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A arte do ilusionismo
Mônica Rodrigues da Costa, especial para Panis & Circus*
O espetáculo “Hai, a Pescadora de Sonhos”, da companhia Giramagic, resultado de parceria entre Espanha e Brasil (SP) no teatro para o público infanto-juvenil, começa com a protagonista do título em pé dentro de um barco, a cabeça coberta por um saco de papel desenhado com um olho só.
A mascarada realiza uma série de movimentos usando as mãos. O espectador logo pressente que conhecerá uma história que não repete o mero cotidiano.
A trilha sonora inicial tem sons de pássaros e depois a voz deles em outras partes da montagem. Parecem gaivotas nas viagens costeando as praias.
A peça não tem palavras e é levemente cômica, convidando o público mais para uma viagem pelas imagens. Mas há piadas como o jogo, em uma cena, da palhaça usando conchas de vários tamanhos (aquelas por onde ouvimos o som do mar, como no costume popular), e uma delas tem uma antena de rádio para melhorar a transmissão sonora!
O lugar onde a única atriz (Joana Rhein) fica é um barco solitário no oceano insondável – essa é a sensação, embora no palco tenha só a embarcação. A personagem Hai é uma viajante das profundezas submarinas da imaginação de cada espectador, que entende a narrativa como quer.
Na proa há uma bola e na popa um mastro com bandeirinha branca. No centro um balde ou caixote que mais parece a caixa mágica dessa ilusionista de circo. Os efeitos de luz são exatos na encenação e destacam os truques que Hai exibe.
Trata-se de uma heroína do presente, está com roupa urbana de meia estação de São Paulo ou da Espanha. Cria simbolismos visuais compreendidos universalmente, sem necessidade de explicações, com a arte do ilusionismo. Saem de sua boca metros e metros de cordas e cordões.
Essa inusitada personagem mora no barco e trabalha com vários trecos que saem do balde e compõem seu dia a dia nas águas. Na roupa, lenços se multiplicam. Ela faz truques também de aparecimento e desaparecimento com areia.
A atriz tira sons percussivos do corpo e da boca e a plateia interage acompanhando. Às vezes o ritmo da música segue o som de coração batendo, órgão ao qual ela remete diversas vezes em seu gestual.
Hai pesca literalmente uma vez no mar e a isca se ilumina.
A cenografia se concentra no barco e objetos que se transformam diante do público dentro da embarcação, como acenderem e apagarem lanterna e luzinhas e um balde de onde se originam várias cenas, como teatro de objetos e com miniaturas.
O teatro de bonecos apresenta o barco e a protagonista no mar, a miniatura é igualzinha até na listra estilizada do traço indígena de sua maquiagem.
Efeitos se espalham. Sai fumaça da caixa balde. A plateia se surpreende e aplaude sempre as transformações, como bolhas de sabão se metamorfosearem em bolas transparentes de números de ilusionismo. A cena da mágica com um livro em branco (em que surgem peixes e outros animais marítimos) é um dos ápices do espetáculo.
“Hai, a Pescadora de Sonhos”, com sua linguagem de transformação, ensina ao público lições ecológicas de cuidado com o mar e reaproveitamento de materiais. Uma velha colher de pau serve de mão de um boneco, entre outros procedimentos.
O espetáculo é bem-acabado e transmite delicadeza e demonstra a subjetividade da personagem, típica do gênero lírico. Apesar de sua qualidade, “Hai, a Pescadora de Sonhos” não é um espetáculo para crianças menores de sete anos, pois a maioria delas não consegue entender o enredo construído de forma aberta, aquele em que o leitor tem de completar o seu sentido. Por exemplo, as imagens que a peça produz são complexas, uma nascendo das outras, e encantam mais as crianças maiores e os pais do que os menores.
Ficha técnica
Direção, concepção e criação: Joana Rhein e Miquel Crespi.
Elenco, cenografia e vestuário: Joana Rhein.
Produção: Cia Giramagic.
Produção no Brasil: Raquel Rosmaninho.
*Mônica Rodrigues da Costa é crítica de teatro do “Guia da Folha de S. Paulo” e do Panis & Circus, professora doutora e poeta.
Foto de capa – Hai (Joana Rein) medita em um barco solitário / Asa Campos