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Como fazer a diferença?, indaga Cafi Otta
Cafi Otta, colaborador do Panis & Circus
Sempre admirei o trabalho de artistas que se colocam em situações difíceis para ajudar a melhorar nosso mundo por meio de sua arte. Existem alguns exemplos de ações como essas por todo o mundo, como os Palhaços sem Fronteiras – organização não governamental espanhola criada pelo palhaço Tortel Poltrona, que trabalha em zonas de conflitos ou que sofreram desastres naturais. No Brasil, os Doutores da Alegria, que trabalham diretamente com crianças hospitalizadas, seus familiares e toda a equipe dos hospitais, são outro belo exemplo de profissionalismo e perseverança, realizando este trabalho há mais de 20 anos.
Há muito tempo venho buscando uma maneira de fazer alguma coisa parecida, e no dia 21 de maio deste ano (2016) surgiu uma oportunidade.
A zona de conflito escolhida foi um dos edifícios ocupados em São Paulo, onde apresentei a 50a sessão do espetáculo Carlos Felipe em Apuros. Minha porta de entrada neste universo foi o trabalho voluntário de uma grande amiga que atua diretamente com as crianças que vivem em algumas ocupações na capital paulista.
O problema de moradia nas grandes cidades brasileiras é sério e complexo, e, em todos os casos, as crianças são suas maiores vítimas. Aparentemente insolúvel, o problema situa-se entre o direito constitucional por moradia digna para todos, o direito à propriedade privada, a especulação imobiliária, e as cotidianas falta de vontade política e corrupção.
Um ponto importante para mim era o fato de não estar envolvido em nenhuma destas questões, não julgar nenhum dos envolvidos, nem ocupantes, nem proprietários, nem políticos, mas queria simplesmente agir e interagir com as crianças.
Parti para este desafio com hipóteses na cabeça. Várias se confirmaram.
Há mesmo, como suspeitava, muitas crianças dentro de um edifício ocupado, e elas não têm acesso a bens culturais diversificados. O que chega para elas vem pela televisão aberta, pelo rádio e pela internet. Elas não são levadas ao circo, ao teatro ou ao cinema, por exemplo.
Notei também que não eram crianças tristes, apesar das condições adversas em que são criadas. A grande maioria frequenta as escolas da região, mesmo tendo estruturas familiares frágeis. A situação de todos é parecida: um dos pais está preso, são muitos irmãos, normalmente os mais velhos cuidam dos mais novos enquanto os responsáveis fazem bicos em troca de salários míseros.
Refletem o abismo social do nosso país.
Apesar de a tristeza não ser predominante entre as crianças, os conflitos entre elas são resolvidos fisicamente, restando pouco espaço para o diálogo.
E o que mais essas crianças precisam é mesmo de afeto, bens subjetivos, ainda que elas passem o tempo todo falando de coisas materiais que ganharam dos pais e o que um tem e que o outro não tem.
A sensação que me sentiria seguro no local se confirmou. Os moradores do prédio foram extremamente receptivos, ajudaram a carregar a parafernália circense escada acima, me ofereceram um lanche, enfim, fui muito bem-vindo.
Mas deparei-me com fatos que não havia imaginado e que fazem parte do cotidiano das crianças que lá vivem. Existe um clima soturno no ar, no olhar das pessoas que vivem ali, talvez, pelo fato de que o estar ali não é por vontade própria, e que apesar de ser uma situação transitória e muito precária pode mudar para pior a qualquer momento, sem aviso prévio, e, normalmente acompanhado de batidas policiais. Esse clima me acertou com força.
Foi impossível, como pai, ver tudo aquilo sem ficar impactado. Tive que segurar a onda pra conseguir fazer o espetáculo, e por vezes me peguei fazendo malabares e pensando em tudo aquilo ao mesmo tempo. Terminei o espetáculo com um nó na garganta, e demorarei muito pra desatá-lo.
A questão que ficou e que não cala é o futuro. Não só o futuro daquelas pessoas, daquelas crianças, mas o futuro de todos nós.
Que sociedade é essa que cria e convive com tamanha exclusão – onde crianças têm que viver pulando de canto em canto carregando seus irmãos nas costas?
Que sociedade é essa em que uma jornalista põe o pé no caminho de um refugiado para que ele caía no chão?
Que sociedade é essa que pessoas se explodem em nome de sua fé?
Que mundo é esse que se constrói sobre o sofrimento dos outros?
Tenho vários amigos em grupos como os Doutores da Alegria e Palhaços sem Fronteira, e agora sei que não sirvo pra esse tipo de trabalho. Não consigo me relacionar apenas com os envolvidos, nesse caso apenas com as crianças, acabo me relacionando com seus problemas, e com isso vem uma sensação egoísta – a incapacidade de ajudar a solucionar seus problemas. Isso só fez aumentar minha admiração por quem faz de seu ofício uma arte na ajuda das pessoas mais fragilizadas.
Enfim, vejo que minha contribuição cívica para a nossa sociedade se dará em outro patamar – ajudando os não excluídos a enxergar a exclusão e que ela não pode continuar a ser rotineira, integrada a nossa paisagem urbana.
A rua se mostra agora como o melhor palco para isto. Vamos ocupar espaços em nossas cidades, compartilhar nossas visões de mundo democraticamente, sem intermediários, com liberdade, independência e responsabilidade. É tão possível quanto necessário.