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Veja os bastidores de “O Pavão Misterioso”
Depois de três meses de trabalho duro, o novo espetáculo do Grupo Namakaca estreou no Teatro Alfa
Cafi Otta, especial para Panis & Circus
O Grupo Namakaca acaba de estreiar seu mais novo espetáculo, “O Pavão Misterioso”, depois de mais de três meses de trabalho duro. Mas a plateia pouco sabe sobre os prazeres e desprazeres desse longo processo.
A montagem de um novo espetáculo é um trabalho de formiguinha. Um trabalho artesanal que mexe com a subjetividade de todos os envolvidos, e nesse caso foi uma numerosa equipe de profissionais: três atores – Du Circo, Montanha Carvalho e eu, Cafi Otta; uma diretora – Rhena de Faria; dois cenógrafos/ aderecistas – Marcos e Karina do PalhAssada Atelier; um figurinista – Christiane Galvan; uma assistente de figurinista – Mariana Lima; uma costureira – Cleide Mezzacapa; uma iluminadora – Lica Barros; um compositor de trilhas – André Caccia Bava; um fotógrafo – Paulo Barbutto e uma produtora executiva – Ludmilla Picosque.
Ufa, achei que a lista não acabaria mais.
Rotina exaustiva
A jornada deste espetáculo começou com a escolha da diretora. No início de 2014 nos sentamos para levantar nomes de possíveis diretores para o próximo espetáculo da companhia. O primeiro nome da lista era o de Rhena de Faria, palhaça e improvisadora de mão cheia, com quem já havíamos dividido palcos em diversas ocasiões nos últimos 15 anos. Na primeira reunião a empatia foi imediata. Levamos uma pasta com algumas ideias para a montagem, e ela sugeriu um texto de cordel muito antigo, totalmente desconhecido de nós três. Aceitamos sem muito pestanejar, vendo ali uma oportunidade de encarar um desafio diferente do que estamos acostumados.
O próximo passo foi a formatação do projeto para o concorrido edital do Teatro Alfa, que receberia inscrições entre agosto e outubro de 2014. Começava a torcida e a expectativa pelo resultado, que saiu cerca de um mês depois do fim do prazo de inscrição. Quando saiu a resposta positiva, deliramos!!!!!
Eu já havia estado em cartaz no teatro Alfa com o espetáculo “Jucazecaju”, e sabia o que aquilo representava. Um teatro maravilhoso, com uma equipe impecável e uma grande vitrine pra qualquer trabalho. Mais pra frente no texto eu descrevo melhor o teatro.
Definidas as datas da temporada, entre 27 de junho e 6 de setembro de 2015, fizemos o cronograma de ensaios, que começaram assim que terminou o carnaval, ou seja, na última semana de fevereiro começamos a nos encontrar três vezes por semana, com ensaios de três horas de duração.
Muitos atores e bailarinos estão acostumados a cargas horárias ainda mais pesadas, mas não é o caso do Namakaca. Mesmo com o rigor do treinamento técnico circense, criar e repetir cenas até que fiquem boas é muito difícil.
Ao todo foram mais de 50 ensaios, num total de mais de 150 horas de trabalho, sendo que a diretora não faltou em nenhum ensaio sequer, e nenhum ensaio foi cancelado, exceto por duas pausas no processo, quando dois dos atores tiveram viagens internacionais inadiáveis. O resultado de tanto esforço foi a estreia do espetáculo em condições ideais, com tempo para se adaptar ao teatro e aos objetos de cena, figurinos, luz e trilhas.
Uma história de amor
Muita gente conhece a música do Pavão Misterioso, composta pelo músico cearense Ednardo, imortalizada na voz de Ney Matogrosso.
“O Romance do Pavão Misterioso”, texto que serviu de inspiração para a montagem deste espetáculo, foi escrito em 1923 por José Camelo de Melo Resende, poeta paraibano porreta. Na verdade existe uma polêmica em torno da autoria deste cordel. Há quem diga que seu verdadeiro autor é João Melchíades Ferrreira, mas como essa é considerada a maior polêmica do cordel, quem sou eu para opinar.
