Picadeiro
“Clockwork” apresenta-se no “Eu Rio – 3º Festival Internacional de Circo do Rio de Janeiro; Palhaça Rubra agita a plateia no Dia do Palhaço no Municipal, em São Paulo
Plateia fica presa do começo ao fim pela excelência dos “Sisters”
Lu Menin, especial para Panis & Circus*
“Clockwork” é um espetáculo da cia. “Sisters” (Irmãs) que é formada por um espanhol (Pablo Rada Moniz), um dinamarquês (Mikkel Hobitz Filtenborg) e um francês (Valia Beauvieux), que se conheceram, em 2009, na Universidade de Dança e Circo, em Estocolmo, na Suécia. Eles se apresentaram nos dias 27, 28 e 29/11 na programação da 3ª edição do Festival Internacional de Circo no Rio de Janeiro, que tem como tema “Eu Rio”.
O espetáculo explora possibilidades incríveis de composição com três corpos diferentes. Um loiro comprido dinamarquês, um espanhol de forte presença e um jovem francês habilidoso. Ilusões criadas ali embaixo dos nossos olhos e cheias de mágica, corpos que se juntam os pedaços formando seres mutantes, mutáveis e versáteis que provocam novas percepções sobre o corpo.
Uma refinada pesquisa de movimentação sobre as técnicas realizadas no mastro chinês, acrobacias, roda alemã, guitarra e força capilar, com a determinante presença da dança em sua base. Seis mãos realizam com maestria uma orquestrada travessia acrobática muito criativa e original. Quanta energia e técnica desse trio!
Montagens de aparelhos feitas em cena, mostrando a força mas ao mesmo tempo expondo a fragilidade e a sensibilidade de cada movimento realizado.
Imagens ricas, movimentação precisa, genialidade na criação, cenas marcantes de fusão de corpos, de criativas montagens de aparelhos e possibilidades de composições físicas e espaciais inusitadas e genuínas.
Os “Sisters” mostrou um belo espetáculo de circo contemporâneo que prende do começo ao fim pela sua excelência!
*Lu Menin é artista circense, sócia do Circo Zanni e integrante do Circo Amarillo
Festival Internacional de Circo do Rio de Janeiro
“Clockwork”, criativo espetáculo internacional de circo contemporâneo, apresenta-se, nos dias 27, 28 e 29/11, às 20 horas, no Circo Crescer e Viver, dentro da programação do 3º Festival Internacional de Circo no Rio de Janeiro. O evento estreou em 26/11 e estende-se até 6/12.
O 3º Festival Internacional de Circo do Rio de Janeiro tem como tema “Eu Rio” – em homenagem à cidade que completou 450 anos no dia 1º de março.
O festival mais uma vez vai transformando o Rio em um grande picadeiro. São 90 espetáculos gratuitos levados a todas as regiões da cidade. Cerca de 30 renomadas companhias, nacionais e internacionais virão de toda a parte do Brasil e de países como Suécia, França, Espanha, Alemanha, Chile e Argentina para mostrar o que há de melhor e mais moderno no universo poético do circo. Organizado pelo Circo Crescer e Viver, idealizador e produtor de todas as edições, o festival conta com o patrocínio da Prefeitura do Rio de Janeiro e da Secretaria Municipal de Cultura, com parceria da Rede Globo.
Clique aqui para ver a programação do Festival.
Dia do Palhaço promove encontro entre o circo contemporâneo e o tradicional
Fernanda Araujo, especial para Panis & Circus
A história do artista Estevão Regino, primeiro circense a desembarcar no Brasil, junto com a família real, foi o mote da Noite de Gala, em homenagem do Dia do Palhaço, em 10/12, no Theatro Municipal.
“As Aventuras Alucinadas do Circo Regino” teve direção de Rodolfo García Vázquez (diretor do Grupo Os Satyros) e roteiro de Hugo Possolo (diretor dos Parlapatões).
À palhaça Rubra, mestre de cerimônia da noite, coube a missão de apresentar os números do circo contemporâneo e tradicional.
Rubra fez todos levantaram o tórax. E também o bíceps, o cóccix e a “panceps”. Legítima representante da linguagem contemporânea, a genial palhaça cantou em uma mistura de português, com francês, japonês e inglês. Arriscou até uma ópera, em homenagem ao Theatro Municipal. O maior sucesso musical da noite, entretanto, foi “Tchu Tchu, Tchu Tchu”, uma faixa na qual crianças de todas as idades suspenderam os braços para dançar junto. Ao lado dela, a turma de palhaços engrossou coro e coreografia.
Memórias do Circo Regino
Não faltou entre o respeitável público aqueles que buscavam na memória lembranças do Circo Regino, o mais antigo do país.
Esforço em vão. Pois é, de fato, o tal circo nunca existiu. Tratou-se na realidade de um recurso narrativo para encaixar diferentes atrações em um único espetáculo. E cumpriu a tarefa.
A trama inventiva discorria sobre a saga de Estevão Regino, circense que chegara ao Brasil em 1808, ao lado de Dom João, em narração gravada em vídeo por respeitados veteranos da categoria como Bruno Edson e Tavares Pimenta – todos presentes na plateia. Nessa toada, o convincente enredo extrapolou a tela (suspensa no palco) e ganhou consistência na presença do último membro dos Regino, o jovem Reginaldo (representado pelo ator Ricardo Rodrigues) em “As Aventuras Alucinadas do Circo Regino”.
Os números exibidos no palco ganhavam remissão à fabulosa história, com a graça e o humor do antigo circo-teatro. Reginaldo contou que criou o personagem “Gorducho” para participar de festas infantis e garantir renda extra.
