica Stoppel e a reportagem do Panis & Circus sobre Vitória Régia.  

 

Girar feminino no número aéreo / Paulo Barbuto

 

Erica Stoppel, especial para Panis & Circus*

Vitória Régia se apresenta em curta temporada no Teatro Arthur Azevedo. Assisti o espetáculo no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, num sábado, 21/7. O teatro que tem 1010 lugares estava lotado.

Toca o terceiro sinal. Começa o espetáculo em que se descortina um cenário surpreendente: um espelho d´água em que são projetadas imagens de um vídeo. A sonoridade da água e a projeção de um céu de estrelas se amalgam e criam uma noite de sonho. A iluminação, a música, a poesia, as artes plásticas e o circo se somam a serviço da construção de uma obra que traz à cena a lenda amazônica da Vitória Régia.

 

Técnica precisa e apurada em cena

 

O estudo dos gestos é rigoroso e o teor técnico, apurado. A composição dos movimentos mostra a proximidade do do corpo na água e do corpo no ar.

Na dança das bailarinas, o que se vê é virtuose. Aqui há um traço do trabalho da talentosa coreógrafa Cinthia Beraneck, bailarina e aerealista  (artista que participa de números aéreos como corda, lira e trapézio) e com carreira internacional. Ela é responsável, ao lado de Kiko Caldas pela direção e os dois são os criadores da versão original do espetáculo.

Os corpos estão vestidos com um figurino marcadamente de traços geométricos que formam figuras que contrastam com o fluído da imagem digital. A criação do figurino é de Dani Garcia. O poder das imagens junta-se à força da percussão tribal. A música é texto no espetáculo: sensível e poética, criada por Samir El Shaer, Lucas Vargas e Sandami.

A mandala, o ritual, a cerimônia, o sagrado no encontro de corpos profanos, acrobáticos, encharcados de água e respingando no ar, nos levam a um lugar de conexão ancestral com a natureza.

 

Magia de Vitória-Régia: efeitos especiais / Paulo Barbuto

 

O movimento da Maria Cristina Milani (a Kiki), dentro d’ água, lembra um peixe e mostra que a ex-atleta do nado sincronizado passou muitas horas de treino e imaginação com pele de escamas.

As artistas Iara Gueller, Margreet Nuijten e Natalia Furlan somam a precisão de aerealistas à sincronia do movimento dos aparelhos aéreos que é operada com maestria pelos técnicos de palco, Edimar dos Santos e  Wagner Junqueira Junior. Na cena se revela a paixão com que eles operam motores e polias (rodas para a correia transmissora de movimentos) sem a qual o espetáculo não poderia acontecer. No circo, os técnicos de segurança são nossos anjos, responsáveis pela vida dos intérpretes, os pés das bailarinas, o encontro dos corpos e a criação de movimentos mágicos.

 

Movimentos aéreos feitos com precisão / Paulo Barbuto s

 

Kiko Caldas, que interpreta a figura masculina, diante de um coletivo feminino, congrega neste trabalho a força e o talento, marca de sua história de vida.

Como se criam com a linguagem do circo imagens tão poéticas num palco? Profissionais de largas experiências se agregam na construção desse trabalho. Eu percebo aqui a soma de talentos e artistas que fazem arte com amor, trabalho, rigor e dedicação, e, vale ressaltar, com condições preciosas de produção. Isso tudo se soma num espetáculo belo que me lembrou o que é viver o teatro como uma experiência. Que orgulho para o circo brasileiro poder apresentar um espetáculo de tão bom gosto e feito com paixão! E compaixão!

Talvez, a temática desta obra pudesse ser o flertar humano com um ser da natureza e sua trajetória heroica com desfecho feliz na forma de lenda. 

* Erica Stoppel é artista circense e docente. Sócia fundadora do Circo Zanni e do Piccolo Teatro Circo.