Voltando a história… O cordel conta a saga de dois irmãos que, depois de perder o pai, resolvem se dividir: um continua cuidando dos negócios da família enquanto o outro sai para viajar e conhecer o mundo, com a condição de trazer um presente para seu irmão. Durante a viagem ele passa pela Grécia, e lá vê a aparição de uma belíssima donzela. Resolve levar um retrato da bela moça para seu irmão. Quando este vê o retrato perde o rumo, enlouquecido de amor. Imediatamente parte para a Grécia, decidido a se casar com a moça.
O problema é que o pai dela, um conde muito rico, é também muito bravo, e jamais deixou qualquer homem sequer falar com ela. Para driblar o pai da moça, o jovem encomenda um objeto misterioso ao cientista local, que constrói um aeroplano em forma de pavão. Após resgatar a donzela enclausurada ele foge, deixando o conde na mais profunda tristeza. E vivem todos felizes para sempre.
A adaptação do Grupo Namakaca transforma um pouco esta história, dando luz a personagens que pouco aparecem no romance original, e retirando da peça outros personagens que no romance aparecem com maior destaque. Não conto maiores detalhes porque senão estraga a surpresa.
Eu interpreto três personagens no espetáculo: Evangelista, o irmão que se apaixona pela donzela do retrato; um dos conciérges do hotel grego; e o fotógrafo Alan Delongo, que tira os retratos da moça enclausurada.
Meus parceiros têm ainda mais personagens sob sua responsabilidade, o que resulta num frenético jogo de troca de roupas, entradas e saídas com objetos diferentes, uma matemática milimetricamente estudada e que não pode dar errado. (Montanha Carvalho faz, por exemplo, a donzela Creuza, e um dos concièrge do hotel. Du Carvalho interpreta o irmão de Caffi Otta, o João Batista, que viaja o mundo, e o cientista que cria “O Pavão Misterioso”).
Parceria de camarins

“Dom Caixote” está também no Teatro Alfa ao lado de "O Pavão Misterioso", relata Cafi Otta / Foto Divulgação
Quem paga a conta?
Existem inúmeras formas de bancar uma empreitada como essa: prêmios, editais, patrocínios, “paitrocínios”, investimento próprio, fazer sem dinheiro… Como disse anteriormente, este espetáculo foi um dos ganhadores do edital do próprio Teatro Alfa, gerido pelo Instituto Alfa de Cultura, que depois de escolher os vencedores faz a captação dos recursos através da Lei Rouanet, com patrocínio do Banco Alfa.
O teatro oferece condições perfeitas de trabalho. Pudemos entrar no teatro para ensaios, montagem, afinação e gravação de luz e acertos finais no espetáculo com 4 dias de antecedência da estreia, um luxo. A equipe, composta de iluminadores, operadores de áudio e técnicos de palco topa qualquer desafio e ajuda muito! Temos pouco tempo entre os dois espetáculos para a troca de cenários, preparação dos objetos, reafinação de luz e testes de som. Enfim, sem eles isso seria impossível. O palco, mesmo sendo bem pequeno, está sempre impecável, limpo e com tudo funcionando. Ou seja, é um sonho mesmo poder estar em cartaz com nosso espetáculo por lá.
“O Pavão Misterioso” está entre os três eleitos pela revista da Folha
Mônica Rodrigues da Costa, editora do Publifolhinha, indica a peça “O Pavão Misterioso”, para crianças acima de seis anos, na seção “Os eleitos”, da revista da Folha, edição de 12 a 18 de julho.
Ela escreve: “Em versos de cordel dos anos 1920, combina circo, teatro e parlendas para contar as peripécias de dois irmãos que viajam pelo mundo até a Grécia. Um deles se apaixona pela princesa Creuza, e, a partir daí, a trama virá uma comédia de palhaços”.
Serviço:
“O Pavão Misterioso”
Local: Teatro Alfa – rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro. Ao lado do Hotel Transamérica, perto da estação Santo Amaro da linha 9 Esmeralda da CPTM;
fone: 5693-4000
Quando: sábados e domingos às 17:30. Até 6/9/2015
Quanto: de R$ 15,00 a R$ 30,00.
Fone para ingressos: 4003-1212 ou ingressorapido.com.br
Postagem – Alyne Albuquerque