Destaques: La Belle Époque e Humor
Primeiro número da Noite de Gala, a lira graciosa das meninas do Zanni (Bel Mucci, Dani Rosa Rocha, Erica Stoppel e Lu Menin) demonstrou perfeita harmonia com a música escolhida. As apresentações nos arcos começaram a partir de uma centopeia formada pela junção das garotas em volumosas saias vermelhas, em um figurino que remetia à La Belle Époque. (Veja vídeo acima).
A contorcionista chinesa Odgerei Oynbaatar, do Circo Spacial, foi uma das atrações da noite: exibiu elasticidade extraordinária sobre uma pequena mesa. Também do Spacial, o palhaço Pepé Jardim regeu, com criatividade, uma orquestra de sinos improvisada com “músicos” selecionados na plateia.
Na barra fixa, Guga Carvalho deu um show. Interpretou um personagem um tanto atrapalhado e com sátira ao figurino dos antigos apresentadores de circo com molejo do tipo Elvis Presley cover. O paletó curto do conjunto azul brilhante permitia mostrar-lhe a barriga sempre que os braços seguiam para o alto. A combinação de técnica precisa e humor – ao lado de sua partner, Silvia Compte – foram executados com uma despretensão milimetricamente calculada e bem-sucedida.
O número de báscula dos aviadores com figurino do começo do século – feito pelos Irmãos Sabatino (André e Martin) e Guga Carvalho – teve também humor e técnica.
Impagável a apresentação de Pablo Nordio e Marcelo Lujan (Circo Zanni e Amarillo) por sua comicidade excêntrica ancorada na música.
Jermany Maciel, do Circo Broadway, demonstrou precisão em sua técnica no número de equilibrismo de cadeiras. Essa mesma precisão esteve presente no número da Percha, executado por Viviane Rabelo e Alfredo Munõz.
No palco, Rubra recebeu o circense Luiz Alfredo Munhoz, que foi quem ensinou ao filho Alfredo, a arte da Percha – aparelho usado no equilibrismo.

Percha no palco do Municipal / Alfredo Munõz, Rubra, Luiz Alfredo Munõz e Viviane Rabelo / Fotos Asa Campos
Dois palhaços do circo tradicional, Biribinha e Mixuruca, (Teófanes Silveira e Teófanes Silveira Junior) encantaram com a música extraída das garrafas de vidro, panelas e de uma pequena sanfona.
Os malabaristas – Anderson Silva, Romer, Victor Candi – brincaram com objetos como bolinhas e suas sombras na tela. E o espetáculo “As Aventuras Alucinadas do Circo Regino” acabou com o número de pêndulo (aparelho trazido para o palco do Municipal), de César Alves, do Circo Stankowich.
Público comenta
Edison Veiga veio ver o Dia do Palhaço com a esposa e o filho e gostou do que viu. “Trazer meu filho para esse momento é maravilhoso. O palhaço é uma figura culturalmente importante, não só pelo aspecto lúdico, mas pelo que ele representa para as crianças”.
Maria Elisa Hidalgo, que faz pós-graduação em artes, afirma que teve bons momentos o encontro promovido entre o circo contemporâneo e o tradicional. “A realidade, porém, é que eles podem até morar na mesma casa, no Brasil, mas a linguagem, o figurino, a música e a criação mostram que trilham caminhos diferentes faz tempo.”
Ainda que tenha considerado o espetáculo longo, o comerciante Braz Toledo considera que foi uma “noite feliz!”.
Ficha técnica:
Direção: Rodolfo García Vázquez – Grupo Os Satyros
Roteiro: Hugo Possolo – Parlapatões.
Apresentação: Rubra
Primeiro ato
La Belle Époque – Liras: Erica Stoppel, Luciana Menin, Bel Mucci e Daniela Rocha-Rosa (Circo Zanni)
Contorção: Odgerel Oyunbaatar (Circo Spacial)
Barra Fixa: Guga, o Rei da Acrobacia – Guga Carvalho e Sílvia Compte
Palhaço: Pepé Jardim (Circo Spacial)
Malabaristas: Anderson Silva, Romer, Victor Candi,
Despenhadeiro: Jermany Maciel (Circo Brodway)
Báscula: André Sabatino, Martin Sabatino (Irmãos Sabatino)
e Guga Carvalho
Segundo ato
Gordinho (tecido): Ricardo Rodrigues
Percha: Viviane Rabelo e Alfredo Muñoz
Palhaços: Pablo Nórdio e Marcelo Lujan (Circo Amarillo)
Equilíbrio de cadeiras: Jermany Maciel (Circo Brodway)
Palhaços convidados especiais: Biribinha e Mixuruca (Teófanes Silveira e Teófanes Silveira Junior)
Pêndulo: César Alves (Circo Stankowich)
Banda: Álvaro Lages (guitarra e voz), Nereu Afonso (bateria e voz) e Henrique Alves (baixo e voz)
Coro de Palhaços: Roberson Pereira, Teófila Lima, Tamara Vasconcelos, Carlos Cálamo, Emiliano Bicalho, Gustavo Guimarães, Maria Teixeira, Conceni Paulina, Gutto Vieira, Jessica Turbiani, Alexandre Zampieri, Guilherme Wander, Asnésio Bosnic, Delcianny Garces, Bianka Belavary, Bárbara Rodrigues, Daiane Rodrigues, Melissa Panzutti, Lidia Borges, Carolyn Ferreira, Jojo Brow-nie Souza, Fabiano Savan, Thiago Dias, Pedro Fontana, Paloma Natacia, Henrique Rimoli, Julia Lopes. Direção de Caco Mattos.
Postagem – Alyne Albuquerque