 

Serviço

Local: Teatro Arthur Azevedo – avenida Paes de Barros, 955 – Mooca

Dias e horário: De 24/8 a 9/9 – sextas e sábados, às 21 horas e domingo às 19 horas. Ingresso: R$ 20

Informações: (11) 2605-8007

 

Veja abaixo a reportagem do Panis & Circus sobre Vitória-Régia

 

Kiko Caldas em Vitória Régia no Sesc Pinheiros / Foto: Paulo Barbuto

 

 

Cena de Vitória Régia sobre espelho d´água/Foto Paulo Barbuto

 

 

Vitória-Régia mistura circo, dança e efeitos multimídias

Fernanda Araújo, especial para Panis & Circus

Atleta aos 12 anos de idade, Kiko Caldas treinava quatro vezes por semana. Foi jogador de rugby por 13 anos, capoeirista e acrobata – função na qual ajudou a construir a história do circo moderno como um dos fundadores da companhia Acrobático Fratelli. O artista – agora com a Companhia K – encara o desafio de montar o espetáculo Vitória Régia com performances sobre um espelho d’água, no palco do Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiros, neste sábado (21), às 21h; e domingo (22), às 18h.

O espelho d’água tem 10m por 6m, com uma espessura de 5 cm. “Está dando trabalho pra caramba ficar em pé, pois a superfície é muito lisa. Já descobrimos que o tombo faz parte dessa preparação”, afirma Kiko Caldas.

 

Efeito especial de Vitória Régia / Foto Paulo Barbuto

 

Outros efeitos prometem encantar o público, como a cena da chuva e os vários efeitos multimídia. “O dinheiro do incentivo é muito pouco. De qualquer modo, com o passar dos anos reuni uma estrutura que me permite ter equipamentos modernos, um galpão, caminhão próprio e tudo isso contribuirá para o diferencial no palco”.  Kiko Caldas acrescenta que “no circo, trabalhamos com a felicidade, mas esse espetáculo toca em sentimentos. Trata-se de um amor platônico e intenso. Sem querer dar spoiler, é possível que as lágrimas brotem”.

 

Kiko Caldas e a lua na lenda da Vitória Régia / Paulo Barbuto

 

 

A lenda

O espetáculo surgiu um dia, quando Kiko decidiu montar um espetáculo infantil com um número de lira. Para a criação do roteiro, inspirou-se em cinco narrativas de um livro com viagens pelo Brasil que ele lia para os três filhos. Assim foi, até que ele decidiu conceber uma montagem exclusiva para Vitória Régia, uma das cinco histórias.

Em 2009 estreou Vitória Régia, em montagem exclusiva para piscina.  O espetáculo contou com Tainá Caldas, filha de Kiko e especialista em nado sincronizado. Atualmente, a jovem encontra-se em intercâmbio teatral em Portugal.

 

O amor entre a índia e a Lua / Foto Paulo Barbuto

 

Na trama, a flor mais famosa da Amazônia surgiu da paixão da índia Naiá por Jaci, a Lua. Na tentativa de alcançar o reflexo do satélite na água, a moça se afoga. Jaci, conhecido por transformar virgens em estrelas, decide dar à moça a forma de uma nova estrela, ali mesmo, na água, e cria a bela vitória régia.

O novo espetáculo, no Teatro Paulo Autran, segue a mesma lenda narrada na piscina, mas tem formato diferente, com muita dança e recursos de mídia. O público que conferiu a versão anterior pode reconhecer algumas cenas, mas a maioria é inédita “É realmente um novo espetáculo”, garante o criador.

 

Plasticidade das artistas no espetáculo / Foto Paulo Barbuto

 

 

Limite do corpo

Além de assistir a emocionante lenda indígena em versão multimídia, esta pode ser a última oportunidade do público de apreciar as exímias manobras do profissional que dedicou o corpo à arte. Kiko não quer mais sentir dor.  

Perto de completar 50 anos (29 de dezembro), com duas próteses no quadril e uma série de lesões, Kiko Caldas deseja continuar com a vida de artista. “Quero ser ator”, resume, modesto, apesar da coleção de tributos: diretor, dublê, preparador artístico e consultor.  

