Picadeiro
Trio Flamin vira solo de palhaço
Fernanda Araujo, especial para o Panis & Circos
Um artista entra em cena prometendo entreter a plateia até a chegada dos dois colegas. Ele cumpre a meta, mas os colegas nunca aparecem. E tudo bem! No espetáculo Trio Flamini, driblar a espera torna-se uma missão bastante divertida. “Meus colegas tiveram um imprevisto e devem se atrasar um pouquinho. Então, eu vou arrumando os instrumentos musicais por aqui. Mas, já, já eles chegam”, argumenta o palhaço argentino de sotaque abrasileirado.
O solo de Valentin Flamini foi uma das atrações do Festival Internacional de Circo da Cidade de São Paulo, evento gratuito realizado do Centro Esportivo Tietê, de 3 a 7 de abril.
O artista bebe um gole do líquido que traz na garrafa, equilibra o objeto na cabeça e cospe. Depois, fingue jogar água no olho e no nariz, e cada hora água sai por um lado. Para as crianças, a porqueira vira sucesso. Para os adultos, ele manda um recado: “O público ultimamente não se surpreende com nada mesmo. Tá difícil pra todo mundo. Vou tentar melhorar, mas vocês precisam me ajudar, né”, disse o palhaço conquistando a interação da plateia.
Das bolsas que ele levou surgem vários instrumentos ao longo das cenas. O primeiro, um prato de metal, é equilibrado na mão sem muito sucesso. Na sequência, ele roda o prato para o público e pede de volta. O argentino reclama do reflexo mais lento de algumas pessoas da cadeira e o fato de elas não se assustarem com o barulho do prato caindo no chão. Reclama também dos amigos que não chegam e transforma a rabugice em diversão.
Um pé de sapato é equilibrado na cabeça, um pé de meia é vestido sobre o outro sapato. A calça cai, exibindo a cueca que ele chama de capitalista (estampada com imagens de dollars). O acordeon é colocado nas costas, a chupeta no nariz, o pandeiro rasgando se regenera.
Ao fingir estar esfacelado no chão, o palhaço pede ajuda de alguma das crianças e faz da demanda um animado tumulto. E foi assim, com número batidos, que o argentino arrancou gargalhadas de adultos e crianças.
O número mais elaborado foi quando o palhaço tocou bateria equilibrando uma baqueta na testa.
Quase em clima de show de auto-ajuda, o argentino diz que é bom rir mesmo, pois todo mundo vai morrer. “Nascemos para morrer. Nascemos e vamos morrer. É a única certeza que temos. Estamos aqui hoje e amanhã podemos não estar mais. Por isso é importante viver com alegria”. Já no final, rindo, ele explica que os colegas não iam aparecer mesmo, pois um deles morreu andando de bike.
Para encerrar, ele abriu a mala e pediu a contribuição das pessoas que gostaram do show, dizendo aceitar inclusive os quitutes da praça de alimentação onde estavam. Rapidamente, um pedaço de pastel foi lançado à mala e puxou a fila de oferendas.
Nem tudo era piada
Após o show, a equipe do Panis & Circos conversou com a artista e questionou o que parceria ser uma piada sobre a morte do colega. Valentin Flamini explicou que o espetáculo é mesmo uma homenagem aos amigos.
“Eu, meu amigo e minha namorada integrávamos o Trio Flamini. Era ótimo. Um dia, há 11 anos, pouco antes da começarmos de retormamos uma temporada, meu amigo andava de bicicleta quando foi atrapoledo por um ônibus. Eu e minha namorada seguimos com o duo, mas o namoro acabou e a dupla também. Mas ainda somos amigos até hoje, e quando a gente se encontra, encenamos juntos”, explica o artista que preserva o nome em homenagem aos colegas, enquanto aproveita para brincar com o público e mostrar seus trabalho com a música.
Valentin Flamini ingressou na vida artística aos 18 anos. “Eu não sabia o que estudar e saí pelo mundo com meu companheiro. Viajamos por seis meses e fomos deportados em nosso primeiro espetáculo, na Bolívia. No Peru foi de boa, mas no Equador fomos deportados de novo”.
O artista passou mais de uma década na Chapada Diamantina, pois achava que a beleza da Bahia se assemelhava a Bariloche, lugar onde cresceu. Atualmente, aos 37 anos, ele vive em São Paulo e se apresenta em diversas praças da cidade. Após temporada dominical na praça do Sumaré ele negocia com a prefeitura para se apresentar em frente ao Museu no Ipiranga, no bairro em que reside.
“Tirando a modestia de lado, eu também sou um bom apresentador. Já apresentei na ‘Noite da Rose’ e na ‘Virada Cultural’. Ano passado, fui apresentador da ‘Noite Contemporânea’, aqui no Festival Internacional de Circo de São Paulo. Esse ano estarei no Festival de Brasília”.
Flamini também pinta placas. “Tenho um trabalho chamado Filetiado Portenho que tem muito a ver com o circo. Aceito encomendas!”, avisa o argentino, que pode ser encontrado nas redes sociais: Facebook Valentin Flamini e Instagram Valentin Flamini
Foto de Capa – Valentin Flamini durante o FIC Festival Internacional de Circo de São Paulo