“A tecnologia me ajuda bastante. Coloco o despertador para me lembrar da hora de dormir e de acordar. Uso os recursos do celular e mantenho um ritmo. Passei por algumas lesões, foi meio desanimador, e resolvi me despedir pois percebi que o interessante não é só a virtuose. A emoção é fundamental”, declarou o artista. “Estarei em cena, mas não aguento mais o rigor”.

No período “desanimador”, a que ele se refere, o acrobata buscou ajuda de diversas maneiras, além da medicina tradicional. “A dor me levou a outros caminhos, terapias, solo sagrado. Tenho minhas crenças, sou católico, mas frequento candomblé. Acho que ter fé foi importante, mas não a fé da igreja, do templo. A melhora veio da natureza e descobri, por exemplo, o incrível poder da respiração”.

 

KiKo Caldas / Arquivo pessoal

 

Kiko também faz questão de afirmar que a dança teve uma função primordial no domínio do corpo. “Por volta de 2000, no espetáculo ‘Cubo’ – criado e dirigido pelo cineasta Fernando Meirelles – aprendi muito com os coreógrafos Susana Yamauchi e João Maurício. A dança agregou um traço artístico ao meu trabalho”.

A decisão de mudança, entretanto, ocorreu em novembro do ano passado e, aparentemente, não houve uma motivação maior. Tratou-se de uma consciência corporal de quem já sofreu bastante, procurou alternativas, melhorou, mas deseja sair de campo como campeão. “Percebi que deveria diminuir a cerveja e melhorar a alimentação. Não parece, mas eu chegava a comer três pães franceses por dia. Acho que sou magro de ruim mesmo”, brinca o artista. “Também nunca abusei das coisas”.

A parceria com a diretora e coreógrafa Cinthia Beranek também expõe uma comunhão de corpo e de dança. “Cinthia veio de muitos anos do Soleil e tenho uma parceria incrível”, diz Kiko com admiração e respeito.

 

A vida na lira exige esforço / Foto Barbuto

 

A deliberação de Kiko sobre o novo rumo de sua trajetória pessoal é natural, mas provoca reflexão. Chama a atenção para o fato de que a vida na lira, no trapézio, no arame e em outros aparelhos salta aos olhos do espectador, mas esconde um esforço, muitas vezes, brutal que vai além dos tendões, músculos e articulações. O corpo desgasta intensamente e o artista sofre com a rigorosa rotina de treinos. Daí a decisão de sair de campo.

 

Trio em cena / Foto Paulo Barbuto

 

 

Ficha técnica Vitória Régia

Concepção: Kiko Caldas

Direção: Kiko Caldas e Cinthia Beranek

Coreografia: Cinthia Beranek

Direção de arte e figurinos: Daniela Garcia

Light Design: Marisa Bentivegna

Vídeos: Samir El Shaer

Video Mapping cena estrelas: VJ Spetto

Trilha Sonora: Samir El Shaer, Lucas Vargas e Sandami

Cenografia: Cia. K

Produção: Carrapeta Produções – Carol Santiago e Silvia Lopes

Produção Executiva: Nayara Dias

Fotografia: Paulo Barbuto e Samir El Shaer

Assessoria de imprensa: Mara Conti

Técnicos de palco: Edilson Junior e Vagner Junqueira

Elenco: Kiko Caldas, Ieda Cruz, Kiki Milani, Natalia Furlan, Margreet Nuijten e Iara Gueller.

 

Serviço:  

Data: 21/07 (sábado) e 22/06 (domingo)
Local: Sesc Pinheiros – Teatro Paulo Autran (subsolo)
Endereço: R. Pais Leme, 195 – Pinheiros, São Paulo – SP
Horário: Sábado (21), às 21h: e domingo (22), às 18h
Ingressos: de R$ 12,00 a R$ 40,00

Classificação indicativa: livre 
Capacidade do teatro: 1010 pessoas

 

 

 

 

Legenda Foto de Capa – Kiko Caldas em Vitória Régia no Sesc Pinheiros / Foto: Paulo Barbuto

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